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Cinema

Às vezes, nem o amor consegue salvar-nos

| 21/09/2021

Um Homem Só conta a história de uma relação familiar difícil

 

Falling, que em Portugal teve o subtítulo Um Homem Só, é a história de um pai (Willis) e de um filho (John) desavindos e (quase) sempre em rota de colisão, quer dizer, de agressão, de constante provocação unilateral da parte do pai, sempre contra tudo e contra todos.

Falling é um filme “violento” e muito incómodo (na sessão que fui ver houve um homem que saiu antes do fim, talvez por sentir-se incomodado). É angustiante assistir àquela recusa a mudar, a aceitar a bondade com que é tratado.

Diga-se também que pode enganar e parecer um filme um tanto linear, sem história, apesar daquele constante ziguezaguear entre o presente e o passado. Talvez seja a maneira que o realizador encontrou para mostrar o labirinto que é cada homem e cada mulher, a divisão interior vivida por cada pessoa, mais concretamente pelos dois protagonistas. É fundamentalmente disso que se trata, e chega a parecer impossível a verdade do que vemos, seja pelo lado do pai, seja pelo lado do filho. É possível ser assim tão mau e cruel? É possível ser assim tão paciente e bondoso?

Este primeiro filme de Mortensen nasceu em 2015, após a morte da sua mãe, que sofria de demência, e da relação conflituosa que ele próprio viveu com o seu pai. “Estava a tentar lembrar-me de coisas sobre ela e comecei a escrever uma história com algumas dessas coisas, sobretudo sentimentos e não factos”, explicou Viggo Mortensen ao Observer. “E tornou-se uma história de ficção. Foi a primeira vez que consegui o financiamento para gravar.”

O pai, ao fim de todos os conflitos e violências, acabou por ficar sozinho na sua quinta. É agora um velho ainda mais intratável, já com sinais de demência, que o filho vem buscar para ficar mais perto dele e da filha. Mas as coisas não vão ser fáceis, pese embora todo o esforço e paciência do filho, da compreensão por parte do marido do filho, e da disponibilidade infantil da filha que ambos adotaram. Apesar de alguns momentos de paz e de carinho, nomeadamente com essa neta adotiva, logo vêm ao de cima, quer dizer, às palavras ofensivas, todos os ressentimentos e preconceitos que tornam impossível qualquer diálogo. Mesmo no almoço de domingo, com a presença da filha e dos netos – um rapaz e uma rapariga – que tentam ser simpáticos com o avô, a tensão torna-se tão forte que todos se levantam, à exceção da neta mais velha que fica porque não tem medo do avô.

Não resta outra alternativa senão levar aquele pai, incapaz de reconhecer os seus erros e defeitos, e arrogantemente convencido de que ele é que está certo, de volta para a quinta. É esse o lugar onde ele se sente bem, com os seus cavalos. Aí haverá uma última e forte discussão em que até o filho não conseguiu resistir a palavras e gestos mais agressivos. A paciência, às vezes, também tem limites. Há pessoas que não mudam mesmo.

Mas aquilo que me parece importante ressaltar é a questão do perdão. O perdão do filho ao pai, apesar de todas as dúvidas e hesitações, e mesmo sem o pai o aceitar. A capacidade daquele filho de fazer tudo para redimir o pai, libertando-o do ódio que o destrói e oferecendo-lhe um final de vida sereno e familiar. Não conseguiu. O pai acaba por morrer sozinho na sua amargura, a lembrar ainda o amor que perdeu, que talvez pudesse ter vivido. Tinha havido alguns breves momentos de ternura e simpatia na sua vida. Mas o mal acabou sempre por vencer.

Como disse, não é um filme fácil. Mas abre muitas reflexões a partir da sensibilidade e histórias de cada espectador. Daria uma boa conversa entre pais e filhos, professores e alunos, catequistas e catequizandos… Na sua generosidade e humildade, sem esconder a complexidade dos sentimentos e a dificuldade de comunicar dentro da família, faz-nos perguntar onde estamos nós no modo como olhamos e julgamos os outros. Como acolhemos os outros. Como amamos os outros. Todos os outros.

 

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar).

 

 

Falling – Um Homem Só, de Viggo Mortensen

Título original: Falling

Com Viggo Mortensen, Lance Henriksen, Terry Chen e Sverrir Gudnason

Drama, M/14; EUA/GB/CAN, 2020, Cores, 112 min.

 

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