«A destruição niilista da natureza é o ateísmo posto em prática», escreveu o teólogo Jürgen Moltmann. Trata-se, acima de tudo, do ateísmo prático: a atitude que trata a natureza como simples recurso disponível, explorável sem limites, como se não houvera qualquer instância transcendente, perante a qual somos responsáveis. Tal postura pode encontrar-se tanto em ateus confessos como em crentes incoerentes, cegos e incapazes de reconhecer a Criação como dom e tarefa.
A crise ecológica não resulta apenas da poluição, da desflorestação, da perda de biodiversidade, do consumismo ou do paradigma tecnocrático, que nos rodeia e assola. As suas raízes são bem mais fundas; assentam em pressupostos metafísicos, antropológicos, epistemológicos e até teológicos que moldaram, durante séculos, a nossa relação com o mundo. A degradação ambiental é, pois, sintoma e resultado de uma crise espiritual e cultural.

Michelangelo, A Criação do Homem (Capela Sistina). “A ênfase na salvação individual, no pecado e na redenção atenuou, amiúde, o alcance e o significado da Criação.” Foto via Wikimedia Commons
São vários os responsáveis: um deles, paradoxalmente, talvez seja a tradição teológica ocidental. A ênfase na salvação individual, no pecado e na redenção atenuou, amiúde, o alcance e o significado da Criação. O Cristo cósmico tornou-se quase invisível, e o mundo natural (theatrum gloriae Dei, segundo Calvino) passou para segundo plano. A crescente separação entre teologia e ciências naturais alimentou o mito do conflito entre fé e ciência, enquanto certas formas de espiritualidade favoreceram uma atitude receosa perante o corpo e a matéria. Como observou Matthew Fox, o Ocidente privilegiou, muitas vezes, a redenção em detrimento da Criação e a consciência individual em detrimento da consciência cósmica.
Também a filosofia não se exime da responsabilidade. A modernidade facilitou a perda do sentido do cosmos, reforçou dualismos e plasmou a figura do sujeito isolado, separado do mundo que pretende conhecer e dominar. Segundo M. Heidegger, o niilismo caracteriza a história do Ocidente pela desvalorização do ser e do habitar poético no mundo. Enevoou-se a transcendência, transformaram-se os meios em fins e a natureza passou a olhar-se como simples recurso.

“A matematização ou geometrização ontológica da natureza e a interpretação mecanicista do universo favoreceram uma visão redutora da matéria.” Foto © Hal Gatewood | Unsplash
Tal evolução foi também estimulada pela ciência moderna. A matematização ou geometrização ontológica da natureza e a interpretação mecanicista do universo favoreceram uma visão redutora da matéria. O Iluminismo, por seu turno, exaltou uma razão abstracta e inspirou, por vezes, uma relação bélica com a natureza. A Revolução Industrial, a união entre ciência (agora profissionalizada) e técnica e a transformação do conhecimento em força produtiva aceleraram a exploração dos recursos naturais. Hoje, diversas formas de materialismo e naturalismo, muito influentes na Academia, continuam a elidir dimensões essenciais da experiência humana, como a liberdade, a interioridade e a abertura ao mistério.
Junte-se a tudo isto uma cultura marcada pela excarnação digital, pelo enfraquecimento dos vínculos comunitários e pelo esquecimento da nossa pertença ao mundo vivo. Perdemos a consciência da carnalidade da inteligência, do parentesco com os outros seres e do cuidado que a Terra nos merece.
Por isso, a resposta à crise ecológica exige muito mais do que medidas técnicas. Requer a conversão do pensamento e da sensibilidade, a redescoberta de uma certa feição sagrada do cosmos, o aprender a «escutar o canto das coisas», como dizia Rilke, e o despertar de uma consciência simbiótica, atenta à interdependência de todos os seres. A política global deve tornar-se, nas palavras de J. Moltmann, uma verdadeira «política da Terra».
Importa ainda reformar os modelos educativos, centrados quase só na racionalidade instrumental e utilitária, e recuperar uma visão relacional do mundo, à luz do nexo «Eu-Tu» de Martin Buber. As tradições indígenas, frequentemente marginalizadas pela racionalidade moderna, recordam-nos que o ser humano não existe diante da natureza, mas dentro dela.
O cristianismo possui recursos decisivos para esta renovação. Na Criação pode vislumbrar-se o vestígio do Deus trinitário e no ser humano o mediador da natureza visível. Como pregava J. B. Bossuet, cabe-lhe emprestar voz, inteligência e amor à Criação, recolhendo-a simbolicamente para a oferecer ao seu Criador. A vocação humana não é dominar a Terra como proprietário absoluto, mas habitá-la como guardião, sacerdote e servidor da vida.
Talvez nos falte, hoje, a oração que Sócrates, no Fedro (279-C), dirige à divindade: «Concedei-me que o meu interior se torne belo e que todas as coisas exteriores estejam em harmonia com as que possuo dentro de mim.» E, claro, carecemos igualmente do olhar dos poetas, capazes de reconhecer nas coisas (com o seu “delírio misterioso” [Enrique Molina]) não só objectos de uso, mas presenças dignas de contemplação, reverência e gratidão.
Artur Morão, professor aposentado e tradutor
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