
Documento preparatório da assembleia do CMI: “Como, nesta época, se organiza, fala e atua uma igreja em que o amor de Cristo quer habitar?” Foto © Marcelo Schneider/WCC.
“As igrejas necessitam agora encontrar juntas, num movimento ecuménico renovado pelo bem do mundo, uma voz mais pública para falar de uma esperança (…) que leve a construir um mundo melhor que o mundo tão profundamente modelado pelo materialismo, o individualismo e o consumismo, um mundo onde se repartam os recursos, se abordem as desigualdades e se estabeleça uma nova dignidade entre nós e connosco.”
Esta é uma das afirmações centrais da reflexão do documento preparatório, agora conhecido, da 11ª assembleia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), a realizar em Karlsruhe (sudoeste da Alemanha), de 31 de agosto a 8 de setembro do próximo ano
Intitulado “O amor de Cristo leva ao mundo a reconciliação e a unidade”, o documento expressa a reflexão de um grupo internacional de diferentes regiões e tradições confessionais, para que a assembleia “seja uma oportunidade para encontrar inspiração no amor de Deus, da Santíssima Trindade; um amor que foi revelado em Cristo; e que, pelo poder do Espírito Santo, se está movendo através de toda a humanidade e criação”.
Reconhecendo que a assembleia decorrerá num tempo em que o mundo está sofrendo com a pandemia recente, colocado na vulnerabilidade de toda a humanidade e as profundas desigualdades e divisões, o texto pergunta: “Como, nesta época, se organiza, fala e atua uma igreja em que o amor de Cristo quer habitar? Como, neste momento, podemos participar juntos na missão divina do amor ao mundo?”
A ilusão da autosuficiência

“A assembleia está desafiada a lutar pelo amor que Deus tem a todos os povos, às suas criaturas e à própria Terra”, diz o documento. Foto © Clara Diniz, cedida pela autora.
Debruçando-se sobre a covid-19, o texto relembra que a pandemia colocou em evidência que a suposta “autossuficiência, independência e individualismo em que tantos têm confiado sobretudo no Ocidente, é uma ilusão”, tanto mais que sentimos mais intensamente as desigualdades no mundo e as igrejas estão impedidas de celebrar os seus sacramentos.
Este mundo individualista não tem ouvido os gritos de dor e sofrimento, tantas comunidades e povos sentem-se desamparados, e também a própria criação vive a mesma situação. Por isso, as igrejas devem saber que se abrem “novos horizontes e possibilidades, se se concentrarem no que significa para elas e para a unidade dos cristãos enfrentar juntos os muitos desafios do mundo em que vivemos e testemunharem os nossos valores evangélicos comuns”. Mas, acrescenta o documento, elas não podem parar por aí: “Devem ter como propósito que o amor de Deus em Cristo é para todo o mundo. Significa abertura e atenção para o mundo inteiro, e diálogo e cooperação com pessoas de outras religiões ou sem religião, mas que compartilham os mesmos valores.”
Esse mesmo mundo, continua a reflexão, clama pela Paz e pela Justiça, e a assembleia está desafiada a lutar pelo amor que Deus tem a todos os povos, às suas criaturas e à própria Terra. “Os seres humanos exercem poderes sobre outros seres humanos, reforçando a sua atividade para excluir e oprimir, explorando-os e desprezando os recursos da criação; torna-se necessário um arrependimento e renovação das relações entre todos os seres. Um ecumenismo do coração, baseado no Amor de Deus ao cosmos, é determinante para que todas as igrejas sejam um exemplo vivo, fraterno e solidário.”
Os cristãos, acrescenta ainda, só na unidade e na pluralidade de opiniões, “mas juntos no Amor de Deus”, e sem medo da transformação das igrejas, “assente na novidade de Jesus, a Boa Nova”, serão capazes de uma renovada vocação na missão física e espiritual de Cristo”.
E termina: “O amor de Cristo leva o mundo à reconciliação e unidade. O tema da assembleia é um canto de louvor a Deus, cujo amor em Cristo nos inspira. É uma declaração de fé e de confiança que é a vontade de Deus levarmos, por meio do amor, a reconciliação e a unidade. Esta mensagem ao mundo sobre o amor constitui o coração da fé cristã. É uma solicitação às igrejas e a todas as pessoas de boa vontade de todo o mundo que repartam a sabedoria comum do amor que nos leva a reconciliarmo-nos e a encontrar a nossa verdadeira unidade como humanidade.”
O Conselho Mundial [ou Ecuménico] de Igrejas, representa mais de 350 igrejas cristãs – ortodoxas, anglicanas, batistas, luteranas, metodistas e outras reformadas – com 500 milhões de cristãos. A Igreja Católica Romana tem o estatuto de observadora.










