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Capa do disco "Fiat Lux" Grupo Vocal Olisipo
Pormenor da capa do disco "Fiat Lux".

Músicas pela paz (19)

Atravessar fios de luz e de esperança

| 17/02/2026

Sem qualquer intuito antológico, o 7MARGENS procurará chamar a atenção, nestes tempos, para músicos e músicas que traduzam a urgência da paz em relação a guerras e conflitos que persistem no mundo. Mais um capítulo da série Músicas pela paz.

 

Este é um disco criado para afirmar “a universalidade dos horrores da guerra e dos seus efeitos na humanidade” e também uma “visão de luz” que pretende levar-nos “definitivamente do lamento pela guerra ao anseio pela paz”. As palavras são de Armando Possante, na apresentação da obra do Grupo Vocal Olisipo que, mesmo já tendo sido publicado há algum tempo, não deixa, tragicamente, de nos trazer uma música e uma reflexão actualíssima, ainda mais quando estamos à beira de completar quatro anos sobre a invasão russa da Ucrânia.

Este objecto não é só um disco: há uma intencionalidade na escolha dos compositores (Eurico Carrapatoso, Tiago Derriça, Anne Victorino d’Almeida), dos poemas e dos poetas (Arthur Rimbaud, Fernando Pessoa, Natália Correia, Guillaume Apolinaire); há uma expressão fotográfica e visual, criada por Tiago Figueiredo para afirmar que na guerra, “no fim, todos perdem”; e há um conjunto de pequenos-grandes textos dos diferentes autores, para nos traduzir o que já intuíamos na música, nas fotografias, nos poemas, na criação. Tudo isto significa também que não devemos reduzir a música ao consumo em plataformas digitais, onde a ouvimos adormecidos. Os discos dão-nos uma linguagem musical total, que falta quase sempre na linguagem plana do digital. Além de nos trazerem também o prazer estético que só se usufrui com os sentidos – escutar, ver, ler, tactear e passar as folhas, cheirar o papel…

O disco reúne três obras cuja história Armando Possante também conta na apresentação: um Te Deum em Louvor da Paz, de Carrapatoso, com quem o Olisipo já trabalhara há duas décadas (Magnificat em Talha Dourada); Três Poemas de Fernando Pessoa (entre os quais O Menino de Sua Mãe), de Tiago Derriça; e a Ode à Paz, de Anne Victorino d’Almeida.

Há uma intencionalidade clara nestas criações: esta música oferece-nos um projecto “de amor pela paz, pela vida, pela arte, pela música, pela amizade” (Armando Possante) contra a “perda humana que resulta da frivolidade da guerra” (Tiago Derriça).

A música vinca a “nota plangente pelo sofrimento humano”, como diz Eurico Carrapatoso, que criou um extraordinário Te Deum que coloca em diálogo o piano de Tiago Bentes do Rosário com as vozes e o texto de louvor litúrgico. Mas a música faz-nos atravessar também fios de luz e de esperança. Desde logo, pela resistência que surge da contemplação de cada “menino de sua mãe” que “jaz morto e arrefece”, por causa de políticos sem escrúpulos; mas também “Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza/ Pelas aves que voam no olhar de uma criança” de que Natália fala na Ode à Paz.

Capa do disco "Fiat Lux" Grupo Vocal Olisipo

Capa do disco “Fiat Lux”, do Grupo Vocal Olisipo.

À medida que se ouve o disco aprende-se a gostar, gosta-se cada vez da música, da sua estética e também da ética que ela nos propõe. Uma obra obrigatória, “uma pequenina luz bruxuleante e muda”, como no poema de Jorge de Sena, mas uma luz portentosa, nestes tempos sombrios que nos atormentam.

 

Fiat Lux

Autores e intérpretes: Eurico Carrapatoso, Tiago Derriça, Anne Victorino d’Almeida; Tiago Figueiredo (Fotografias); Maria de Medeiros (declamação); Armando Possante (direcção musical); Grupo Vocal Olisipo.
Edição: Ava Musical Editions
Disponível na página do Grupo Vocal Olisipo.

 

[Texto inicialmente publicado na revista Além-Mar]

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