Auschwitz, 75 anos: uma visão do inferno

| 14 Fev 20

Ilustração alusiva aos fornos crematórios de Auschwitz, na Exposição “Auschwitz – No hace mucho. No muy lejos”, em Madrid (2018-2019); foto © Nair Alexandra

 

O campo da morte de Auschwitz foi libertado há 75 anos. Alguns sobreviventes do Holocausto ainda nos puderam narrar o que lá sofreram, antes de serem libertados pelos militares soviéticos, em 27 de janeiro de 1945. Tratou-se de um indiscritível inferno, um lugar onde toda a esperança morria ao nele se entrar. Onde cada uma das vítimas foi reduzida a um número, tatuado no braço. Dizia-se então, quando se entrava através de um portão com a frase “o trabalho liberta”, que de lá só se podia sair através do fumo de uma chaminé. Testemunhos arrepiantes e imagens sinistras, que nas últimas semanas nos confrontaram de novo com o horror que lá se vivia, colocando a maldade humana abaixo do comportamento dos animais selvagens. Planeada, racional, metódica, executada pelos seguidores de Adolf Hitler faz-nos perceber até onde o “lobo” homem pode descer, quando se torna um fanático, um racista, um xenófobo, um embriagado pelo poder absoluto.

Dos tempos da cristandade europeia, já conhecíamos as imagens terríficas, colocadas nas portas da entrada das belas catedrais góticas. Como sabemos, trata-se de figuras horríveis cuja finalidade pedagógica e catequética era mostrar macabras imagens demoníacas, a lançarem os condenados nas chamas infernais, após terem sido julgados no Juízo Final. Pretendia-se assim mostrar aos fiéis que alguns comportamentos humanos eram merecedores de eternos e dolorosos castigos, dentro de fornalhas ardentes, que jamais se apagariam.

Porém, nos campos de extermínio (Auschwitz-Birkenau ou outros), as pessoas eram condenadas e assassinadas, apenas por terem nascido numa família judaica ou cigana. Ou por serem homossexuais ou adversários políticos, sobretudo comunistas, deficientes físicos ou psíquicos. Podiam ser condenados ainda, por serem religiosas ou pessoas “associais” ou ainda prisioneiros de guerra, soviéticos.

A arbitrariedade era tal que qualquer pessoa, pertencente a qualquer destas categorias sociais, podia ser denunciada e enviada, metida dentro de comboios nauseabundos, para um dos muitos campos de concentração, onde milhões de pessoas eram gazeadas para posteriormente, serem queimadas nos fornos.

As montanhas de objetos pessoais das vítimas ainda hoje se podem ver em Auschwitz, na Polónia, onde se encontram expostas algumas das latas do gaz mortífero – zyklon B – utilizado para assassinar os condenados.

Os números que já foram apurados referem-se a judeus que viviam nos países conquistados pelas tropas nazis. Dos 2.600.000 judeus deportados, terão morrido no Holocausto quase 90%. Um verdadeiro genocídio, supostamente ignorado pelas pessoas que viviam junto aos campos de concentração e que outros países disseram desconhecer.

A perseguição aos judeus iniciou-se logo em 1938, com a subida de Hitler ao poder. Começou por proibi-los de exercer certas profissões. Posteriormente, mandou expropriá-los dos seus bens. Mais tarde, foram encerrados em guetos. Finalmente, na segunda metade de 1941, os judeus foram enviados em comboios para os campos de concentração, onde a maior parte encontrou a morte.

Quando os judeus começaram a ser perseguidos, nos países sob controlo alemão, muitos optaram por sair, procurando um lugar que lhes proporcionasse alguma tranquilidade e segurança. Foi o que aconteceu com os judeus que procuraram refúgio em Portugal, um país neutral na II Guerra Mundial para, a partir daqui, emigrarem para outros países, sobretudo para os Estados Undos da América e para a América Latina.

Com Salazar no poder, os vistos concedidos aos judeus que optaram por vir para Portugal, segundo as ordens determinantes do ditador, tornaram-se cada vez mais difíceis de conceder. Perante tal limitação, o nosso cônsul em Bordéus (França), Aristides de Sousa Mendes, decidiu não acatar as orientações de Salazar, começando a passar vistos a milhares de judeus fugitivos que os solicitavam, sobretudo a partir da invasão de França, pelas tropas alemãs, em 1940. Segundo a Comunidade Israelita de Lisboa, Aristides, entre junho de 1940 e maio de 1941, possibilitou a entrada de cerca de 42.000 refugiados judeus em Portugal.

Só que esta desobediência acabaria por ficar muito cara ao cônsul. Perseguido e com vários filhos, viu-se forçado a uma aposentação não remunerada. Impossibilitado de trabalhar, ficou arruinado, morrendo em 1954. Mais tarde, com a democracia, seria reabilitado. Com os olhos nestes acontecimentos de há 75 anos, torna-se hoje urgente mantermos viva a memória, para que jamais se torne possível esta realidade infernal regressar à terra. Fiquemos alerta, porque os nazis já estão por aí.

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário. Contacto: florentinobeirao@hotmail.com

Artigos relacionados

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Os donativos entregues por 136 leitores e amigos somaram, até terça, 30 de junho, €12.020,00. Estes números mostram uma grande adesão ao apelo que lançámos a 7 de junho, com o objetivo de reunirmos €15.000 para expandir o 7MARGENS ao longo do segundo semestre de 2020. A campanha decorre até ao final de julho e já só faltam menos de €3.000! Contamos consigo para a divulgar.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

CE volta a ter enviado especial para promover liberdade religiosa no mundo novidade

O cargo de enviado especial para a defesa da liberdade religiosa tinha sido extinto no ano passado pela presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, mas as pressões de inúmeros líderes religiosos e políticos para reverter essa decisão parecem ter surtido efeito. O vice-presidente da CE, Margaritis Schinas, anunciou que a função irá ser recuperada.

Papa assinala sete anos da viagem a Lampedusa com missa especial online

O Papa Francisco celebra esta quarta-feira, 8 de julho, o sétimo aniversário daquela que foi a primeira (e talvez mais icónica) viagem do seu pontificado: a visita à ilha de Lampedusa. A data é assinalada com uma eucaristia presidida por Francisco na Casa Santa Marta, a qual terá início às 10 horas de Lisboa, e será transmitida online através dos meios de comunicação do Vaticano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo novidade

O hospital pediátrico Bambino Gesú, em Roma, gerido pelo Vaticano, separou com êxito duas irmãs siamesas de 2 anos, que nasceram unidas pelo crâneo na República Centro Africana. A complexa operação, que durou 18 horas e contou com uma equipa de 30 profissionais de saúde, teve lugar no passado dia 5 de junho, mas o hospital só revelou todos os detalhes esta quarta-feira, 8 de julho, numa conferência de imprensa.

É notícia

Entre margens

Do confinamento às Minas novidade

Vestígios dos trilhos usados para o contrabando abundante nesta zona da raia. Algum complemento a um salário magro. Histórias de perigos, ousadia, dignidade, persistência e superação. Na aldeia de Santana das Cambas existe um Museu do Contrabando que soubemos estar encerrado.   
Curvo-me perante uma realidade que desconhecia, apenas intuía… Ao olhar para os mineiros envelhecidos e suas famílias passei a vê-los como heróis, príncipes daquela terra, figuras exemplares de cidadania e coragem.

A favor do argumento ontológico novidade

A realidade é um extraordinário abismo de Ilimitado em todas as direções e dimensões. É isto o Absoluto. Não tendo na sua constituição nenhuma descontinuidade, nenhum vazio absoluto (pois nele o nada absoluto [ou Nada] não pode simplesmente ter lugar), o Absoluto é plenitude de Ser. A isto se chega pela simples consideração de que o Nada, precisamente por ser Nada, não existe nem pode existir, pelo que sobra “apenas” aquilo que existe de facto, que é Tudo.

Memórias do Levante

À ideia da raça superior sucedeu a ideia da cultura superior, quase tão maléfica como aquela. E escravizar os seres humanos “inferiores” deu lugar a desvalorizar ou mesmo destruir as culturas “inferiores”. O resultado é que, se ninguém ganhou com isso, a verdade é que a humanidade perdeu e muito

Cultura e artes

Aquilino e Bartolomeu dos Mártires: o “pai dos pobres e mártir sem desejos” novidade

Aquilino Ribeiro, escritor de prosa escorreita, pujante, honrou a dignidade da língua portuguesa à altura de outros antigos prosadores de grande qualidade. Irmanado com a Natureza beirã: aves, árvores, animais e homens. Espirituoso e de fina ironia, é bem o Mestre da nossa Língua. Em “Dom Frei Bertolameu” faz uma espécie de hagiografia do arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), canonizado pelo Papa Francisco a 6 de Julho de 2019.

Ennio Morricone: O compositor que nos ensinou a “sonhar, emocionar e reflectir”

Na sequência de uma queda em casa, que lhe provocou a ruptura do fémur, o maestro e compositor italiano Ennio Morricone morreu esta segunda-feira em Roma, na unidade de saúde onde estava hospitalizado. Tinha 91 anos. O primeiro-ministro, Giuseppe Conte, evocou com “infinito reconhecimento” o “génio artístico” do compositor, que fez o público “sonhar, emocionar, refletir, escrevendo acordes memoráveis que permanecerão indeléveis na história da música e do cinema”.

Teologia bela, à escuta do Humano

Pensar a fé, a vivência e o exercício do espírito evangélico nos dias comuns, é a tarefa da teologia, mais do que enunciar e provar fórmulas doutrinárias. Tal exercício pede atenção, humildade e escuta dos rumores divinos na vida humana, no que de mais belo e também de mais dramático acontece na comunidade dos crentes e de toda a humanidade.

Sete Partidas

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo branco, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco