Amnistia pede investigação

Ataques que vitimaram 23 civis na Somália podem constituir crimes de guerra

| 7 Mai 2024

mulher deslocada na somália, foto © Claudia Rosel/IOM

Mulher deslocada na Somália: no país, “os civis têm suportado com demasiada frequência o sofrimento da guerra”, diz a Amnistia. Foto © Claudia Rosel/IOM

A Amnistia Internacional considera que dois ataques que mataram 23 civis durante operações militares na Somália, apoiadas por drones turcos, devem ser investigados como crimes de guerra. As investidas do passado dia 18 de março mataram 14 crianças, cinco mulheres e quatro homens, enquanto outros 17 civis (11 crianças, duas mulheres e quatro homens) ficaram feridos. As vítimas, diz a Amnistia em comunicado divulgado nesta terça-feira, 7, pertencem todas ao clã Gorgaarte, um grupo marginalizado naquele país do Corno de África.

“Os governos da Somália e da Turquia têm de investigar estes ataques mortais como um crime de guerra e pôr fim às agressões imprudentes contra civis”, refere Tigere Chagutah, diretor regional da Amnistia Internacional para a África Oriental e Austral, num comunicado de imprensa enviado ao 7MARGENS. “Na Somália, os civis têm suportado com demasiada frequência o sofrimento da guerra. Estas mortes não podem ser ignoradas. Os sobreviventes e as suas famílias merecem verdade, justiça e reparação”, acrescenta.

Os referidos ataques decorreram na sequência de combates entre o grupo terrorista armado Al-Shabaab e as forças de segurança somalis.Tiveram como alvo a quinta de Jaffey, a cerca de três quilómetros a oeste da aldeia de Bagdad, na região da Baixa Shabelle, no Sul do país.

“Um primeiro ataque de drone atingiu uma mesquita na zona oriental de Bagdad, destruindo o edifício e danificando as casas vizinhas. A Amnistia Internacional não conseguiu verificar de forma independente quem era o alvo na mesquita, nem determinar se houve vítimas”, refere o comunicado. Após esse ataque, várias testemunhas oculares confirmaram que muitos civis fugiram para a quinta de Jaffey à procura de abrigo. De seguida, deu-se um ataque à quinta que matou e feriu vários desses civis. Após 30 minutos, ocorreu um segundo ataque, que “matou e feriu mais civis que tinham chegado das aldeias vizinhas de Alifow e Gaalgube para socorrer os sobreviventes do primeiro ataque”.

A Amnistia soube que um total de cinco famílias do clã Gorgaarte foram afetadas pelos dois ataques na quinta. Maalim Adow, um agricultor de 49 anos, perdeu a mulher de 40 anos, o filho de 14, as duas filhas de seis e sete anos, os dois sobrinhos de sete e nove anos e ainda a sua irmã de 30 anos, que sofreu um ferimento na cabeça e morreu mais tarde no Hospital Digfeer, na capital do país, Mogadíscio. “A minha mulher, os meus três filhos e dois sobrinhos foram todos mortos no primeiro ataque na quinta. Na altura, eu estava em Afgoye. Recebi imediatamente uma chamada telefónica dos meus familiares. Por razões de segurança, não era possível viajar durante a noite. Viajei para Bagdad na manhã do dia seguinte. Identifiquei os corpos da minha mulher e dos meus filhos no local. A minha mulher e os meus filhos foram enterrados numa vala comum na aldeia de Gaalgube, enquanto os meus sobrinhos foram enterrados na aldeia de Alifow. Não sei porque é que a minha família foi escolhida como alvo durante o mês sagrado do Ramadão. Estou de coração partido”, desabafou Adow, citado no mesmo documento.

Ismail Ali Deerey, um agricultor de 37 anos, e o seu filho de nove, também foram mortos. A sua mulher, as duas filhas, os dois filhos e o sobrinho ficaram feridos e receberam assistência médica em Mogadíscio. “Eu estava na aldeia de Alifow. Ouvimos uma explosão ensurdecedora. Pouco depois, recebi a notícia de que o meu irmão Ismail tinha sido atingido por um ataque de drones. O meu filho e eu corremos para a quinta. Quando lá chegámos, deu-se outra explosão, cobrindo a área com uma nuvem de poeira. O cenário era caótico. Havia gritos, sangue e corpos espalhados pelo chão. Felizmente, sobrevivi, mas o meu filho de 22 anos, Ali Deerey, que estava comigo, ficou gravemente ferido nas costas… O meu irmão Ismail e o seu filho foram brutalmente assassinados”, contou à Amnistia Mohamed Ali Deerey, o irmão mais velho de Ismail.

Em 19 de março, um dia depois dos três ataques à mesquita e à quinta, o Ministério da Informação da Somália emitiu uma nota na qual afirmava ter matado mais de 30 militantes do Al-Shabaab nas aldeias de Bagdad e Baldooska, com o apoio de “parceiros internacionais”. O comunicado acrescentava: “A operação foi lançada em resposta a informações dos serviços secretos que indicavam que os combatentes do Al-Shabaab se estavam a reunir nestas áreas e a planear um ataque contra o povo somali… 15 membros do Al-Shabaab foram mortos num ataque aéreo em Bagdad”.

A Amnistia Internacional enviou missivas aos governos da Somália e da Turquia a solicitar esclarecimentos sobre a operação de 18 de março, nomeadamente sobre “quais as forças militares que controlavam o drone no momento dos ataques”. Até à data de divulgação do presente comunicado, nenhum dos executivos respondeu à organização.

O executivo da Somália detém um “longo historial” de falta de reparação das vítimas civis de ações militares, ou da procura de reparação junto de atores estrangeiros quando estes estão envolvidos em ataques ilegais. É conhecido também por ignorar as violações contra comunidades marginalizadas, como o clã Gorgaarte, menciona ainda a nota da Amnistia.

“Sentimo-nos negligenciados e que não somos ouvidos, sem ter ninguém a defender-nos ou a dialogar connosco. Não foi dada qualquer explicação para as ações contra o meu povo, não foi dado seguimento às investigações e não foi oferecida qualquer solidariedade. A nossa prioridade é obter informações sobre os motivos que levaram a este trágico acontecimento. Precisamos também de uma indemnização pelas perdas que sofremos”, refere um ancião do clã Gorgaarte à Amnistia Internacional.

A guerra entre o executivo somali e o grupo terrorista armado Al-Shabaab continua a provocar um impacto devastador na população civil do país, com todas as partes envolvidas no conflito a serem acusadas de cometerem graves violações do direito internacional humanitário.

“A Amnistia Internacional documentou múltiplos ataques aéreos do Comando Africano dos Estados Unidos (Africom) que mataram e feriram civis somalis, muitos dos quais em resultado de aparentes violações do direito internacional humanitário. A 5 de abril, a Amnistia Internacional escreveu ao Africom, perguntando se as forças norte-americanas estiveram envolvidas na operação de 18 de março contra o Al-Shabaab, mas não teve resposta até à data desta publicação”, conclui o documento.

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