As últimas palavras do Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude

| 27 Ago 2023

Capa da versão espanhola do livro ‘Hermanito’

As últimas palavras do Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude, já no voo de regresso a Roma, foram estas: Recomendo que não vos esqueçais: Hermanito, Fratellino, o livro do migrante.[1]

Procurei-o. Não existe ainda a versão traduzida para o português. Li-o então em espanhol.

O livro nasceu assim: «Estou na Europa, mas eu não queria vir para a Europa

É a história de Ibrahima, um jovem guineense, da sua viagem de esperança pelo deserto e pelo mar, pelas torturas, pelo tráfico, pela exploração, pela sede e pela fome. Guiné. Mali. O Sahara. Argélia. Líbia. Argélia de novo. Marrocos. O mar. Espanha. É poeticamente pesado, duro e triste. Não sei se se poderá dizer alto que um livro assim é bonito. É dolorosamente bonito.

Um livro escrito a quatro mãos. Ibrahima redigiu o livro com a sua voz e com a poesia que trouxe consigo desde Thiankoi e que nenhum traficante lhe conseguiu roubar. Amets Arzallus, jornalista basco, deu-lhe forma com palavras escritas.

Os dois conheceram-se quando Amets fazia uma ronda como voluntário da Rede de Acolhimento de Irún. Impressiona-me sempre descobrir histórias assim: vividas a quatro mãos, improváveis, que tornam palpável essa reciprocidade e horizontalidade que o verdadeiro acolhimento exige.

Comoveu-me e inquieta-me que o Papa Francisco tenha feito questão de deixar ‘Hermanito’ como a sua última mensagem da JMJ.

‘Hermanito’ é um livrinho que se lê em poucas horas. Mas, tem o poder de desconstruir as histórias únicas e simplistas que contamos sobre o drama das migrações e que institucionalizamos nessa manta de retalhos de pactos, regulamentos e diretivas. A vida de Ibrahima – como quase todas as vidas de quem chega às nossas comunidades – extravasa as fronteiras jurídicas e políticas que temos construído: migrante vs refugiado ou pobreza vs guerra ou migrações forçadas vs migrações voluntárias.

Ibrahima não partiu por causa de uma guerra. Não partiu por ser perseguido. Nem por ter nascido numa família profundamente pobre. Ibrahima tinha planeado o seu futuro:  ser condutor de camiões na Guiné e ajudar a mãe a cuidar dos irmãos pequenos. Mas, Ibrahima deixou a Guiné. Viajou até ao norte de África para procurar desesperadamente o irmão mais novo. Era responsável por ele e perdeu-o. Onde cabem a culpa e a responsabilidade nos critérios rígidos que traçamos para conceder asilo, títulos de residência e passagens seguras?

 Precisamos de ler devagar histórias assim: que dão voz, coração, alma, carne e osso às massas de pessoas aparentemente anónimas que lutam, sofrem e morrem a caminho.

Hermanito

Na última página da edição italiana do livro, um mapa marca os muitos lugares e caminhos que Ibrahima percorreu na sua jornada.

 

A quem, como eu, participou na Jornada ou acompanhou à distância, pode ter-nos parecido que o Papa Francisco optou por deixar o drama das migrações de fora da agenda da JMJ 2023. Os grandes discursos dos eventos centrais, onde falou diretamente ao coração de cada jovem, de facto e bem, a meu ver, não foram políticos. Mas, com um olhar atento, rapidamente descortinamos que assim que aterrou em Lisboa e antes ainda de aterrar em Roma, Francisco tocou nesta ferida perante a qual continuamos incapazes e indiferentes.

Acabado de chegar, às autoridades políticas, ao corpo diplomático e aos representantes da sociedade civil, Francisco foi assertivo:

Para onde navegais, Europa e Ocidente, com os muros de arame farpado, as mortandades no mar? [2]

Evitamos reforçar números, porque desumanizam, ocultam a singularidade de cada pessoa migrante e distanciam-nos de rostos concretos. Mas, estou certa de que o Santo Padre aceitará que traduza com evidências este seu grito em forma de pergunta para despertar consciências. Este ano de 2023, morreram já 2264 pessoas a tentar atravessar o Mar Mediterrâneo.[3] 28013 mortes desde 2014. 28013 túmulos sem nome, nem lugar.[4]

Permitam-me que diminua esta distância e que partilhe convosco um nome. Ou então, voltem a este último parágrafo depois de lerem Hermanito.

Não vos esqueçais de Hermanito. Do livro e, principalmente, de Alhassane, o nome do hermanito de Ibrahima, que descansa eternamente num dos muitos túmulos guardados pelo Mar.

 

[1] https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2023/august/documents/20230806-portogallo-voloritorno.html 
[2] https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2023/august/documents/20230802-portogallo-autorita.html 
[3] https://missingmigrants.iom.int/region/mediterranean?region_incident=All&route=All&year%5B%5D=11681&month=All&incident_date%5Bmin%5D=&incident_date%5Bmax%5D=
[4] https://missingmigrants.iom.int/region/mediterranean

 

Isabel Martins da Silva, cofundadora da MEERU (ONGD de apoio à integração de refugiados), jurista inquieta com a proteção da dignidade humana das pessoas em movimento no mundo, comprometida a transformar fronteiras em caminhos.

 

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