Ceuta e a imigração

Até quando continuaremos a comover-nos e a esquecer?

| 20 Mai 21

ceuta

Militar da Guardia Civil retira da água um recém-nascido e salva-o. Foto: Direitos reservados.

A fotografia do dia mostrava um bebé salvo das águas, sobrevivente não se sabe como ao enésimo massacre dos inocentes que se está a consumar no Mediterrâneo diante dos olhos de todos. Desta vez aconteceu em Ceuta, o enclave espanhol em Marrocos, onde milhares de migrantes estão há dias a procurar atravessar a fronteira, inclusive a nado, e entre estes, como sempre, muitas famílias, com crianças crescidas ou de poucos meses.

Desta vez o epílogo narrado pela imagem não foi trágico, mas por puro acaso: um militar da Guardia Civil retira da água um recém-nascido e salva-o. A touca e a roupinha são precisamente como aqueles que revestem as crianças nos berços das nossas unidades de obstetrícia, com poucos dias.

Ao ver a imagem, pergunto-me o que tem a ver aquela criança, que podia ser nossa filha, com o salvador, o mar, a fuga, os migrantes. No entanto não é uma fotomontagem. É, antes, a enésima imagem dilacerante, que comove e toca os corações de quem é pai e mãe, homem ou mulher. Porque tudo aquilo que sacode faz subir um nó à garganta, provoca o pranto, talvez instigue a raiva. E é bom que assim seja.

Mas a emoção já não basta. Já não basta o momentâneo apelo ao instinto materno e paterno de proteção em relação aos pequeninos em perigo. Já não chega salvar tantas vidas. Quantas outras imagens semelhantes, espalhadas pela televisão e redes sociais, humedeceram os nossos olhos?

Já esquecemos o pequeno Alan Kurdi, morto, nos braços do militar turco, que um destino menos afortunado despejou sobre uma praia tão longe da sua casa? Já esquecemos o pequeno Yoseph afogado no enésimo naufrágio no Mediterrâneo, em novembro passado, antes que chegassem os socorristas? Já esquecemos os gritos desesperados da mãe a bordo da chalupa? Aquelas lancinantes palavras «I loose my baby, I loose my baby»? Já não nos recordamos da série infinita de vídeos, fotografias de crianças salvas a tempo ou impelidas já mortas pelas ondas do mar? Necrologias da nossa vergonha? Já nos habituámos a ver? Talvez ainda não.

A “pietas” das nossas consciências é mais difícil de morrer do que aqueles náufragos em fuga do mal. Mas só a piedade, só a onda da emoção não chega. Porque é efémera, passageira, como são as fotografias na internet e as notícias de «última hora» das televisões, que logo depois dão lugar a outras.

Quase diríamos que não podemos continuar a permitir-nos essa “pietas”, e que por si só é quase indecente, porque como o sentimento emerge e irrompe com urgência, somos levados a pensar que tudo isto é pura “emergência”, mera contingência, que se pode enfrentar apenas quando a emoção voltar a aflorar. Não basta a “pietas” sem a “dignitas”, diriam os padres latinos. «E é uma Europa sem dignidade aquela que faz morrer as pessoas no mar», disse justamente o presidente do município de Lampedusa após a enésima vida perdida.

É preciso verdadeiramente algo mais que as lágrimas. Algo que tenha minimamente a ver com a consciência lúcida de que a solução para o “fenómeno do século” exige inteligência, organização, respeito pelos direitos humanos, solidariedade entre povos. Numa palavra: ação política e paixão pelo ser humano. Antes que a próxima fotografia nos consuma o enésimo lenço de papel.

 

Texto de Alberto Laggia publicado na revista Famiglia Cristiana; tradução de Rui Jorge Martins na página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

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