Automação: o futuro que nos bate à porta

| 14 Mar 19

Quem, como eu, tem idade suficiente para isso, ainda se recorda do aparecimento do pequeno spectrum ou dos computadores que enchiam uma sala para fazer meia-dúzia de cálculos. Um desperdício de espaço, mas uma preciosa ajuda. No período de quatro décadas, o salto foi enorme e as transformações societais (implicações na estrutura organizacional e comportamentos) foram de uma dimensão da qual ainda hoje não sabemos exatamente as consequências.

Agora, dizem-nos, a inteligência artificial vai ser uma das áreas com desenvolvimentos significativos nos próximos anos, nomeadamente no que à sua aplicação diz respeito. Acontece que as suas implicações serão transversais a todas as áreas do trabalho, do menos ao mais especializado. Aliás, já está a acontecer em diversas áreas, nomeadamente da medicina e na área do diagnóstico. Estaremos nós, enquanto sociedade e organização, preparados para tão profunda mutação? Dir-me-ão os mais crédulos na adaptação do ser humano às mudanças que isso sempre aconteceu e que a sociedade acaba sempre por encontrar soluções. É verdade, mas importa não esquecer que  o desfasamento entre a velocidade a que se operam as mudanças  e a velocidade a que conseguimos adaptar-nos é hoje bem maior ao ponto de ninguém, nem o mais ousado nas predições do futuro, ousar vaticinar o que será a realidade daqui a duas décadas.

A automação, robotização ou digitalização da economia é uma espécie de vendaval (Ver “Empregos do futuro: automação, trabalhos diferentes e menos acidentes, 7MARGENS, 17 Jan 2019) que se aproxima sem que para isso estejamos devidamente preparados. É verdade que nunca estaremos devidamente preparados quando o desconhecido nos bate à porta, mas agora ainda menos, sobretudo pelas implicações que tais mudanças por certo irão ter no nosso quotidiano. Existe, logo à partida, uma questão de fundo que se prende com a redistribuição da riqueza criada com menos intervenção humana. A necessidade de uma mão-de-obra nómada (tanto pode trabalhar em Lisboa, como Nova Iorque ou Tóquio) com formação superior e altamente qualificada e uma mão-de-obra intermédia, semi-nómada (com oportunidades noutros locais, mas menos atreita à mudança), também ela muito qualificada tecnologicamente, acaba por relegar um enorme contingente de mão-de-obra sedentária para segundo plano correndo-se o risco de uma desvalorização ainda maior de profissões que, apesar de necessárias,  não correspondem ao status instituído de competitividade e de competências requeridas.

Acresce a este facto o aumento do universo que não será absorvido pelo mercado de trabalho, o que coloca vários problemas de organização e de justiça social. Não esquecendo que os “sem emprego” são o que podemos chamar “produtores passivos”, já que tendo necessidades a suprir e enquanto consumidores contribuem, embora de forma passiva, para a produção de riqueza e para que outros tenham emprego. A tudo isto acresce a exigência de uma maior flexibilidade e polivalência, bem como grande capacidade para a resolução de problemas e trabalho em equipa. Por isso a discussão e a reflexão em torno do Rendimento Básico Universal ou Incondicional são tão atuais e importantes, embora não nos moldes em que habitualmente são colocadas.

Podem identificar-se, embora de forma muito sucinta, outras questões que na minha opinião devem merecer reflexão atenta. Uma primeira tem a ver com a redefinição de conceitos como emprego (garante da satisfação das necessidades) e trabalho (realização individual e retribuição/doação à comunidade). Isto implica também uma outra reorganização do emprego e do trabalho, e ainda, como atrás foi dito, novas formas de redistribuição da riqueza, porque tanto uns quanto os outros produzem riqueza. A ideia, protagonizada pela economia de mercado, de que só o emprego produz riqueza é falsa e conduziu, por exemplo, à desvalorização do trabalho das mulheres e mães e, nos dias de hoje, por exemplo, à desvalorização dos cuidadores.

Uma segunda questão radica na forma como se olha para as pequenas atividades por conta própria (o microempreendedorismo), as quais devem ser vistas não do ponto de vista empresarial, mas antes da importância que podem ter tanto para o próprio, como complemento de rendimento, como para a comunidade enquanto necessidade e equilíbrio social. Por outro lado, penso que este tipo de atividades vai ganhar em ser menos individual e mais coletivo, ou seja, pequenas cooperativas ou microempresas que podem ser albergadas por uma estrutura maior que lhes permita maior conforto.

Duas últimas questões me parecem fundamentais e podem marcar definitivamente a mudança. Uma diz respeito à forma como se vão gerir as expectativas das pessoas, nomeadamente a correspondência entre nível de instrução (gestão do saber), ocupação (objetivo das competências adquiridas) e salário (expectativa de futuro). A outra questão prende-se com a gestão do tempo, sobretudo dos “não-empregados”. Não vale a pena continuar-se a alimentar o discurso do pleno emprego, porque ele dificilmente corresponderá à realidade nas próximas décadas. Estas duas questões encerram uma outra: uma maior exigência de flexibilidade, o que não é sinónimo, ou não deveria ser, de precariedade. Se a sociedade como um todo exige flexibilidade, tem o dever moral e a obrigatoriedade de evitar a precariedade.

Estas mutações podem, e numa perspetiva mais otimista, trazer também inovação social. Deixo, para terminar, um exemplo recente de um café que no final do ano abriu na cidade de Tóquio. No café não existe qualquer pessoa, mas apenas robôs que servem e se relacionam com os clientes. Contudo, e aqui reside a inovação, como os robôs necessitam de vigilância à distância, esse trabalho é feito por pessoas com mobilidade reduzida a partir de casa.

O Ensino é, estou convicto, a pedra angular de toda esta mudança e urge, mesmo sem se saber ao certo o que será o futuro, definir os referenciais do que se pretende. As cartas estão lançadas, cabe-nos a nós sabê-las jogar no momento certo.

Tentem ser felizes em seara de gente.

José Centeio é gestor de organizações sociais e membro do Cesis (Centro de Estudos para a Intervenção Social)

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