“À Sombra do Silêncio” – Elogio ao poeta do ‘pensar emocionado’

| 8 Mai 21

À sombra das suas asas –
diante de quem está todo o nosso desejo –
vivemos na esperança e ainda não vemos o que esperamos
(Agostinho de Hipona)

 

Todo o acto criativo nasce de um silêncio primordial, do espanto diante da inexplicável razão de ser das coisas. Este silêncio desejado, mais do que ocultamento, é expressão de um desapego superior. Nasce da deiscência da carne ressurrecional, da perfuração no ventre da matéria, na madrugada solar onde os tumultos das silagens selam os passos de uma presença ausente. “Antes da aparição do homem sobre a terra, o deus Silente reinava em todas as partes, invisível e presente […] deus criou o mundo em silêncio […] toda a boa criação deve ser concebida em silêncio”[1]. Esta inteligência do silêncio performativo muda tudo – o próprio conceito de arte?

Vivemos inconsciente e permanentemente sob o risco do dualismo. O espírito humano quer ser racional e ao mesmo tempo entrega-se, por necessidade biológico-existencial, ao pulsional, por muito espiritual que pretenda ser. Defende a evidência lógico-científica e simultaneamente devota-se aos ritos do invisível. Na praça pública, apologista do vigor moral e dos valores perenes, no segredo da intimidade, dá-se aos excessos imaginários e às frustrações da rigidez das convenções sociais ou prescrições religiosas estritas.

O insuspeito Georges Bataille interroga-nos como espada de dois gumes: “Mas o que é feito de nós quando, desintoxicados, conhecemos o que somos?[2]. E como chegar ao conhecimento do que somos?

No gesto silencioso de criação reside possivelmente a dimensão poética de um viver crente. Poiesis significa fazer/criar algo que não existia antes, dar forma inédita à palavra originária, trazer à luz sentidos inesperados, escutando e dialogando com aqueles e aquelas que, de um modo singular ou novo, pensam, narram, imaginam ou simbolizam o mistério Silente e Invisível na história do mundo. “O que devo amar senão o enigma? […]. Para se tornar verdadeiramente imortal, uma obra de arte deve superar todos os limites humanos: a lógica e o bom senso servirão apenas como obstáculos. Uma vez quebradas as barreiras, entrarei nas regiões da visão e do sonho de infância.”[3]

O filósofo conceptualiza o que o poeta pintor apenas evoca ou sugere. “Deus difere do desconhecido na medida em que uma emoção profunda, vinda das profundezas da infância, se liga primordialmente em nós à sua vocação.”[4] Pode ser que a chegada da transcendência se dê nos limites do possível, e além dele, no que está fora do fenómeno ou do campo de visão, no imaginário e no sonho, muito para além da lógica e do bom senso que nos assoberba na certeza da aquisição do objecto. Pois como diz ainda Bataille: “O mundo é dado ao homem como um enigma a resolver”[5]. O desejo de ser tudo, e todavia, “a noite do não-saber” que nos visita e assombra esse querer totalizante.

A via poético-simbólica ou narrativo-metafórica[6] é a porta de entrada para a auscultação atenta e imaginativa do mundo da vida. Analogia e experiência são modos conjuntos de aceder sempre timidamente ao real, ao ser do mistério e da criação. Esta via dupla é a expressão de um desejo de ser que se abre e expande para a alteridade. O apelo da poesia à admiração paciente da alva do cosmos é profundamente crístico: “Olhai os pássaros do céu […]. Observai como crescem os lírios dos campos” (Mt 6,26.28), que o poeta latino Virgílio, no seu épico Eneida, VI, 883, também já entoara pela boca de Anquises: “Manus date lilia plenis” (“dai lírios às mancheias”).

 

3-Emil Barthus, Da extensão do que não se sabe, 2021 (DR)

Da extensão do que não se sabe. Foto © Emil Barthus, 2021.

Este apelo à sabedoria alia a observação do criado à experiência da vida, convite a exercitar o pensamento crente, sapiencial e contemplativo, e nesse sentido possuidor de uma força crítica radical. O silêncio, a atenção, a escuta precede e diz a qualidade da resposta! O exercício da meditação e do silêncio atentos dispõem-nos a aí-ser quotidiano (Dasein heideggeriano), ao acolhimento afectivo da vida pulsante do Eterno na tenda devastada dos humanos. A revelação surpreendente de “À” Sombra do Silêncio expressa o “Há” vocal de uma “presença real”, não apenas enquanto espacialidade do “À” como estado existencial, ou modo de ser que acolhe o Evento, mas o “Há” de ser existente que a Sombra e o Silêncio subtilmente manifestam como presença real.

O desejo de habitar poeticamente os lugares do quotidiano, pois como constatava Martin Heidegger, parafraseando o poeta Hölderlin, “poeticamente o homem habita o mundo”, conduz-nos a perscrutar a realidade com outros olhos, com outra generosidade e simplicidade. Sem deixarmos de evocar o movimento pendular em marcha – de caminhar lentamente entre o rumor urbano e o silêncio dos lugares ermos – hospedamos o espanto diante do que nos chega como agraciação. O silêncio da percepção é a condição essencial para acolher a expressão do Mistério último da realidade e para auscultar os lugares ocultos e insuspeitos onde o mal totaliza e abisma o espírito humano. Exercitando atentamente o “ministério do ouvinte” (Byung-Chul Han), poderemos sair transfigurados do encontro com os corpos concretos que nos ambientam (o rosto, a obra de arte, a leitura, o pensamento, o festim, a celebração, o trauma, o tédio, o sofrimento…).

O estilo apofático da experiência crente cristã diz muito em poucas palavras, de modo que a qualidade espiritual se sobreponha ao excesso de imagens ou de palavras que bloqueiam o desejo que sonda o mistério da Vida (cfr. 1 Cor 2,7). Esta via apofática, que advém da prática e do exercício constante de sermos corpo vivido em caminho, procura exprimir-se no que se diz, escuta, vê ou faz: “Tu és aquele que é procurado por diferentes caminhos e diferentes ritos e a que chama nomes diversos porque, por essência, para todos permaneces desconhecido e inefável” (Nicolau de Cusa).

 

3-Emil Barthus, Nenhum caminho só, 2021 (DR)

Nenhum caminho só. Foto © Emil Barthus, 2021.

 

É nesta dimensão ou tradição poético-espiritual que se poderá interpretar a poesia de Carlos Poças Falcão, em particular, o seu Sombra Silêncio, que agora poderemos degustar ainda mais com a reedição aumentada da sua poesia reunida “Arte Nenhuma” [7]. Não se sabe “de onde vem, nem para onde vai” (Jo 3,8), mas “ouve-se a sua voz”, se atenção e disposição afectivas houver para receber no “coração da nuvem” (Ex 19,9) do não-saber o mistério de Deus silente que aí mesmo se anuncia.

Ao encontro desta via, tão antiga e tão nova, apofático-monástica, o monge Guigo II, o Cartuxo (1174-1180), escrevia: “O que Ele é, não o podemos dizer, porque não podemos pensá-lo. Por isso, o que não podemos compreender pela mente, também não podemos dizê-lo com a boca […]. Sabemos dizer o que não é; mas quem pode dizer o que Ele é?”! Num belo texto poético, a monja poetisa beguina Hadewijch de Antuérpia (1200-1250) escrevia: “Mergulhada no não-saber, para além de qualquer sentimento, devo guardar o silêncio e ficar onde estou, como num deserto que as palavras e os pensamentos não podem descrever nem atingir. É nessa simplicidade densa e selvagem que habitam, na unidade, os pobres de espírito. Aí nada encontram senão o silêncio livre que responde sempre à eternidade”.

O monge Michel Laroche, de tradição ortodoxa bizantina, escrevia que, “desejando escapar, por um momento, ao rumor do mundo, muitos ocidentais procuram na sabedoria oriental uma prática do silêncio que lhes permitirá concentrar-se na vida do espírito. Portanto, muitos ignoram que o cristianismo, também ele, propõe uma tal disciplina de silêncio e da meditação; mais ainda, que ele está presente desde os primeiros tempos, o dos Padres do Deserto, e está na raiz de toda a teologia mística”.

Todavia, não basta defender o cristianismo contra as incursões da diferença epistemológica, mas que esta diferença, quando o é verdadeiramente, com espessura e profundidade, mesmo se irónica e paradoxal, é uma chance para o cristianismo, para sair do sono dogmático ou burguês em que de tempos a tempos mergulha. E os poetas, tal como os “mestres da suspeita”, estão aí, noite e dia, para o acordar desse grande sono dogmático. Nesta linha de abertura e de discussão inteligente se colocam intelectuais católicos históricos como Daniélou, Rahner, Guardini, Lubac, Balthasar…, em que muitos dos seus estudos laboram sobre o pensamento poético e prosaico da grande literatura místico-patrística e mundial.

 

3-Emil Barthus, Clareira II, 2021

Clareira II. Foto © Emil Barthus, 2021.

Se a arte é o lugar próprio do “surgimento imotivado do mundo”, como defendia Merleau-Ponty, a poesia é o silêncio falante que faz respirar o corpo das ideias. A palavra poética plenifica-se quando encontra acolhimento nos ouvintes da palavra. A poesia é uma via original que leva ao conhecimento de si na perscrutação do Outro. Não será a atenção cuidada ao brotar inesperado das coisas o que nos poderá ainda salvar da fadiga de ser “eu”? Da palavra poética que vem das profundezas do ser, da voz tímbrica que nos arranca às resistências inebriadoras do quotidiano, a suavidade dos dedos que dançam nas ondas pulsionais dos românticos nostálgicos ou a dissonância atonal da modernidade exaurida, tudo nos convoca para a escuta silenciosa desse frémito imotivado do mundo que vem de longe, como aquilo que nos habita sem o sabermos expressar adequadamente, precisamente porque ela supera toda a adequação lógica. E só assim pode continuamente dizer-se como ainda-não-totalmente-dito. Essa é a tarefa incessante da experiência artística, mística ou poética. Como diria Jean Hyppolite: “Há uma profundidade na vossa experiência que ultrapassa todo o sistema lógico”!

Há uma transcendência no âmago da imanência. Uma desatenção ao poético é um descuido ético, na medida em que toda a percepção sensível contém em si já uma dimensão ética, quer dizer, um vínculo afectivo. Porque será que vemos, lemos ou ouvimos esta paisagem, este livro ou esta música? O que nos motiva? Escrevia Milan Kundera, no seu ensaio Os Testamentos Traídos, glosando uma obra de Thomas Mann: “Pensamos pensar, mas é um outro ou são outros que pensam e agem em nós: hábitos imemoriais, arquétipos que, tornados mitos, passando de geração em geração, possuem uma força de sedução imensa e nos teleguiam do “poço do passado”“[8]. Criar é resistir ao apagamento da memória do humano que ainda há em nós. Do encontro improvável do antigo e do contemporâneo, da palavra e do silêncio, encontramos a casa aonde podemos sempre regressar, a esse “berço do ser” (Gaston Bachelard) do ser, o ermo da “ladeira imemorial” (Paul Séguy). A poesia é esse berço, ou como diz o filósofo das ciências Gaston Bachelard, no seu “A Poética do Espaço”: “O principal benefício da casa […], a casa alberga o sonho, a casa protege o sonhador, a casa permite-nos sonhar em paz”!

Este brotamento imotivado do ser das coisas é graça que nos impele para os inolvidáveis ‘encontros inesperados do diverso’ (Gabriela Llansol). Nos versos de Carlos Poças Falcão: “a graça, no entanto, guia ao eixo os descaminhos […] A graça é paciência a misericórdia que se apressa. A um leve movimento do amor// a um murmúrio ainda que inaudível da nascente”. Na palavra frágil que habita o silêncio inaugural e seminal da manhã rumorosa do mundo, o começo de recomeços, deslocando-nos do imediato para a música imemorial, para o sussurro da luz grávida de penumbra, onde, quiçá, o “Deus aquém de nós” (Paul Claudel) habita sensivelmente o humano.

George Steiner, no seu Paixões Intactas, deixa-nos este pensar impensado: “Sermos “habitados” pela música, pela arte, pela literatura, tornarem-nos responsáveis por essa habitação, sermos o seu anfitrião, como o dono da casa o é para um hóspede – talvez desconhecido, talvez inesperado – ao serão, é fazer a experiência do mistério trivial de uma presença real[9]. Neste encontro sóbrio da palavra que se vocaliza e se faz toque rítmico, poderá desvelar-se uma presença que nos abra uma porta à beira rio, onde os juncos se reúnem para a nossa circum-navegação na subtileza da Palavra silente que nos salva dos ilusórios imediatismos hipermediáticos.

O discurso de Alberto Camus, aquando da entrega do prémio Nobel da Literatura, em 1958, fala-nos da essência do ofício de artista, no qual o escritor afirma: “A arte não é, aos meus olhos, um regozijo solitário. Ela é um meio de comover o maior número de homens, oferecendo-lhes uma imagem privilegiada dos sofrimentos e das alegrias comuns. Ela obriga, então, o artista a não se isolar; ela submete-o à verdade mais humilde e mais universal […]. O artista forja-se dentro desse ir e vir perpétuo de si aos outros, a meio caminho da beleza que ele não pode dispensar e da comunidade da qual ele não se pode afastar.”

 

3-Emil Barthus, Fragmento, 2021 (DR)

Fragmento. Foto © Emil Barthus, 2021.

Este tempo que flui da auscultação íntima, pela comunhão da voz e das mãos, mergulhar-nos-á certamente no Sombra Silêncio do poeta que poetiza o (não) Sentido dos nossos sentidos, para que se levante em nós um “pequeno infinito” (Leoš Janáček) ou um “infinito de qualidade” (Blaise Pascal). Com Emile Cioran, de partida na nau das palavras, que modelam e tonalizam o branco das linhas invisíveis, ousemos “em nós carregar toda a música: ela jaz nos estratos mais profundos da recordação. Tudo o que é musical é reminiscência. No tempo em que não tínhamos nome, provavelmente, ouvíamos tudo.”[10]

Escutando o nome dos Nomes, ‘Deus sem o ser’ (Jean-Luc Marion), puro dom incondicional, além do ser mas sem deixar de ser dom, enquanto outro modo de ser (Rosto, Sombra, Silêncio, Rasto, Silhueta, Desejo, Ausência, Visão, Ideia, Onírico…), que se diz no arpejo da sombra falante, que a voz do poeta intensamente anuncia, aprenderemos a ver novamente o mundo, como promessa de um desejo vital originário, que se faz carne nos passos e passagens dos nossos quiasmos quotidianos. E nesses quiasmas, nos entretantos indesmentíveis, ou nos interstícios da dialéctica porosa, que dramatiza a nossa condição finita, se anunciam as questões últimas e impronunciáveis, mesmo para o espírito mais geómetra. Como diz Bataille: “A poesia não passa de uma devastação reparadora […], dissipa as aparências de um mundo bem ordenado”[11], criando em nós um sentimento paradoxal de estranheza e de familiaridade no contacto com a vida do mundo.

A poesia do Carlos é um ‘pensamento emocionado’, diz-nos o próprio poeta acerca da sua arte de poetar, “conhecimento emocional” ou “emoção meditada”, para o dizermos com Georges Bataille, ou ainda “pensamento ilógico ou estranho” (James Conant). A palavra poética pensante amplia o mundo e o sensível que se diz primordialmente na erótica do corpo narrativo. Ela tem uma lógica ou racionalidade universal própria, a de ser uma experiência interior, nua, que é proferida a um outro. Do Dito que se Diz dizendo-se na pele rasgada do tempo sempre em metamorfose. Há coisas que carecem de demonstração lógica, mas cuja universalidade advém, não do silogismo perfeito, mas da experiência vivida que franqueia os limites. A sua essência está em procurar expressar o enigma do mundo, ou num registo crente, abeirar-se no instante do mistério último, Deus mesmo. “Há um rumor de ódio a toda à volta//, mas Deus vem abraçar o nosso abraço”, diz o poeta.

A gramática poética de Poças Falcão é um segmento de luz vibratória na companhia de outras filosofias poéticas, como a de Ramos Rosa, de Herberto Hélder ou de Manuel António Pina… Mas ela é original em si mesma, pois não desvia o olhar desse Silêncio que se esconde na revelação da Sombra, Deus, nomeando-O subtilmente, não para o possuir idolatricamente, mas para lhe dar corpo na sua “fraca voz”. Mas será uma inevitabilidade, para o encontro entre finito e infinito, extinguirmos o emocional do “conhecimento discursivo”? Tudo aqui é evocação, não apenas de ideias, mas também de vividos ou de experiências poéticas do mundo que sobrevivem à visão positivista do real, ao discurso fáctico e determinista “não há alternativa”.

 

3-Emil Barthus, Gipsita - Mármore Sombreada, 2021 (DR)

Gipsita – Mármore Sombreada. Foto © Emil Barthus, 2021.

Há toda uma poesia que é pensamento sensível, abismo sem fundo sobre o qual todo o conhecimento se sedimenta. Júlia Kristeva insiste que “a necessidade de crer preside ao desejo de saber”. Mas isso já Descartes, “pai” do racionalismo moderno, o predizera, o que não é de somenos, não obstante alguns dos seus actuais seguidores, nos diversos âmbitos do conhecimento, o não queiram revelar, por escrúpulo de transgressão do método academicista, especialmente na sua Correspondance avec Elisabeth et autres lettres.

Para os apologistas do pensamento puro, incontaminado e estritamente lógico-analítico, claro e evidente, fica a advertência sapiencial do célebre poeta italiano Giacomo Leopardi: “Não há necessidade de extinguir a paixão através da razão, mas de converter a razão em paixão. A natureza pode suprimir e suprime infinitas vezes a razão, mas a razão jamais suprime a natureza, nem sequer quando parece produzir grandes acções, coisa bastante rara; a força impulsionadora e que move não é da razão, mas a da natureza. Pelo contrário, retirai as forças dadas pela natureza, e a razão será sempre inoperante e impotente” (“Tratado das Paixões”, in Zibaldoni di Pensieri). Negar esta evidência é negar a possibilidade do pensamento mesmo. A conversão da razão em paixão é a antecâmara do pôr em acto uma compaixão incondicionalmente iluminada.

Assumir as amplas possibilidades de uma “razão poética” (Maria Zambrano) ou de pensamento sensível, é aceder de modo originário à vertigem Imemorial do ser, do mundo, do outro e de Deus e de si mesmo. Que coisa é a poesia, o pensamento poético, senão o labor silencioso da captação da ausência, do invisível que está aí para que se veja, se apresente? Só um fino olhar, transfigurado e transfigurador, captará tal modo de ser presença. Este pensar sensível, que mantém a tensão entre o conceito e a intuição, a razão e a pulsão, mantem-nos despertos do longo sono do racionalismo estrito, de uma razão tecnológica glicémica, mas estreita e pesada, que nos adormece e embala, de teorema em teorema, não obstante a condição trágica em que os humanos vivem – a permanente e inacabada “noite do Getsémani”[12]. E cada um terá a sua, se humano é, pois é nessa noite universal que sentiremos em comum o rumor de uma promessa libertadora das ruínas várias.

 

João Paulo Costa é presbítero da Igreja Católica e investigador na área de filosofia

 

P.S.: Esta meditação foi proferida na sala do mosteiro beneditino de Santa Escolástica de Roriz, que reuniu num único acto a declamação/interpretação cénica sóbria de alguns poemas do livro Sombra Silêncio (2018), pelo actor e dramaturgo Fernando Soares e Amílcar Mendes, acompanhamento ao piano por João Tiago Magalhães, com um repertório de composições romântico-contemporâneas (de Alexander Scriabin a Arvo Pärt passando por Arnold Schoenberg ou Tristan Murail, Amy Beach…), com a presença do poeta vimaranense. Uma experiência sensorial que teve a sua primeira aparição numa loja de pianos em Braga, com um pequeno grupo de pessoas, e replicada no âmbito do concurso ACTUM – Convocatória Aberta de Projectos Artísticos 2020’ (‘Medida 1 – Música e Artes Performativas’), com a interpretação do Fernando Soares e por Estefânia Surreira, com organização e acompanhamento pianístico do João Tiago Magalhães, a quem muito agradecemos a autorização para a publicação do vídeo que se pode ver e escutar a seguir:

 

Notas:

[1] Giorgio de Chirico, Sur le silence. in revue Artistique et Littéraire Minotaure 5 (1934), p. 34.
[2] Georges Bataille, A Experiência Interior, Edições 70, p. 10.
[3] Giorgio de Chirico, “ Le Carnet de de Chirico du Musée Picasso “, in Cahiers du Musée National d’Art Moderne 13 (1984), p. 55.
[4] Georges Bataille, A Experiência Interior, Edições 70, p. 17.
[5] Ibid., p. 11.
[6] Vale a pena nomear aqui o trabalho singular de dois filósofos e pensadores de craveira mundial sobre esta via, como é o caso do alemão Peter Sloterdijk, que, num dos seus últimos livros, avança a possibilidade de uma teopoética pática a partir dos textos religiosos (“Fazer o céu falar: Sobre a teopoesia”) e do francês Michel Foucault com a obra As Confissões da Carne (Ed. Relógio d’Água) centrada na relação entre o pensamento da antiguidade grega e os padres da Igreja. Muito provavelmente haverá tradução do livro de Sloterdijk, cuja obras fundamentais se encontram traduzidas em português pela editora Relógio d’Água. No fundo, o pensamento secular sério e honesto concebe e concede que a experiência religiosa, precisamente enquanto teopoesia, é vital para a compreensão de si e do mundo, mesmo se esse reconhecimento acontece sob o signo da luta conceptual.
[7] Carlos Poças Falcão, Arte Nenhuma, Língua Morta/Livraria Snob, 2020. A poesia reunida do poeta vimaranense, sob o mesmo título, tinha já sido publicada pela primeira vez pela editora Opera Omnia, agregando poemas entre 1987-2012. A nova edição inclui os mais recentes livros do poeta.
[8] Milan Kundera, Os Testamentos Traídos, Dom Quixote, p. 17.
[9] George Steiner, Paixões Intactas, Relógio d’Água, p. 48.
[10] E. M. Cioran, Lacrime e Santi, Adelphi Edizioni, p.29.
[11] A Experiência Interior, p. 207.
[12] Cf. Léon Chestov, La nuit de Gethsémani. Essai sur la philosophie de Pascal, Editions de l’Eclat, 2012.

 

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