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Atribuído a Eduardo Lourenço o prémio Padre Manuel Antunes

Atribuído a Eduardo Lourenço o prémio Padre Manuel Antunes

by | 12 Abr 20

Falar de Eduardo Lourenço é invocar o grande intérprete de Portugal. O Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes que lhe foi atribuído este ano é o reconhecimento de um percurso de vida de quem tem refletido profundamente sobre a cultura com uma especial inquietação espiritual.

Eduardo Lourenço. Retrato pintado por BottelhoEduardo Lourenço. Retrato pintado por Bottelho

Eduardo Lourenço. Retrato pintado por Bottelho, reproduzido na Wikimedia Commons

 

A atribuição do Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes (2020) a Eduardo Lourenço representa o reconhecimento de um percurso de vida de quem tem refletido profundamente sobre a cultura com uma especial inquietação espiritual, significativamente convergente com o magistério da figura ímpar que inspira este prémio. E importa lembrar o que o agora premiado afirmou no centenário da revista Brotéria, reconhecendo o Padre Manuel Antunes como “grande mestre e ensaísta” com uma especial “atenção aos novos tempos, os de casa e do mundo”, não privilegiando o aspeto apologético das suas profundas convicções religiosas e metafísicas, sempre ligado à exigência crítica.

Falar de Eduardo Lourenço é invocar o grande intérprete de Portugal. E o certo é que a sua reflexão abre horizontes, recusando uma visão fechada ou retrospetiva da nossa identidade, abrindo-lhe novas dimensões, não mitológicas, mas capazes de integrar o imaginário crítico num diálogo diacrónico e sincrónico de diversos tempos e culturas. É uma personalidade multifacetada que se singulariza pela coerência entre um pensamento independente e uma permanente atenção à sociedade portuguesa, à sua cultura, numa perspetiva ampla, avultando a reflexão sobre uma Europa aberta ao mundo e não fechada numa qualquer fortaleza de egoísmo e de preconceito.

Ensaísta enciclopédico, eis como podemos definir o lugar de Eduardo Lourenço na cultura portuguesa. Não há autor fundamental do século XIX e XX da literatura portuguesa que tenha passado despercebido ao ensaísta e crítico. Como leitor incansável, pôde encontrar, mesmo em referências menos notórias, um significado, com uma capacidade única de relacionamento no tocante a uma cultura, com naturais limitações, que, sempre que se abriu e se deixou influenciar, que adicionou às suas características próprias e originalidades os elementos miméticos alheios, tantas vezes reconfigurados, com extraordinárias surpresas. Em lugar de alimentar uma ilusão sobre qualquer lusofonia paternalista ou uniformizadora, o ensaísta alerta-nos para a exigência de entendermos a modernidade como um ponto de encontro entre a racionalidade, o idealismo e a emotividade, dramática e poética. E assim o diálogo entre razão e fé é algo que sempre esteve presente na sua reflexão crítica, do mesmo modo que os temas ligados à espiritualidade, bem presentes numa análise sistemática da obra de grandes autores cristãos, avultando a interrogação e a compreensão das raízes do pensamento espiritual de Antero de Quental.

Europeísta convicto e crítico, considera que a História é uma batalha cultural, sempre. “A Europa define-se na sua relação com o que não é Europa. Só sabemos o que é Europa quando estamos fora da Europa. Na Europa temos uma experiência normal. É como a experiência de quem está em casa. Há até uma pluralidade de casas que, mais ou menos, têm afinidades entre elas. Isso é a Europa.” Mas há ameaças e perigos, e até a indiferença e a acomodação. Falta a normalização connosco próprios. Perante tantos sinais de incerteza persiste uma miragem europeia. Contudo, a Europa fechada definha. Importa tirar lições, procurando caminhos que permitam encontrar a defesa de um pequeno e eficaz núcleo de interesses e valores comuns.

A leitura da obra de conjunto de Eduardo Lourenço é fundamental. Ao contrário do que tantas vezes se disse, o caráter fragmentário dos ensaios não prejudica a articulação das diferentes componentes da sua criação cultural. Em O Labirinto da Saudade (1978) ou em Portugal como Destino (1999), no contexto de uma obra vastíssima publicada pela Gradiva e pela Fundação Calouste Gulbenkian, o ensaísta analisa Portugal e os portugueses na sua identidade complexa, ciclotímica, aberta, heterogénea e inesperada, capaz “de se aceitar tal como foi e é, apenas um povo entre os povos. Que deu a volta ao mundo para tomar a medida da sua maravilhosa imperfeição”.

Nascido em S. Pedro do Rio Seco na raia beirã em 1923, aluno do Colégio Militar, licenciado e professor na Universidade de Coimbra, onde lhe foi outorgado o doutoramento honoris causa, lecionou em Heidelberg, em Montpellier, na Bahia e sobretudo na Universidade de Nice – ao lado de Annie Salomon, grande hispanista e sua mulher de uma vida. Fundador da revista Vértice, manteve colaboração muito ativa nas revistas culturais e na imprensa, sendo uma das referências de O Tempo e o Modo e Raiz e Utopia. Escreve não para recuperar o país, que não perdeu, mas para o “pensar” com a mesma paixão e sangue-frio intelectual com que pensava quando “teve a felicidade melancólica de viver nele como prisioneiro de alma”.

Ao ter conhecimento do Prémio, Eduardo Lourenço disse: “Foi para mim uma grande surpresa. Já não estou em idade de receber prémios; mas tive uma grande satisfação e honra, não por mim, mas pela grande admiração que tenho pelo Padre Manuel Antunes, velho amigo, que cultivou a exigência crítica e deixou-nos uma obra notável a que regresso sempre com grande proveito”.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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