[Debate 7M: A Igreja e os média–7]

Autonomia, protagonismo e concorrência

| 27 Mai 2022

Na intervenção que foi convidado a fazer na conferência sobre os abusos sexuais de dia 10, o jornalista João Francisco Gomes teceu várias críticas ao modo como a Igreja Católica se relaciona com os média em Portugal. Depois de ter publicado esse texto na íntegra, e também tendo em conta a proximidade do Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja Católica assinala neste domingo, 29 de Maio, o 7MARGENS convidou vários jornalistas que têm acompanhado a informação religiosa com alguma regularidade a escrever um depoimento sobre o tema. A seguir, o contributo de Octávio Carmo, da Agência Ecclesia.

Octávio Carmo agencia ecclesia

Octávio Carmo: “É fundamental que o jornalismo recupere o seu papel de mediação”. Foto: Direitos reservados.

 

Roubo o título desta partilha ao meu querido professor António Matos Ferreira, com quem aprendi a importância de ler a contemporaneidade à luz destas três palavras-chave. Elas representam, em si, um enorme desafio a todas as instituições: a progressiva autonomização dos sujeitos gera novos protagonismos, que entram em concorrência entre si, numa busca incessante pela relevância. Que isto afete o jornalismo parece claro e, mais ainda, quando se fala da relação entre jornalismo e instituições, como é o caso da Igreja Católica.

Começo por sublinhar que há desafios comuns: no mundo das redes sociais, as formas de mediação tradicionais e as instituições sociais, políticas, desportivas ou religiosas são vistas cada vez mais como espaços em que há “algo a esconder”, interesses ocultos, jogos de poder…

Já a “informação” que chega pelo “tio do Whatsapp”, como diriam os nossos irmãos brasileiros, essa sim, é pura e desinteressada. Cada vez mais a “realidade” (sempre parcial) chega sem filtro, sem necessidade de mediadores, numa atitude que é até glorificada como um ato de insubordinação e libertação face às formas mais tradicionais da Comunicação Social.

Esta avalanche de dados, sem qualquer tratamento, muitas vezes carecida de qualquer veracidade, é um grande desafio. Para os jornalistas e para as instituições. Vivemos um tempo difícil, no campo mediático, em que a mera “aparência de verdade” é mais do que suficiente para quem acredita apenas naquilo que quer acreditar – ignorando pura e simplesmente princípios tão básicos como a verificação da informação.

Um exemplo clássico: circula, com algum sucesso, a “notícia” de que o Papa vai eliminar a Bíblia – uma das ‘fake news’ mais ridículas do atual pontificado. Logo Francisco, que já ofereceu aos peregrinos e famílias, na Praça de São Pedro, edições da Bíblia e Evangelhos de bolso…

 

A questão de fundo é sempre antropológica e não técnica, como alguns investidores e editores teimam em apregoar. A comunicação é humana, acima de tudo. É fundamental que o jornalismo recupere o seu papel de mediação em nome do restabelecimento da memória e de um maior conhecimento.

Chego agora às questões que me foram propostas. É evidente que nem sempre a relação entre a hierarquia católica e os jornalistas leva em consideração o papel fundamental que estes profissionais desempenham no atual contexto de desinformação em massa. Isso não invalida que se reconheça uma melhoria na forma de projetar a comunicação, com maior profissionalismo nas estruturas católicas, apesar da sistemática dispersão de recursos e ausência de sinergias significativas. Outro problema fundamental é o do tempo: a urgência mediática esbarra, sistematicamente, no “ritmo eclesial”, que remete para mais tarde o que deveria ser respondido de imediato – levando a que o espaço seja preenchido pelas mesmas vozes, nem sempre as mais capacitadas sobre as questões em causa, mas dispostas a falar a todo o momento e a respeito de tudo.

O discurso mediático padece, muitas vezes, de um a priori pernicioso: pensar, por se ter ido à igreja enquanto criança, que se sabe falar da Igreja. Muitas vezes a partir de preconceitos, ideias ultrapassadas ou superficiais, que estão longe de configurar uma imagem correta da pluralidade tensionada que dá vida às várias comunidades católicas e às suas diversas correntes teológicas.

Do ponto de vista das instituições religiosas, por outro lado, persiste uma desconfiança face aos media e a tentativa de transformar a Comunicação Social num altifalante unidirecional, à imagem dos antigos púlpitos nas igrejas católicas.

Volto ao início: a pluralidade de protagonismos, concorrenciais, e a transformação na forma de viver a experiência espiritual coloca desafios comuns a profissionais da Comunicação e a responsáveis religiosos, face à construção de novos espaços mediáticos e de experiência do sagrado.

“A convicção generalizada é que a promoção de uma cobertura diferente depende de um esforço conjunto por parte dos jornalistas e por parte das denominações religiosas como fontes de informação. Portanto, não há uma única resposta; o problema seria superado com um duplo trabalho, baseado numa maior atenção dos média ao fenómeno e numa maior iniciativa por parte das fontes religiosas” (Márcia Grilo, “A mediatização do facto religioso, entre imediato e transcendente: o caso do Cristianismo na imprensa escrita de referência em Portugal”, in Questões Transversais – Revista de Epistemologias da Comunicação, nº 9, 2017, p. 32).

 

Octávio Carmo é jornalista da Agência Ecclesia e tem acreditação permanente na Sala de Imprensa da Santa Sé.

 

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