Autorretrato

| 3 Mai 2022

Bisavô da Evelina. Foto © Direitos Reservados

Petrea Munteanu no dia dos seus 80 anos: “O meu bisavô é a melhor pessoa que alguma vez conheci.” Foto: Direitos reservados.

 

No verão de 2019 fiz uma viagem pelo sul de Espanha, começando em Sevilha, passando por Málaga e acabando em Marbella. Um must see de Málaga é o Museu Picasso. Lá deparei-me com três autorretratos do pintor organizados por ordem cronológica. O primeiro era uma pintura clássica, detalhada e realista; o segundo tinha alguns traços absurdos e formas geométricas; o terceiro era uma autêntica obra de arte cubista, colorida e difícil de decifrar. A explicação desta evolução é o facto de Picasso ter descoberto a sua identidade enquanto pintor e o estilo em que se revia e expressava nas suas obras. Sinto que esta metáfora das três etapas se pode aplicar a tudo na vida. Não só à percepção que temos de nós próprios, mas à percepção que temos daquilo que nos rodeia. Tudo tem três fases.

Não é bonito dizer que tenho um familiar favorito, mas tal como Picasso fez na sua época áurea, vou quebrar os estereótipos e dizer que o meu bisavô é a melhor pessoa que alguma vez conheci.

Chama-se Petrea Munteanu, simples camponês moldavo, tinha apenas 16 anos quando foi levado pelas autoridades da União Soviética para um campo do Gulag na Sibéria. Ficou lá seis anos e, sem esperança de alguma vez conseguir escapar, acomodou-se. Construiu uma casa, uma família e, sobretudo, um carácter. A sua adolescência acabou mais cedo do que esperava. Então, encontrou uma escapatória: a poesia.

A metáfora de Picasso aplica-se à forma como eu via o meu bisavô quando era criança, pré-adolescente e o valor que lhe dou agora que conheço a sua história. Tenho vincada na minha memória esta divisão.

Ser filha de emigrantes e, sobretudo, fazer parte da primeira geração da minha família que não nasceu na Moldávia teve um grande impacto na forma como me relacionei com a minha família durante a infância. Na minha cabeça, ecoavam conversas dos meus pais sobre os meus avós, tios, primos – mas não percebia nada. Não sabia quem eram, nem os seus nomes: muito menos o meu bisavô, uma pessoa reservada que privilegia a sua independência e privacidade.

Quando tinha 9 anos, fomos convidados para um batizado e acabámos por passar um mês de férias na nossa terra natal. Foi o suficiente para, finalmente, decorar o nome de toda a gente e ficar encantada com a peça do puzzle que faltava na minha vida – o ambiente familiar. Esta não era a minha primeira vez lá, porém foi a vez que mais memórias me deixou.

Numa noite quente, à luz de um candeeiro que se equilibrava num cordão atravessado no quintal da minha tia-avó, o meu bisavô recitou um dos seus poemas. Lembro-me de ser a única a prestar atenção e de não perceber o porquê de os outros não fazerem o mesmo. Apesar de se considerar uma pessoa introvertida, Petrea partilhava recorrentemente os seus poemas. Fiquei maravilhada com a escrita, a musicalidade dos versos: nunca mais fui a mesma. Até hoje não consigo gostar de poesia por saber que nada se aproximará da sinfonia que ouvi naquela noite. Contava a história sobre como perdeu a sua irmã num lago siberiano gelado enquanto eram forçados a transportar troncos com seis metros de comprimento sobre o mesmo. A capacidade de transformar uma tragédia numa obra de arte fascinou-me.

Anos mais tarde, estava no 12º ano e a professora de História mencionou que, nas semanas seguintes, iríamos estudar a União Soviética. Propus-lhe apresentar à turma o testemunho de um sobrevivente do Gulag. Fiquei em êxtase e liguei ao meu bisavô nessa mesma noite, para saber mais sobre o seu passado. Quis voltar a ouvir a sua poesia e perceber como é que o período de tempo que passou na Sibéria o afetou. Falámos durante horas. Tirei notas de todos os detalhes que relatou e quando as reli tinha nas minhas mãos a sua história de vida: o seu autorretrato.

 

Evelina Ungureanu é estudante de Comunicação Social e Jornalismo na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. Contacto: ung.evelina@gmail.com

 

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