AstraZeneca: fundos públicos financiaram vacina em 97%?

| 15 Abr 21

Os autores do estudo concluem que foram dfundos públicos a financiar quase toda a investigação e desenvolvimento da vacina. Foto © BaLL LunLa/Shutterstock

 

Fundos públicos com diversas origens financiaram pelo menos 97% dos custos de investigação e desenvolvimento que permitiram a criação e o lançamento da vacina anti-covid-19 do grupo Oxford/AstraZeneca. A conclusão faz parte de um estudo, publicado a 10 de abril, por investigadores da Universities Allied for Essential Medicines, ainda não sujeito a qualquer revisão por outros cientistas.

A confirmar-se esta análise, cai por terra o principal argumento utilizado pelos que se opõem à suspensão das patentes das vacinas. A suspensão visa torná-las do domínio público para que possam ser produzidas em massa em todos os laboratórios farmacêuticos do mundo com capacidade para tal. Contra os repetidos apelos do Papa Francisco, dos governantes de mais de 100 países e de uma multiplicidade de organizações da sociedade civil, os governos dos países mais ricos em que as vacinas foram desenvolvidas e são produzidas, têm-se oposto a essa suspensão das patentes. O seu principal argumento radica na ideia de que as multinacionais farmacêuticas têm de recuperar os investimentos feitos para criarem as vacinas com a sua venda exclusiva.

O argumentário foi também recentemente utilizado no debate parlamentar de 8 de abril pela deputada Ana Rita Bessa (CDS/PP) que contestou que as vacinas pudessem ser “consideradas um bem público”, pois “se não tivesse havido investimento privado não teríamos vacinas”. Segundo aquela deputada, os dinheiros públicos apenas teriam contribuído para cobrir os custos de desenvolvimento da vacina da AstraZeneca em 20%, como noticiou o 7MARGENS.

Também Boris Johnson, citado pelo The Guardian, concluiu uma reunião via zoom realizada a 23 de março com alguns dos deputados do seu partido, afirmando: “É por causa do capitalismo, por causa da ganância, que, meus amigos, tivemos sucesso com a vacina.” O primeiro-ministro glosava desta forma o célebre lema “ganância é bom”, dos conservadores britânicos, durante os anos oitenta do século passado.

 

Acesso às patentes sem fim à vista
Comunidade Hindu, Covid-19,

Vacinação contra a covid-19 no centro da Comunidade Hindu, em Lisboa: houve inúmeros obstáculos para conseguir reunir informação, acusam os autores do estudo. Foto: Direitos reservados

 

Os autores do estudo identificaram inúmeras dificuldades para poderem estabelecer com rigor os financiamentos envolvidos na investigação e desenvolvimento da vacina. Algumas provêm do próprio método de investigação científica que se baseia em hipóteses e processos desenvolvidos na Universidade de Oxford e em unidades autónomas dela dependentes desde 2010. Outras radicam na falta de transparência da prestação de contas quanto à aplicação concreta dos fundos públicos recebidos.

De acordo com os dados que conseguiu reunir, o estudo conclui que durante a década (2011-2021) de investigação dos processos que conduziram ao desenvolvimento da vacina, o Governo britânico contribuiu com 38,9 milhões de libras (perto de 45 milhões de euros), governos estrangeiros (incluindo UE e Administração americana) com o equivalente a 30 milhões de euros, organizações sem fins lucrativos com 26 milhões de euros, enquanto os apoios vindos de parcerias público-privadas totalizaram 15 milhões. A indústria farmacêutica terá, durante esse período, feito donativos num montante inferior a 2,3 milhões de euros, ou seja, 1,9 por cento do total de contribuições.

A Universities Allied for Essential Medicines a que pertence o grupo de investigadores que realizou o estudo define-se como “um movimento de estudantes” que tem por objetivo “criar um sistema de saúde mais equitativo capaz de responder às necessidades daqueles a quem é negado o acesso a medicamentos e a cuidados médicos essenciais”.

Na síntese que faz do estudo, o jornal The Guardian recorda a afirmação inicial da Universidade de Oxford garantindo que “qualquer vacina” que viesse a desenvolver seria “aberta para ser produzida, sem qualquer pagamento de ‘royalties’, por qualquer laboratório certificado para o fazer” e vendida a “preço de custo, ou apenas com uma pequena margem de lucro”. Contrariando essa declaração inicial, “em agosto de 2020” já era público que Oxford “tinha fechado um acordo de licenciamento em exclusividade com a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca.”

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Crónica

O Mercado e o Templo (15): Quando o conhecimento era um bem comum e gratuito

O Mercado e o Templo (15): Quando o conhecimento era um bem comum e gratuito novidade

As proibições teológicas souberam gerar meios de liberdade para mercadores e intelectuais, como seguros e universidades. A antiga cultura sabia que bem precioso, mesmo divino, era o conhecimento e protegia-o do lucro. Agora, na lógica do capitalismo, vêem-se apenas custos e benefícios. Este é o décimo quinto dos textos da série de crónicas que o 7MARGENS publica todas as quartas-feiras e sábados, da autoria de Luigino Bruni.

Breves

“Tragédia brasileira: risco para a casa comum?”

  Entre os dias 4 e 6 de Maio (terça a quinta-feira), um seminário internacional que se realiza em formato digital irá debater se a tragédia brasileira é um risco para a casa comum, numa iniciativa de várias organizações religiosas, de defesa dos direitos humanos...

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

APAV lança vídeo sobre violência sexual contra crianças

A APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima acaba de lançar o primeiro de um conjunto de vídeos que visam a prevenção da violência sexual contra crianças e jovens, procurando capacitar as pessoas sobre estes crimes e a informá-las sobre como pedir ajuda.

Xexão (um poema e uma evocação em Lisboa)

No 30º dia após o falecimento de Maria da Conceição Moita, a comunidade da Capela do Rato, em Lisboa, vai celebrar, a 30 de Abril, às 19h, eucaristia evocando a sua vida. Tendo em conta as regras de segurança em vigor, e o número restrito de lugares na capela, é necessária uma inscrição prévia, que deve ser feita na página digital da Capela do Rato.

Quebra de receitas da principal Igreja financiadora do Vaticano

A Igreja Católica alemã, que é líder no contributo que dá habitualmente para as despesas da Santa Sé (juntamente com a dos EUA), teve “um verdadeiro colapso” nas receitas, em 2020, segundo dados divulgados pelo jornal Rheinische Post, citados por Il Messaggero.

Entre margens

O desaparecimento dos gigantes da fé novidade

De vez em quando temos a sensação de que se está a passar na porta giratória para um mundo diferente. Em especial quando se toma consciência de que alguns dos maiores gigantes do mundo cristão nos deixaram. O mais recente foi o grande teólogo e pensador protestante latino-americano René Padilla (1932-2021), o “pai” do conceito de “missão integral” que revolucionou as teologias do continente, em particular a missiologia.

Alma mutilada

Samuel caminhava dançante num jogo de toca e foge com a suave rebentação da extensa e espelhada beira-mar de Keri Beach. Entusiasmado com a chegada à nova cidade, discursava e gesticulava comparações entre as imensas praias por onde passara. O fiel Odara escutava-o ao longe, absorto no encantamento da devoradora paisagem. Caminhava a passos curtos e lentos, sentindo atentamente a incomum textura da areia que se lhe entranhava nos dedos dos pés a cada novo pisar

José Augusto Mourão… o frade, poeta e professor

Fazemos memória, nesta quarta-feira, 5 de maio, do décimo aniversário da partida para o Senhor de frei José Augusto Mourão op. Nascido em Lordelo, Vila Real, em 12 de junho de 1947, deixou-nos aos 64 anos. Conheci Frei Mourão quando, há já muitos anos, comecei a participar nas eucaristias do Convento de S. Domingos de Lisboa, levado pelo meu amigo Luís de França, também ele frade dominicano, entretanto já desaparecido do meio de nós

Cultura e artes

Alusões a um corpo ausente

Cada pessoa que fizer uma evocação de José Augusto Mourão fá-lo-á de um modo diferente. O percurso biográfico de Mourão presta-se a essa pluralidade quase heterodoxa, diferente das narrativas oficiais com as quais se canoniza uma vida e uma determinada biografia da mesma.

Flannery O’Connor e “Um Diário de Preces”

Flannery O’Connor foi uma escritora norte-americana (1925-1964), falecida aos 31 anos de lúpus, doença degenerativa precocemente diagnosticada (aos 12 anos) e que, depois de lhe terem sido dados cinco anos de vida, Flannery conseguiu, com uma vontade indomável, prolongar por mais 10 anos. Católica convicta, viveu em Savannah, na Geórgia, no sul protestante e conservador. Escreveu sobretudo sobre a decadência do sul da América. Fez uma licenciatura em Inglês e Sociologia e uma pós-graduação através de um writer’s workshop (oficina de escrita) na Universidade de Iowa. Escreveu 32 contos e dois romances.

O teatro da vida na leitura cristã de Luís Miguel Cintra

A revista E, do Expresso, deste fim-de-semana traz em várias páginas a súmula de mais de duas horas de conversa de Luís Miguel Cintra com a jornalista Luciana Leiderfarb, com as imagens da objetiva do repórter António Pedro Ferreira. Destaca-se dela não só uma grande personalidade do teatro, mas também uma pessoa de enorme sensibilidade e riqueza humanas.

Verbalizar o desejo

Em Rezar de Olhos Abertos, José Tolentino Mendonça assume a missão de guiar o crente e a comunidade (alguns textos surgem nesse contexto) na verbalização orante, inserindo-se assim numa tradição espiritual que conhece nos Salmos a sua expressão talvez mais plena e fecunda.

Sete Partidas

O regresso à escola má

Custa-me imenso falar de educação. A sério. Dói-me. Magoa fundo. O mal que temos tratado a educação escolar nas últimas décadas. Colectivamente. Geração após geração. Incomoda-me a forma como é delegada para planos secundários perante a suposta urgência de temas tão mais mediáticos e populares. Quando nada me parece mais urgente.

Aquele que habita os céus sorri

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This