O dia 24 de Julho foi o Dia Internacional do Autocuidado. Por essa razão decidi escrever este pequeno texto.
Eram 4 horas da tarde e olhou para o relógio que, entre outras funções, lhe controlava os passos que dava e, consequentemente, os quilómetros que fazia diariamente. Pensou que não era suficiente, pois, não estava propriamente em princípio de dia e ainda lhe faltavam cerca de 1500 metros para atingir os 5km que se propunha fazer entre a manhã e a noite. Já que tinha uma casa grande e bem dividida, achou que podia ir percorrer os seus corredores para alcançar a meta. Mas será que ia apenas perder tempo?
Procurou uma alternativa e percebeu que, por exemplo, se o fizesse a ouvir um podcast de algo que lhe interessasse estudar e aprender nem precisava de sair de casa. Nesse momento percebeu também que podemos ter quase a vida que queremos, se fizermos boas escolhas e se nos permitirmos descobrir os bloqueios para que tantas vezes não façamos desse um caminho percorrido.
Tudo radica nas nossas decisões das quais temos, em geral, medo, pois pensamos que decidir é ganhar e perder. A verdade é que estamos enganados porque tomar uma decisão é, isso sim, um passo sobre alcançar e abdicar, não sobre ganhar e perder. Para atingir algo, tenho de abrir voluntariamente mão de outra coisa qualquer.
O ganancioso TUDO não se encontra ao alcance de ninguém. Não perdemos o que quer que seja quando decidimos, pois ninguém nos rouba. Fazemos simplesmente uma opção.
De facto, a vida e a qualidade pela qual vamos optando é, antes de mais, um lugar interior de sabedoria acerca do que fazer com ela. Muitos escolhem apenas cuidar de si de forma autorreferenciada. Só para prevenir envelhecimento; cativar reféns; importar informação sem que esta se deixe transformar sequer em conhecimento útil; exibir ter, algum fazer espampanante e pouco ou nenhum ser ou servir com autenticidade.
Somos, sem dúvida, produto da nossa história, mas não temos de ficar prisioneiros do que ela nos fez e não escolhemos, sobretudo em etapas precoces do nosso existir aqui, na vida humana, o único tempo acerca do qual temos saber e ilustração.
Há muito, apesar de parecer que estamos a falar de lugares comuns, que revela o que pode ser o bem cuidar de si mesmo. Vou colocar por itens o que quero destacar, pois facilita a leitura:
- Mexer-se;
- Dormir;
- Descansar, tal como cada um concebe esta dimensão. O que, para uns ela representa não é o mesmo que representa para outros, dependendo isto de múltiplos fatores, como atividade quotidiana, responsabilidades, compromissos idade, compleição física…;
- Alimentar-se saudavelmente;
- Partilhar sentimentos com amigos;
- Desligar todos os ecrãs, pelo menos uma hora por dia que seja;
- Pedir e/ ou aceitar ajuda;
- Promover momentos que ativem memórias, de preferência partilhados, como ver fotos, vídeos ou ler cartas e cartões recebidos em momentos simbólicos;
- Cuidar da relação que temos com os “3 tempos do tempo”, – passado, presente e futuro, tentando olhar para trás pacificamente e como eternos aprendizes da vida, para este agora com tranquilidade e gratidão e para o amanhã com esperança;
- Aprender uma coisa nova todos os dias. Não importa a dimensão. Até pode ser coser um ovo, mas uma coisa nova todos os dias;
- Não procrastinar o que tem de ser feito. O que não apetece deve ser realizado o mais rapidamente possível para que nos libertemos dessa “sombra do dever não cumprido”;
- Ter um “hobby”;
- Reservar momentos ao ar livre e em contacto com a natureza;- Desenvolver verdadeira empatia…
Podia mencionar mais propostas, mas o que tem relevo é que cada um encontre o seu caminho nisto que é cuidar de si para que a sua melhor versão se disponibilize aos outros. Fazer tudo com equilíbrio, encontrando a consciência da nossa missão em cada etapa deste estar por cá que nos foi proposto no dia em que nascemos para a vida humana.
Alguém disse que o planeta Terra é uma escola no mundo, neste gigantesco universo do qual nos faltam conceitos para conseguirmos imaginar, sequer, a sua dimensão. Aproveitando esta ideia, apetece-me dizer que a maior lição de todas será sempre sermos melhores humanos, autênticos e não dissimulados, atrás de capas de aparente bem agir, já que é nas pequenas coisas que se traduz a nossa verdadeira essência.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt
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