Austen Ivereigh e os seis anos do Papa: “O que afecta a todos deve ser discutido por todos”

| 12 Mar 2019 | Destaques, Igreja Católica, Newsletter, Papa Francisco, Últimas

Austen Ivereigh, na noite de 11 de Março, em Braga; foto © Eduardo Jorge Madureira

 

A forte turbulência que está a provocar o problema dos abusos sexuais de menores cometidos pelo clero oferece uma oportunidade singular para acelerar o processo de conversão e purificação da Igreja Católica, julga o jornalista britânico Austen Ivereigh, que na noite de segunda-feira deu em Braga, no Auditório Vita, uma conferência. Apesar de o título ser “O cristianismo na Europa”, a intervenção (a propósito dos seis anos da eleição de Jorge Mario Bergoglio como Papa, que se assinalam nesta quarta-feira, dia 13) constituiu sobretudo um testemunho qualificado acerca do modo como o Papa Francisco olha para este período de tribulação.

Afirmando que o Papa não tem uma visão optimista do tempo actual e da globalização, destruidora dos vínculos de pertença, da fragmentação das existências e da perda da conexão do presente com a transcendência, o autor de Francisco, o grande reformador: Os caminhos de um Papa Radical (ed. Vogais), observou que a alternativa por que Francisco optou para lidar com a modernidade líquida consistiu em fazer a Igreja sair para evangelizar, em vez de construir uma espécie de ponte levadiça, que a acantonasse nas suas certezas. Em vez de críticas e de lamentos, o Papa preferiu discernir – uma acção muito sublinhada ao longo de toda a intervenção – e reformar. Para Francisco, a Igreja tem de ser próxima e concreta, tem de fazer a experiência do encontro com a pessoa de Jesus Cristo, referiu Austen Ivereigh, acrescentando que o cristianismo não é uma ideologia, nem um conjunto de preceitos morais, mas o encontro com Cristo.

Considerando que a evangelização é aprender a hospedar, tratando de acolher, proteger e integrar, o jornalista britânico indica aquele que é, para o Papa, o principal obstáculo à conversão evangélica: o clericalismo. Ele é a causa de uma distorção, que se concentra mais na instituição do que em Jesus, afirmando o mito da superioridade sacerdotal. Em vez de Cristo, o legalismo e o moralismo. Além de denunciar esta situação, Francisco, segundo Austen Ivereigh, deu um contributo decisivo para a Igreja do futuro ao defender a escuta e a sinodalidade. De facto, “o que afecta a todos deve ser discutido por todos”.

Para o jornalista, o que a crise suscitada pelos abusos sexuais de menores está a fazer é a colocar em questão precisamente o clericalismo de uma Igreja auto-referencial, com abusos de poder e de consciência, para além dos sexuais. A vergonha, acrescenta Austen Ivereigh, interpretando o pensamento de Francisco, pode, todavia, fazer surgir a possibilidade da conversão e do perdão. Para que isso se concretize, torna-se necessário evitar dois tipos de reacções: uma, que tenderá a dar uma resposta defensiva ou negacionista, outra que se confinará a uma atitude juridista. O conferencista sublinhou que só uma conversão profunda é susceptível de renovar a Igreja e que o Papa sabe que ela não muda dando ordens de cima.

A conferência pode ser vista e ouvida aqui.

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