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Atenção às periferias e luta contra abusos sexuais e racismo nas escolhas do Papa para 13 novos cardeais

| 25/10/2020

Wilton Gregory, arcebispo de Washington: o arcebispo condenou vigorosamente o abuso que Trump fez de símbolos religiosos. Foto reproduzida do Twitter da diocese de Atalanta.

 

O Papa Francisco anunciou no domingo, no final da alocução do Angelus, a nomeação de 13 novos cardeais, nove dos quais com menos de 80 anos, o que significa que poderão votar num eventual conclave. O consistório para a formalização da nomeação será realizado a 28 de Novembro, véspera do início do novo ano litúrgico católico, com o começo do Advento.

As escolhas recaíram sobre o arcebispo Wilton Gregory, de Washington (Estados Unidos), Antoine Kambanda, de Kigali (Ruanda); José Fuerte Advincula (Capiz, Filipinas); Celestino Aós Braco (Santiago do Chile); frei Mauro Gambetti, guardião do Sacro Convento de Assis; Cornelius Sim (Brunei); Paolo Lojudice (Siena, Itália). A lista integra ainda dois novos responsáveis da Cúria: o secretário do Sínodo dos Bispos, o maltês Mario Grech, e o italiano Marcello Semeraro, ex-bispo de Albano e novo prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, depois da saída de Angelo Becciu, suspeito de envolvimento em casos de corrupção.

Wilton Gregory, 72 anos, de Washington, um dos poucos bispos afro-americanos e o primeiro desse grupo étnico a ser nomeado para tal cargo, é porventura uma das escolhas mais significativas. Mesmo se é normal que o arcebispo da capital federal dos EUA seja nomeado cardeal, ela é também um sinal claro do Papa, no sentido de apoiar as posições da liderança católica – e de Gregory, em concreto – no sentido da defesa de uma maior justiça racial.

Gregory, que era considerado um homem moderado, não hesitou em condenar fortemente o uso de um santuário católico e de uma igreja protestante por parte do actual Presidente dos EUA, na sequência dos protestos contra a morte, do afro-americano George Floyd, asfixiado por um polícia. No início de Junho, Trump fez-se fotografar com uma Bíblia na mão e junto a uma estátua de João Paulo II, o que lhe mereceu fortes críticas de vários líderes católicos e protestantes, como o 7MARGENS noticiou.

No Washington Post, John Carr, que trabalhou com o novo cardeal durante 20 anos, diz que numa altura “em que o racismo está a dilacerar” o país, Gregory “tem sido uma voz consistente e persistente pela dignidade de todos – pelas vidas de negros, pela justiça racial e reconciliação”. E acrescenta: “Precisamos de cura, e o facto de o Papa Francisco reconhecer a sua liderança é um sinal de esperança.” O novo cardeal é um “pastor atencioso, um líder tranquilo e uma voz corajosa quando Washington e o país precisam dos três”, diz Carr.

Por outro lado, o arcebispo de Washington é conhecido também por ter sido um dos arquitectos da luta da Igreja Católica no país contra os abusos sexuais do clero e o encobrimento da parte de muitos bispos. Na altura da sua nomeação para a capital, em Abril de 2019, o National Catholic Reporter falava dele como um grande pastor para Washington.

Já na altura da sucessão, aliás, o actual arcebispo substituiu Donald Wuerl, que se demitira na sequência da apresentação do relatório do Grande Júri de Filadélfia de 2018, onde o seu nome aparecia como suspeito de ter lidado mal com casos de abuso.

 

Luta contra a pedofilia e periferias

A luta contra pedofilia de membros do clero está também por detrás da nomeação de Aós Braco, um dos bispos chilenos considerados mais empenhados nessa tarefa, depois dos escândalos que abalaram o catolicismo do país.

Outra escolha importante é a do padre Gambetti, guardião das basílicas de Assis. Foi nesta cidade que, no início do mês, o Papa assinou a sua nova encíclica, Fratelli Tutti. O nome que escolheu para o exercício do pontificado, que remete para Francisco de Assis, faz da cidade do Poverello uma referência deste pontificado, que deve ser destacada, ainda mais quando a escolha recai sobre um padre.

Dois outros padres estão, aliás, na lista, embora tenham mais de 80 anos e já não possam votar num eventual conclave: são eles Enrico Feroci, responsável de um santuário em Castel di Leva, na periferia sul de Roma; e Raniero Cantalamessa, que durante mais de 20 anos foi o pregador da Casa Pontifícia.

As nomeações de um cardeal ruandês e um outro filipino traduzem, de novo, a atenção de Francisco às periferias do mundo e às realidades que estão fora dos radares das notícias.

Os outros dois nomeados com mais de 80 anos, e que por isso não poderão votar em conclave, são Felipe Arzimendi Esquivel, bispo emérito de San Cristobal de las Casas (México) diocese em que os conflitos entre o Estado e os indígenas são particularmente vivos; e Silvano Tomasi, antigo observador do Vaticano junto das Nações Unidas em Genebra.

No final de anunciar os nomes, o Papa pediu que os novos cardeais o ajudem na sua “tarefa como bispo de Roma, em benefício do povo santo de Deus”.

 

Jerusalém já tem patriarca

Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém. Foto Fallaner/Wikimedia Commons.

 

Enquanto o Papa anunciava publicamente os nomes dos novos 13 cardeais, o Vaticano informou que Francisco nomeara também o novo patriarca de Jerusalém dos latinos, o franciscano Pierbattista Pizzaballa, que já desempenhava o cargo de administrador apostólico de “sede vacante”, desde a saída de Fouad Twal, o anterior titular, em Junho de 2016.

Natural de Bergamo, Pizzaballa foi titular da Custódia da Terra Santa, entre Maio de 2004 e Abril de 2016, quando passou a assegurar o interinato do patriarcado. O novo patriarca está na Terra Santa desde 1990, tendo ali concluído a sua especialização em 1993, tornando-se professor de hebraico bíblico na Faculdade Franciscana de Ciências Bíblicas e Arqueológicas de Jerusalém. No Vaticano, integra a Congregação para as Igrejas Orientais.

 

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