
Imagem do debate com Cristina Inogés Sanz. Foto: Direitos reservados.
Além de darem contributos para a segunda parte do Sínodo dos Bispos da Igreja Católica, as dioceses de todo o mundo poderiam ir concretizando, desde já, preocupações que resultaram da primeira fase da auscultação local. A proposta foi lançada pela teóloga espanhola Cristina Inogès Sanz, que, além de ter integrado a comissão metodológica do Sínodo sobre a Sinodalidade, foi nomeada pessoalmente pelo Papa Francisco como membro com direito a voto das duas sessões de Roma.
A teóloga intervinha, já na fase de perguntas e respostas, no encontro-debate intitulado “Caminhos de intervenção para o Sínodo Católico”, organizado pelo 7MARGENS terça-feira passada, 23 de janeiro, que decorreu em teleconferência, com a participação de mais de 130 pessoas de diferentes partes do continente e regiões autónomas e moderado por António Marujo.
No centro do encontro esteve o relatório-síntese da primeira sessão do Sínodo dos Bispos, que decorreu em Roma, de 4 a 29 de outubro último, intitulado Uma Igreja sinodal em missão. Cristina Inogès começou por responder a uma questão sobre alguns aspetos que, do seu ponto de vista, mereciam ser sublinhados.
Relativamente à primeira parte do documento, começou por destacar a teologia que seria importante que viesse a sair do Sínodo, sublinhando os conteúdos dos pontos 4, 5 e 7 (respetivamente sobre “os pobres, protagonistas do caminho da Igreja”; “uma Igreja de «toda a tribo, língua, povo e nação»”; e “rumo à unidade dos cristãos” como os mais desafiantes.
A este propósito, viria, mais adiante, no debate, a chamar a atenção para a carta pastoral Ad theologiam promovendam, que o Papa dirigiu à Academia Pontifícia de Teologia, que exprime o que a teóloga caracterizou como um sonho e um desafio para que a Igreja Católica se dote de uma teologia sinodal. Observou, sobre este importante documento, que nenhuma das faculdades de teologia do seu país (assim como a da Universidade Católica Portuguesa), tinham dado qualquer sinal de reação a esta carta nas respetivas páginas digitais, nem sequer descarregando-a (e traduzindo-a, uma vez que a versão vaticana se encontra apenas em italiano e latim).
Um segundo ponto sublinhado referiu-se aos ministérios. Para a teóloga, muitas das vocações que nascem da missão batismal comum dos fiéis “vão ter de se concretizar em ministérios específicos, que terão necessariamente de ser distintos e concretizados de modo diverso, nas diferentes realidades eclesiais. “Temos de abandonar a ideia de que tudo tem de ser igual”, vincou.
Para a oradora, a questão das mulheres na Igreja pode perfeitamente colocar-se neste plano dos ministérios, e sobretudo dos novos ministérios, dado que a condição de batizado “leva a que não tenhamos que estabelecer distinção entre ser homem ou mulher”.
Quanto aos ministérios de diácono e de presbítero, Cristina Inogès entende que, na Igreja sinodal, não podem ser “ministérios superiores ou uma realidade separada”, mas, antes, “realidade que tem de ser muito circular”. E especificamente quanto ao diaconado, seja ele “de homens ou de mulheres”, é imperioso que esteja “o mais distanciado possível do altar”, e não como agora acontece tantas vezes, que girem em torno da liturgia.
Um outro ponto sublinhado pela teóloga foi o da formação integral, “algo de que necessita todo o povo de Deus”, como observou. Do seu ponto de vista deve ser “uma formação que seja igual para todos, sem distinção, porque tem de haver uma formação muito sólida, sobretudo em doutrina social da Igreja”, que disse ser a “grande desconhecida da maioria dos católicos”, ao contrário da moral sexual, que parece ser “a única coisa relevante”.
Neste capítulo, alertou para o aspeto da formação dos futuros sacerdotes, que deveria ser pensada em função e a partir sobretudo “das nossas realidades e comunidades”, visto que já que nós que os vemos a atuar nas comunidades, detetamos questões que parece que nos seminários não se querem ver”. As dimensões que essa formação deve contemplar são a teológica (para sair da órbita de Trento); a pastoral (“em concordância com os tempos que nos cabe viver); e psico-afetivo-sexual e inteligência emocional.
Tópico de “importância excecional” para a convidada deste jornal é o que diz respeito à “Igreja que escuta e que acompanha” (ponto 16 da terceira parte do relatório-síntese). “Isso é algo – explica ela – que todos temos de aprender, porque só escutando e acompanhando é que tomamos consciência da realidade das pessoas que vivem muita situações que muitas vezes não são evidentes”. “Essa escuta e acompanhamento leva a desmontar preconceitos que temos, a desmontar preconceitos de medos, de questões que tomamos como dados e que realmente não são assim”, diz ainda, para acrescentar: “Era importante recuperar aquilo que vivemos quanto à escuta neste Sínodo e fazermos com que se tornasse uma prática habitual no interior da Igreja.”
No período do debate, Cristina Inogès deixou algumas sugestões que ficam aqui sintetizadas:
– Valorizar (e eventualmente descobrir) a dimensão da “província eclesiástica” [agrupamentos de dioceses, já existentes], criando formas associativas de leigos, religiosos e clérigos, para partilha de experiências e colaboração recíproca;
– A partir da experiência da Conferência Eclesial Panamazónica e tendo presente o sentido das inovações introduzidas pelo Papa no presente Sínodo dos Bispos, caminhar na direção de um Sínodo do Povo de Deus;
– Responder às questões colocadas pela Secretaria Geral do Sínodo sobre o documento-síntese da primeira sessão, mas, ao mesmo tempo, propor que cada grupo sinodal estude caminhos que permitam praticar desde já a sinodalidade, tendo em conta o levantamento de preocupações da primeira fase de auscultação (diocesana);
– No processo sinodal a todos os níveis, mais do que levar as preocupações dos que estão afastados e nas periferias, convidar as próprias pessoas para participar e dar testemunho;
– Na formação de leigos e clérigos, não responder apenas à oferta que possa existir, mas definir propostas de formação a apresentar a entidades como, por exemplo, a Universidade Católica, de modo a assegurar uma formação relevante, consistente e aprofundada.
A gravação audiovisual da sessão com Cristina Inogès (com exceção dos primeiros minutos iniciais, que por lapso técnico não ficaram registados) pode ser vista a seguir:









