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As velocidades do tempo

Relógio das Portas Shepherd, Observatório Real de Greenwich (Londres). Foto © Wikimedia Commons

 

Joaquim, Jo para os ingleses, é das pessoas mais extraordinárias que conheci em Inglaterra. É construtor civil especializado em transformar sótãos das tradicionais casas ingleses em espaços habitáveis. Levanta-se cedo e toma o pequeno-almoço, a única refeição e pausa que fará até ao jantar. De resto, alimenta-se a café. Em apenas seis fins-de-semana, um loft (sótão) passa a quarto, sala, casa-de-banho, dependendo do tamanho. E é o Joaquim quem executa praticamente todo o trabalho: estrutura, pichelaria, carpintaria… Chega a cansar só de ver tanta habilidade junta.

Há uns meses, falei-lhe da ideia de uma escadinha para saltar uma vedação. Nesse mesmo dia, recebi uma mensagem para ver se era aquilo que eu queria. Quando saí à rua, já lá estava a engenhoca que permitia passar a cerca mais facilmente. Agora, até tenho receio de sequer lhe falar de alguma ideia.

Na minha experiência de tempo pré-pandémico, uma das grandes diferenças ao regressar a Portugal era a sensação de um tempo mais lento. Para quem acompanha a Fórmula 1, os pilotos que entram nas boxes têm de abrandar para o máximo de 80km horários. Na televisão parece que os carros estão parados quando comparado com a velocidade de pista. Era esta a imagem que me ocorria no regresso ao nosso país.

Em Inglaterra, num intervalo de apenas alguns meses, a visita a uma cidade vai-nos surpreender com um edifício que foi abaixo, outros que, entretanto, nasceram, ou estão em construção. Em Portugal, o prédio Coutinho (em Viana do Castelo) começou finalmente a ser demolido ao fim de anos (décadas?) de discussões e processos infindáveis. Estes dois exemplos, extremos, dizem muito.

Os ritmos mais acelerados trazem uma excitação e estímulos, mas tornam-se também cansativos ou extenuantes. As horas são as mesmas, mas sentem-se de maneira diferente.

A pandemia veio baralhar completamente a noção de tempo. Os últimos dois anos foram vividos com tempos que não batem com os ponteiros do relógio. A certa altura, parecia um slowmotion, noutras, uma catadupa de eventos que marcavam a agenda jornalística praticamente ao minuto e, por vezes, ao segundo. Temos ainda de fazer a catarse do que temos vivido até agora – e quem sabe por quanto tempo mais se prolongará.

O Observatório Real de Greenwich, referência mundial do tempo (e também das mediações cartográficas), inclui um icónico relógio com as 24 horas incluídas. Esta representação parece indicar, pelo menos visualmente, que o dia tem mais horas. Assim acontece com estes dias da pandemia, que confundem a nossa própria percepção de tempo. Eu olho agora para o meu ano e tenho dificuldade em acreditar que foram apenas 12 meses.

Luís Pereira, pai de dois filhos, reside em Inglaterra desde 2012, depois de ter concluído o doutoramento em educação para os media na Universidade do Minho. Desempenha funções na área da pedagogia e da educação digital.

 

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