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Teatro Maizum

Leitura encenada em Lisboa

“Auto de São Vicente” regressa ao lugar onde foi representado no século XVI

| 11/01/2024

Ensaio do Maizum: uma peça em que Lisboa se assume como personagem. Foto Direitos Reservados

 

Uma leitura encenada do Auto de São Vicente de Afonso Álvares, pelo Teatro Maizum, decorre nesta sexta, 12, e sábado, 13 de Janeiro (às 19h, em ambos os casos) na Igreja do Mosteiro de São Vicente de Fora – o local onde foi apresentada pela primeira vez, no século XVI. A iniciativa, protagonizada pelo Teatro Maizum, com direcção artística de Silvina Pereira, insere-se no âmbito das comemorações dos 850 anos da chegada a Lisboa das relíquias de São Vicente (1173-2023).

Datado do século XVI, o Auto de São Vicente inclui a própria cidade de Lisboa como uma das personagens, que fala das dificuldades que enfrentava naqueles dias, diz a sinopse da peça. “Assolada por um tremor de terra (1531) e uma peste que lhe dizima a população, Lisboa, personagem de teatro, queixa-se, para além das tragédias naturais sofridas, das consequências dessas provações e agruras, como a seca, a má colheita e a falta de justiça, insinuando-se uma certa dissociação entre a cidade e os seus cidadãos.”

Esta figura alegórica convida a dado momento um cidadão para assistir ao martírio de São Vicente às mãos de Daciano – uma “representação teatral justificada pela relação íntima, cultural e religiosa” do santo com Lisboa. “O rico cidadão anuncia assim o tema do Auto onde se verá encenada a disputa de São Vicente com Daciano, rei dos gentios, passado no tempo do Santo. Mas antes que a representação romana tenha início, pondo em cena o mecanismo do teatro dentro do teatro, assistimos a um entremez por um casal de vilões, Pero Casco e Isabel Vaz, a propósito da perda de uns frangos e da exigência de que estes lhes sejam devolvidos.”

Depois da representação do martírio, há uma segunda farsa em que entra “outro casal de vilões, a serrana Constança e o pastor tolo Gonçalo”, que devolvem a percepção do “mundo às avessas”, que vai sendo “servido em modo jocoso e divertido, numa sátira salpicada de graça e de actualidade” e que é rematada por um anjo e o diabo.

São Vicente: a reconstituição do seu martírio é um teatro dentro do teatro. Foto: Direitos reservados.

 

Afonso Álvares terá nascido no início do século XVI e foi contemporâneo de António Ribeiro Chiado. Com este poeta manteve acesa polémica em verso, por ela se depreendendo que era mulato, filho de uma nativa da Guiné. Autor de quatro autos hagiográficos, Álvares foi convidado pelos cónegos de São Vicente de Fora para apresentar o Auto de São Vicente nas salas adjacentes da Igreja do Mosteiro, desse modo valorizando a relação do santo com Portugal, já que viria a tornar-se o padroeiro de Lisboa, por vontade de D. Afonso Henriques, que lhe enalteceu as virtudes da fé e da persistência.

A encenadora Silvina Pereira escreve na folha de sala que para Afonso Álvares a representação era mais importante do que o próprio texto, ideia também defendida pelo padre Luís da Cruz, no prólogo que escreveu por volta de 1600, para a edição das suas obras em teatro, em 1605. E este auto acaba por nos fazer pensar em “como os povos se sentem frágeis e desprotegidos perante os poderes instituídos”.

Silvina Pereira sublinha “a esclarecida carpintaria cénica do dramaturgo, que faz convergir a representação de entremeses com vilões onde sobressai o tom satírico com a dramaticidade hagiográfica, entrecruzando com habilidade a história, a lenda e o martírio do santo no século IV com a denúncia dos costumes contemporâneos ao autor, mostrando também com este exemplo pedagógico a dimensão trágico-cómica da vida”. Ou seja, percebemos que, afinal, “o mundo é um palco de múltiplas representações”.

As comemorações dos 850 anos da chegada a Lisboa das relíquias de São Vicente incluem ainda, nos próximos dias 20, 22, 23 e 25 de janeiro, um conjunto de visitas e percursos que convidam “todos a mergulhar na história da figura de São Vicente e no significado das suas relíquias”.

 

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