Até logo, querido Dimas!

| 14 Ago 2021

“Para mim, como para tantos dos seus conhecidos e amigos era o Professor Dimas. Ou simplesmente o Dimas, um bom amigo.” Foto © Centro Cristão Vida Abundante

 

Para mim, como para tantos dos seus conhecidos e amigos era o Professor Dimas. Ou simplesmente o Dimas, um bom amigo que foi meu professor de grego e de Teologia do Novo Testamento, no Seminário Presbiteriano de Lisboa, nos longínquos anos de 1975-1977, então localizado na Avenida do Brasil.

Já foi há muitos anos, portanto. Uns 46 anos. E conservo ainda hoje a beleza e o encanto das lições do Professor Dimas, que também dominava os textos do Novo Testamento, a partir mesmo do original grego. Havia ali muito saber. Mas havia também muita sabedoria que eu sempre apreciei na sua abertura ecuménica, na seriedade da sua pesquisa e investigação. Sei mesmo que, dentro da abertura ecuménica que menciono e que foi para mim também aprendizagem, estava colaborando no projeto de tradução da Bíblia, dentro da Conferência Episcopal dos bispos portugueses. [Dimas Almeida escreveu um longo comentário à tradução do Novo Testamento, que o 7MARGENS publicou.]

O responsável desse projeto era o ex-bispo de Viana do Castelo que partiu para junto do Pai celeste mesmo antes do Professor Dimas. Agora parte o nosso amigo Dimas também para junto do Pai celeste. É bom sublinhar neste momento a colaboração que o Professor Dimas deu a esse projeto, com o seu comentário, tinha por centro a Palavra de Deus, no Novo Testamento. O que o professor Dimas sempre amou.

Tenho comigo o texto de 117 páginas que mandou ao bispo de Viana do Castelo com sugestões de tradução. Um texto escrito entre janeiro e agosto de 2020. Termina assim o seu texto: “E é louvável que a Conferência Episcopal Portuguesa tenha mostrado o seu desejo de ouvir outras vozes neste projeto de uma nova tradução da Bíblia. Procurei ser uma dessas vozes. Falece-me o tempo para mais. Literalmente, falece-me o tempo.” Pressentiria, já em 2020, exatamente há um ano, que o seu fim estava próximo?

E o que ele fazia, nestes momentos, nessa colaboração que enviou aos bispos portugueses, sempre o fez no ensino com os seus alunos – posso testemunhar com os alunos da minha geração, na segunda metade dos anos 1970. Com um nível de profundidade quase levado ao extremo. Eu tinha sempre a aprender em qualquer das lições. O Professor Dimas sabia, de facto, extrair desse tesouro único do Evangelho, coisas novas e velhas com a profundidade e a originalidade que a todos agradava. O Professor Dimas sabia bem que desse Evangelho, riqueza com 2.000 anos, há sempre coisas novas a descobrir. Era isso mesmo o Professor Dimas: um descobridor atento aos sinais dos tempos e às necessidades das pessoas no que se referia à interpretação do Evangelho.

E como bom pedagogo, bom conhecedor do grego bíblico, não deixava de encorajar os alunos a ir à raiz mesma da linguagem bíblia. O grego, neste caso, para o Novo Testamento. Bem me valeu, pelos anos fora, o grego que ali aprendi no Seminário da Avenida do Brasil. Mas a ciência não se opunha ao amor da Palavra. Um amor que se refletia na própria vida. Pude ler ao longo dos tempos alguns textos do Professor Dimas. Um deles sobre a tradução dos Evangelhos que já mencionei. Outro, escrito também o ano passado, em abril de 2020, tem por título: Uma Oração Possível Num Tempo (Im)possível.

Uma oração muito bela e muito profunda em tempos de coronavírus. Li-a, por mais de uma vez. Termina assim: “Senhor: ajuda-nos a transpor as nossas fronteiras contigo! Sim, contigo! Ajuda-nos a transpor os confinamentos religiosos que temos fabricado por nós mesmos e contra ti. Liberta-nos desta esclerose mortal, num mundo, o nosso, à procura de si mesmo, no labirinto de um desnorte que, no fundo, vive em registo trágico (miticamente) a sua sede de sentido!”. Hoje, junto a Deus, o nosso querido amigo Dimas já transpôs todos os confinamentos possíveis, encontrando assim a plenitude de sentido que toda a pessoa humana procura para a sua existência.

E agora, junto a Deus, tantas e tantas interrogações, tantas e tantas dúvidas terão encontrado, enfim, as suas respostas, as suas certezas. Terminou a caminhada que no fundo é a caminhada da vida terrestre, para se abrir à caminhada sem fim nos sendeiros celestes, junto a Deus. Pode-se-lhe aplicar a palavra do apóstolo Paulo, no entardecer da sua vida, dirigida ao discípulo Timóteo: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Agora me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda”. (2 Tim 4, 7.8)

É isso, também nós estamos no número dos que esperam a vinda do Senhor. E também nós estamos a caminho, como o Dimas esteve. Por isso é bom agradecer-lhe neste momento o seu combate, o bom combate que ele bem levou até ao fim. E poderemos dizer-lhe muito simplesmente: até logo, querido Dimas. Quando Deus quiser, nos encontraremos de novo na plenitude da luz, que aqui procuramos um pouco às apalpadelas. Chegaste à meta. Continua ainda a rezar por nós, para que um dia, contigo, estejamos banhados na plenitude da luz que agora irradia na tua fronte. Irradiará também na nossa. E livres de toda a dúvida e de toda a interrogação, passadas que foram a fé e a esperança que conduziram a nossa caminhada, viveremos juntos a plenitude do amor a Deus. O amor a Deus que sempre esperámos e que, agora, finalmente, acolhemos na sua plenitude.

 

Teófilo Minga é Religioso irmão na congregação dos Irmãos Maristas; licenciou-se em Matemática na Universidade de Lisboa e ensinou a disciplina nos Colégios Maristas de Luanda e Carcavelos, após o que estudou Teologia no Seminário Evangélico de Teologia. Concluiu os seus estudos teológicos na Universidade de Friburgo (Suíça) tendo sido nomeado, em seguida, professor de Teologia Dogmática na Universidade Marista Internacional do Quénia. Reside atualmente em Roma. O texto é publicado em simultâneo com o blogue Itinerários, parceiro do 7MARGENS.

 

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