Austen Ivereigh, biógrafo e entrevistador do Papa: “A batalha maior é mudar a cultura da Igreja”

| 15 Jan 2021

Austen Ivereigh

Austen Ivereigh numa conferência em Lisboa em Julho de 2019: “Não há um tão grande obstáculo à evangelização como o clericalismo.” Foto © João Ferrand/Companhia de Jesus

 

Para o Papa Francisco, a crise – seja a pandémica, sejam as crises em que o catolicismo está mergulhado – é uma oportunidade de mudança, diz Austen Ivereigh jornalista inglês cuja entrevista ao Papa na última Primavera-Verão deu origem ao livro Sonhemos Juntos (ed. Planeta), esta semana posto à venda em Portugal e do qual o 7MARGENS fez a pré-publicação de um excerto do primeiro capítulo.

Nesta obra, o Papa defende que o cristão deveria favorecer uma política feita desde a base, “arreigada na comunidade, não-violenta e orientada ao bem comum”, resume Ivereigh, que acrescenta ser “a primeira vez na história da Igreja que um papa recomenda uma política baseada nos movimientos populares”.

Há um ano, o jornalista publicara um outro livro (editado em Portugal em Outubro), desta vez sobre o pontificado de Francisco: O Pastor Ferido – O Papa Francisco e a sua luta para converter a Igreja Católica (ed. Vogais). Autor de O Grande Reformador, uma das melhores biografias publicadas sobre o Papa Bergoglio, Austen Ivereigh pode ser considerado, assim, uma das pessoas em melhor posição para fazer a leitura dos caminhos propostos por Francisco.

A propósito de O Pastor Ferido, Ivereigh diz que “não há um tão grande obstáculo à evangelização como o clericalismo” e que “a crise dos abusos sexuais está a “ajudar a Igreja a converter-se, de uma forma dramática”. E é claro que o Papa dá prioridade à mudança das mentalidades e da cultura, antes das mudanças legais. Essa é a sua maior batalha, com uma estratégia onde a dinâmica da sinodalidade é fundamental. E à sua frente está, agora, a última missão…

 

Sonhemos Juntos foi posto à venda esta semana em Portugal.

7MARGENS – Ao terminar Sonhemos Juntos, percebemos que aquilo que preocupa o Papa, como escreve no Post-Scriptum, é o processo de transformação em si mesmo – a conversão, em linguagem cristã. Já n’O Pastor Ferido insistia nessa ideia. Para ele, o mais fundamental é mesmo que as pessoas se convertam e que essa mudança pessoal leve à mudança social?

AUSTEN IVEREIGH (A.I.) – N’O Pastor Ferido usei a metáfora do Papa como director espiritual da humanidade, acompanhando-nos num retiro onde abrimos o coração e a mente ao Espírito. O projecto do pontificado, em geral, é deixar que Deus entre na história e nas nossas histórias.

Com a pandemia e o acompanhamento espiritual que nos oferece em Sonhemos Juntos, o Papa faz o mesmo que fez em todo o seu pontificado, mas com uma nova urgência e sentido do concreto: como diz no início do livro, estamos num umbral, diante de uma encruzilhada; desta crise sairemos melhores ou piores, mas nunca iguais.

 

7M – E ele pensa que vamos sair melhores?

A.I. – O processo de mudança depende de como nós respondemos, como sociedade e humanidade, à graça, que nos oferece sempre um Deus de misericórdia. É uma questão de abrir mentes e corações ao Espírito. E o seu papel, o papel de Deus, é alertar-nos sobre as tentações e obstáculos que previnem ou minam essa abertura.

Nesse sentido, para o Papa, a crise é uma oportunidade de mudança. O que lhe interessa é não só a sociedade melhor que queremos ver depois, mas também o próprio processo de conversão: como nos abrimos a Deus em momentos de tribulação histórica? Como pode uma crise como esta ser uma porta para um futuro melhor?

 

7M – Como o sentiu pessoalmente perante a crise? Optimista?…

A.I. – Eu diria que não é optimista, no sentido em que tem pouca confiança nas estruturas políticas, sociais e económicas, que ele percebe que estão em crise, em que faltam as respostas. A sua visão é que a pandemia desvela outras crises que já aí estavam, mas não quisemos afrontar. Ele enumera as várias crises de que a humanidade já padecia, como sinal da necessidade de mudança.

O Papa não é optimista, mas tem esperança. Como ele diz no início, na história do dilúvio no livro de Génesis, está a Arca de Noé, que nos transporta a outro futuro. Em todos os períodos de crise, há sempre uma porta. E cita Hölderlin: “Onde está o perigo, cresce também o que nos salva.” Nesse sentido, é um homem de esperança.

 

7M – E onde fundamenta ele a sua esperança?

A.I. – Como no Novo Testamento, coloca-a na periferia, no despertar do povo para com a sua própria dignidade, que aprende estando em contacto com o Deus da misericórdia.

Ele vê sinais, e dá vários exemplos no livro, desse despertar. Este é um momento dramático, uma encruzilhada mas, como em todas as estruturas em crise, há uma via de escape, uma Arca de Noé: o despertar de movimentos do povo para a sua própria dignidade.

Na primeira parte, ele vê este momento como análogo ao livro [do Antigo Testamento] de Neemias, que é a história do povo de Jerusalém a assumir a responsabilidade [em nome da sua] dignidade.

 

7M – Por isso diz que ele está com energia?

A.I. – Eu vejo-o energizado pela crise. Na Argentina, diziam que ele era um piloto de tempestades: nas crises, sabe o que fazer. Isso é verdade com todos os grandes líderes: os momentos de crise dão-lhes o sentido de que têm uma missão específica. No seu caso, a missão é claríssima: indicar o horizonte possível, acompanhar-nos indicando o caminho, os becos sem saída e os obstáculos.

 

Uma política baseada nos movimientos populares
Papa Francisco. Movimentos populares

O Papa no encontro de Movimentos Populares, na Bolívia, em Julho de 2015: “É a primeira vez que um papa fala destas dinâmicas de forma tão clara.” Foto © Juan Diego/Encuentro Mundial de Movimientos Populares

 

7M – Na encíclica Fratelli Tutti, ele distingue o povo (do conceito latino-americano), dos populismos que estamos sofrendo…

A.I. – Sonhemos Juntos e a encíclica complementam-se muito bem. Pude ler, em Julho, um rascunho da Fratelli Tutti e pareceu-me fantástico, dando-me a oportunidade de lhe fazer várias perguntas sobre como, na prática, se podem realizar as coisas que ele propõe na encíclica, que tem de ficar num plano abstracto por ser ensino magisterial.

Sonhemos Juntos pode ser mais específico e concreto, por ser uma reflexão pessoal. Por exemplo, na encíclica ele faz uma crítica muito forte ao populismo, colocando-o em contraste com o que designa com uma política autêntica na qual o povo está envolvido. Critica os populismos por utilizar o povo e não o integrar…

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