Segurança reforçada nas mesquitas de Lisboa depois do ataque terrorista na Nova Zelândia

15 Mar 19Islão, Últimas

A Mesquita Al Noor, um dos dois alvos do ataque, numa foto de arquivo; Foto © página da Associação Muçulmana de Canterbury, NZ, no Facebook

 

As autoridades portuguesas reforçaram ligeiramente a segurança junto das mesquitas de Lisboa, depois dos atentados de ontem em duas mesquitas de Christchurch, Nova Zelândia, que provocaram pelo menos 49 mortos. “Todas as sextas-feiras [principal dia de oração dos muçulmanos] a polícia está presente junto da mesquita, mas desta vez sentimos que a presença era um pouco mais significativa”, disse ao 7MARGENS Mahomed Abed, um dos responsáveis da Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL). 

O ambiente na mesquita, na oração da hora de almoço – aquela que mais pessoas reúne, às sextas-feiras – era de consternação e tristeza: “As pessoas comentavam que se tinha passado, tristes com o que já tinham ouvido” nos noticiários da manhã, disse ainda Abed. Os responsáveis da CIL receberam, entretanto, várias manifestações de pesar e solidariedade, incluindo do embaixador de Israel em Lisboa. 

Um telegrama do Papa Francisco, divulgado pelo Vaticano nesta sexta-feira e assinado pelo secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, expressa também a sua “profunda tristeza pelos ferimentos e vidas perdidas causadas pelos atos de violência sem sentimento nas duas mesquitas em Christchurch”. O Papa expressou ainda a sua solidariedade com todos os neozelandeses e, em particular, com a comunidade muçulmana.

Também o cardeal Vincent Nichols, de Westminster (Inglaterra) e a Comunidade de Santo Egídio, movimento católico sediado em Roma que dá prioridade ao diálogo ecuménico e inter-religioso, expressaram o “choque” pelo sucedido. Santo Egídio apelou a que as sociedades ocidentais combatam o ódio contra os muçulmanos e o islão, ao mesmo tempo que manifestava as “profundas condolências” às vítimas

O ataque foi considerado pelas autoridades neozelandesas como um ato terrorista e descrito pela primeira-ministra do país como “um ato de violência extraordinária e sem precedentes”. Terá sido levado a cabo por três homens e uma mulher, sendo que os quatro já se encontram em custódia policial.

Os dois locais de culto atingidos pelo ataque foram a mesquita Al Noor e a mesquita Linwood, a cerca de cinco quilómetros de distância uma da outra. Para ajudar os feridos, mortos e famílias o Comité Internacional da Cruz Vermelha criou uma página com os nomes das pessoas desaparecidas ou que foram encontradas e registadas.

Na altura dos ataques, Mike Bush, comissário da polícia neozelandesa, alertou a que as pessoas não se dirigissem de novo às mesquitas do país durante o dia de sexta-feira. Os lugares de oração muçulmana do país foram fechados até outras indicações. 

Segundo o The New York Times, um dos suspeitos tem 28 anos e é de nacionalidade australiana. O homem colocou um vídeo no Facebook onde filmou o seu caminho até à mesquita e o desenrolar de todo o ataque. Nesse vídeo, de 17 minutos, é possível ver o sujeito a aproximar-se da mesquita a pé e a começar a disparar para as pessoas à entrada do edifício. O atacante volta a sair da mesquita para ir buscar outra arma ao carro e volta a entrar na mesma, disparando contra mais pessoas. Depois de alguns minutos entra no veículo e vai-se embora.

O mesmo foi já associado como um “troll” da internet, imerso na cultura e fóruns da extrema-direita – onde terá colocado um manifesto de 87 páginas – motivado por um desejo de incitar violência e discórdia entre etnias e eliminar os “invasores” que ameaçam “substituir” os caucasianos.

O seu manifesto já foi considerado, por um especialista em terrorismo sueco “muito semelhante”, ainda que “mais desleixado”, ao manifesto publicado por Anders Behring Breivik, o nacionalista norueguês que matou 77 pessoas num acampamento de verão dos jovens socialistas, numa ilha, em 2011.

Na rede social 8chan, considerada uma comunidade online dominada pela extrema-direita, o mesmo colocou uma imagem com a frase “screw your optics”, a mesma que tinha sido utilizada por Robert Bowers, o atirador da sinagoga de Pittsburgh (EUA), em outubro passado. No 8chan, o vídeo do ataque na Nova Zelândia foi divulgado e o seu autor considerado um herói.

Nos últimos 18 meses, várias empresas tecnológicas têm prometido mais salvaguardas para assegurar que conteúdo violento não é distribuído nos seus sites. Mas essas medidas não foram suficientes para travar a publicação do vídeo ou do manifesto do autor do crime.

Este texto teve o contributo de António Marujo

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