Irvin D. Yalom é, como todos nós, muitas coisas: americano, filho de emigrantes russos, psiquiatra, professor universitário e também escritor. Tornou-se conhecido por romances que se transformaram em bestsellers mundiais, como Quando Nietzsche Chorou e A Cura de Schopenhauer.
No entanto, é sobre o seu livro De Olhos Fixos no Sol que venho partilhar algumas ideias que me acompanham desde que o li. Um livro que, apesar de falar sobre a morte, traz esperança, sobre como, segundo o autor, se pode vencer o medo da morte.

A capa do livro.
A primeira ideia é sobre o medo da morte. Em De Olhos Fixos no Sol, Yalom começa por dizer que cada pessoa tem medo da morte à sua maneira:
“Para alguns, o medo da morte manifesta-se apenas indiretamente, como uma intranquilidade generalizada ou disfarçada de um sintoma patológico qualquer; outros sentem uma ansiedade, explícita e constante acerca da morte, bem consciente que não os deixa nunca; e depois há ainda aqueles para quem o medo da morte se torna num terror que lhes nega a felicidade e a realização pessoal.”
Yalom acredita que “confrontar a morte permite recentrar a vida num plano mais rico, que permita viver com mais compaixão” e empatia.
Para isso, integra reflexões sobre personagens da literatura, filósofos e outros pensadores da história da psicologia e da psiquiatria. A partir da sua prática clínica, partilha relatos dos seus pacientes – que autorizaram a sua divulgação. Estes relatos exemplificam como o medo da morte se manifesta de diferentes formas, mostrando que o autoconhecimento e a consciência da finitude podem funcionar como uma experiência catártica, capaz de desencadear mudanças profundas na forma como se vive.
A segunda ideia, que decorre da primeira: é o conceito de rippling. Este baseia-se na imagem de uma pedra atirada à água, que provoca círculos concêntricos que se expandem até se perderem de vista. Yalom acredita que essa é a nossa “eternidade”, a marca que provocamos nos outros e que eles, por sua vez, vão passando àqueles com quem interagem, fazendo com que continuemos “vivos” enquanto eles também estiverem.
No rippling reside a esperança de deixar algo de nós, criando significado e dando sentido à vida. Não tem a ver com bens ou materialidade. Como descreve o autor, trata-se de “deixar algo da sua experiência de vida: algum traço, uma frase cheia de sabedoria, liderança, virtude (…)”. Pode ser uma ajuda, um gesto, algo que “constrói alguma coisa”. O autor também sugere uma outra forma de atingir este objetivo, através de uma projeção de cada um de nós no futuro, o que imaginamos e aquilo que queremos que de nós perdure.
A última ideia, que não segue a ordem do livro, mas fala diretamente comigo, são as “experiências do despertar”: epifanias da vida – situações, desafios, dor, trauma, perda, etc. acontecimentos – “o que nos obriga a ir mais fundo”; aquilo a que chamo a possibilidade de mudar.
Como exorta a letra da música Muda de Vida de António Variações: “Muda de vida,/
Se tu não vives satisfeito/ Muda de vida,/ Estás sempre a tempo de mudar.”
Assim, sobrevivemos ao medo da morte, segundo Irvin D. Yalom, apesar – ou talvez por causa – da autoconsciência da finitude, uma consciência que transforma esse medo e essa ansiedade numa motivação adicional. A vontade de deixar o mundo melhor do que o encontramos, de continuar a procurar o lado positivo da vida – o simples facto de estar vivo e de ter a possibilidade da mudança.
Esta é a minha leitura, mas tenho a certeza de que este livro permite muitas outras interpretações, leituras diferentes que nos convidam a refletir até que a morte, afinal, nos humanize.
De olhos fixos no sol: ultrapassar o terror da morte
Autor: Irvin D. Yalom
Tradução: Isabel Stilwell.
Edição: Saída de Emergência, 2008, 15,50€










