
Manifestação na cidade francesa de Lille contra o aumento de atos de antissemitismo em França, 27 junho 2024. Foto reproduzida a partir da conta de X de Audrey Linkenheld
O antissemitismo e a islamofobia estão a atingir “níveis sem precedentes” em França, alimentados pela guerra entre Israel e o Hamas e pela prevalência das ideias de extrema-direita no debate público, denuncia a Comissão Nacional Consultiva de Direitos Humanos (CNCDH) daquele país, no seu relatório de 2023. De acordo com o documento, publicado esta quinta-feira, 27 de junho, os relatos de atos antissemitas e anti-muçulmanos cresceram no ano passado 284% e 29%, respetivamente.
Desde 1990 que a comissão apresenta anualmente ao Governo um relatório que faz o balanço da situação do racismo em França. O documento agora divulgado revela que, pelo segundo ano consecutivo, o índice de tolerância diminuiu no país (correspondendo a 62 em 100). Esta diminuição verificou-se em relação a todas as minorias, mas a maior queda diz respeito aos judeus (68 em 100, em comparação com 72 em 100 no ano anterior).
O ano de 2023 ficou, pois, marcado por um aumento muito acentuado dos atos racistas em geral (+32%), com particular destaque para a explosão de atos antissemitas. “Vários fatores podem explicar esta evolução muito preocupante, para além das reações ao ataque terrorista de 7 de outubro e às operações militares de Israel: a polarização dos debates relacionados com a lei de Asilo e Imigração, os motins que se seguiram à morte de Nahel, abatido a tiros da polícia, o ataque jihadista contra o professor Dominique Bernard em Arras, a violência que se seguiu à morte de Thomas em Crépol“, pode ler-se no relatório.
No documento, a CNCDH lamenta a “pouca mobilização governamental” e o facto de só em março de 2024 a comissão de acompanhamento do Plano Nacional de Combate ao Racismo , ao Antissemitismo e à Discriminação ter reunido para acelerar a sua implementação.
O relatório alerta ainda para os “números particularmente preocupantes” recolhidos junto do Ministério da Justiça: 55% dos processos de natureza racista foram arquivados, houve uma diminuição de 17% no número de casos racistas encaminhados pelo Ministério Público e uma diminuição de 16% no número de pessoas indiciadas por crimes racistas. “O baixo número de condenações alimenta o sentimento de impunidade dos perpetradores, a desconfiança das minorias em relação às instituições e o seu sentimento de insegurança. A CNCDH apela ao governo para que faça do combate à impunidade uma prioridade absoluta”, pode ler-se no texto.
A comissão sublinha ainda que “a lei de imigração proposta pelo Governo em fevereiro de 2023 e que continha ecos da ‘preferência nacional’ e os debates em torno dela amplificaram a tendência xenófoba”. E alerta para “duas tendências que podem contribuir para alimentar a discriminação: o uso crescente de software de inteligência artificial na seleção de candidatos e a ‘uberização’ do trabalho”.
O antissemitismo no centro das batalhas políticas
Com as eleições legislativas francesas a aproximar-se – a primeira volta será no próximo dia 7 de julho – o antissemitismo tem estado entre os temas mais debatidos na campanha. O aumento dos atos antissemitas, que culminaram na última semana na alegada violação de uma menina de 12 anos judia por três adolescentes, nos subúrbios de Paris, despoletaram inúmeras manifestações e levaram o presidente francês Emmanuel Macron a denunciar o “flagelo do antissemitismo”, ao mesmo tempo que a líder de extrema-direita Marine Le Pen acusava a “extrema-esquerda” de “instrumentalizar” o conflito Israel-Hamas. Enquanto, à esquerda, alguns políticos tentam livrar-se das acusações de antissemitismo de que são alvo, o partido Rally Nacional, historicamente marcado pelas suas ligações a figuras antissemitas, apresenta-se como o novo protetor dos judeus.
“O antissemitismo existe na esquerda, especialmente na extrema-esquerda e no círculo da França Insubmissa e dos Ecologistas”, escreve a CNCDH no seu relatório. Mas não é “nada comparado com o que se observa na extrema-direita e nos que estão próximos do Rally Nacional”, sublinha.
Seja como for, aqueles que estão diretamente envolvidos na luta contra o antissemitismo duvidam de que qualquer campo político tenha vontade de tomar medidas significativas para acabar com ele, particularmente na área da educação, que consideram ser a mais importante a médio e longo prazo.
Em declarações à rádio francesa RFI, a co-presidente da rede educativa da Liga Internacional contra o Racismo e o Anti-Semitismo (Licra), Hélène Bouniol, diz encontrar nas escolas “uma grande confusão entre judeus e israelitas, que se expressa de forma extremamente violenta”. Para combater isto, não existe receita milagrosa. “Trabalhamos a História, a noção de bode expiatório e depois através de oficinas de análise crítica para fazê-los pensar sobre o que leem ou ouvem nas redes sociais. Mas isto requer muito tempo e investimento. Tem que fazer parte do currículo escolar”, defende Bouniol.
A investigadora Marie-Anne Matard-Bonucci concorda: “Hoje, na escola, falamos de antissemitismo, da Shoah, um pouco do caso Dreyfus, e pronto. Não estamos interessados nas longas raízes do antissemitismo que são religiosas”. Segundo ela, é preciso abandonar uma abordagem que depende exclusivamente da memória e adotar “uma abordagem multidisciplinar, com formação jurídica, histórica, sociológica… uma abordagem global das questões que compreenda o racismo e o antissemitismo como um todo”.









