Ato de resistência

| 14 Mar 21

Troia

“Nos momentos críticos, o pão que nos alimenta é a beleza.” Foto @ José Centeio

 

A resistência assume frequentemente o carácter de oposição a algo exterior que queremos combater. Contudo, arriscaria dizer que esta será sempre vã se não for precedida de uma firme resistência interior. Das maiores às menores mudanças que queremos operar no mundo, para serem bem-sucedidas todas têm de partir de um compromisso de honra assumido connosco próprios. Não numa perspetiva autorreferencial, mas antes com o sentido de compromisso pela construção do que realizamos.

De modo mais ou menos consciente, todos reconhecemos em nós zonas cinzentas, espaços de dúvida, comodismo, hábitos contra os quais nos cansamos de lutar, ruminações que nos consomem. O cansaço de dias fechados, de uma rotina ou uma inesperada desilusão transportam-nos de novo para aí. E, nesse estado de apatia, nos vamos deixando ficar. A dado momento, condenamos à morte qualquer miragem de mudança em nós. O erro que estamos sempre a cometer, o projeto que nunca ganhámos coragem de começar, o feitio que nos cansa ou as pessoas que parecem nunca mudar o desânimo da vida que às vezes nos pode parecer desprovida de encanto. O maior ato de resistência é renovar a cada dia a convicção de que a vida é uma graça enorme.

O pessimismo será sempre uma sedutora tentação. É muito mais fácil pintar um quadro fatalista em que nada pode mudar. O olhar que busca a beleza e procura criá-la é a tábua de salvação para as rotinas tristes e confinadas.

Em tempos de confinamento, saudámos as forças de segurança, os médicos e enfermeiros; há ainda um importante agradecimento que não pode deixar de ser feito: o agradecimento aos artistas. Mal nos vimos confinados, assistimos a uma mobilização nunca vista para que óperas, teatro, cinema e literatura nos chegassem a casa.

Nos momentos críticos, o pão que nos alimenta é a beleza. Da mesma forma que devemos gratidão a quem nos salva a vida e cuida da nossa saúde, também aos que nos salvam a alma devemos essa gratidão. Um dos primeiros sinais de decadência no Homem é a perda de preocupação com a estética. Temos o cuidado em pôr uma mesa para nos alimentarmos, decorar a casa para nos abrigarmos, vestir-nos com cuidado para além da proteção do corpo, construir espaços com técnica e estética que sejam mais do que abruptos edifícios que nos servem as diversas necessidades.

Sempre nos serão dados variados motivos para vivermos como meros executores de tarefas. Parecerá ter a máxima lógica e é um lugar de comodidade e conforto. Olhar a vida como uma graça que nos é oferecida é o ato de resistência mais difícil e mais necessário.

 

Sofia Távora é jurista e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.

 

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