Avelino Cardoso: aventuras de um padre entre operários

| 21 Fev 21

O padre Avelino Vieira Cardoso, assistente dos movimentos operários católicos durante décadas, que morreu no passado dia 8 de Fevereiro, concedeu uma longa entrevista a Carina Raquel Gomes Ferreira, aluna da Universidade do Minho, para a tese de dissertação de mestrado, intitulada Os movimentos católicos femininos na Arquidiocese de Braga: a Liga Agrícola Católica Feminina e a Liga Operária Católica Feminina (anos 30 a 70 do século XX).
A entrevista, realizada no dia 3 de Abril de 2017, permite recordar momentos diversos de uma vida exemplar, de acompanhamento da Juventude Operária Católica (JOC), Liga Operária Católica (LOC). Com a autorização da autora, aqui se reproduzem alguns extractos, mantendo a oralidade do registo.

Padre Avelino Cardoso: “Começaram-me a pedir para ir para aqui, para acolá, a minha vida é a Ação Católica…” Foto: Direitos reservados. 

Padre e Ação Católica: “Fazes aqui falta”

Fui professor, no colégio D. Diogo de Sousa de Braga, perto do cemitério grande. […] Comecei lá a minha vida sacerdotal em outubro de 1957. […] E comecei na Ação Católica em 1961, a nível da diocese.

[…] Fui para França e estive lá três anos e meio, a trabalhar com a Ação Católica portuguesa, no meio dos emigrantes portugueses. Aquela leva – agora há uma leva de emigração também –, mas na altura nos anos 60 foi uma loucura, eles iam a monte. Sabe o que era ir a monte? Eles iam a monte por aí fora, os franceses diziam, que os portugueses apareciam lá com passeport de laiton, era assim que diziam, iam a monte, mas como eu era padre, oficializado, deixavam que me dessem um passaporte, mas às pessoas simples não deixavam dar passaporte. As pessoas fugiam, mas depois gostavam que o dinheirinho viesse para cá para Portugal…

Estive no seminário um ano e o bispo depois virou-se para mim: “Podes ficar aí na tua terra de Ronfe”. Isto em setembro, nunca mais me esquece… mandou-me uma cartinha e disse “podes ficar aí na tua terra de Ronfe”, o pároco daqui era monsenhor […] é um título que dão assim a uns certos padres, se calhar o bispo sabe porque que o faz. De maneira que “podes ficar aí com o teu pároco e fazes daí o teu quartel-general da Ação Católica, quer dizer o centro da Ação Católica operária vai ser aí”. E eu fiquei e “já nunca mais deixo a Ação Católica, nunca mais deixo a Ação Católica”. Nunca mais deixei. Depois começaram-me a pedir para ir para aqui, para acolá, a minha vida é a Ação Católica. Tenho 45 anos de assistente da Ação Católica, 61 anos, até 2006. É verdade, muitos anos, muitos anos. Depois, de 2006 para cá, achei que já tinha, já tinha 75 anos, agora 85 e meio, 75 anos e já chega.

Estive em França e tinha alguns jovens daqui da Ação Católica, do Porto, Gaia, Matosinhos, Canelas… Bom ainda há pouco tempo vieram, o responsável de Canelas mais a esposa dele, vieram aqui visitar-me… eram bons militantes, e quando foram para França, em vez de fazerem o que faz a maior parte da emigração, que é ganhar dinheiro, dinheiro, dinheiro, eles ganhavam o seu salário, mas achavam que deviam fazer o que pudessem com os vários militantes que iam de todos os sítios do país. Fizeram grupinhos, que era também para começarem a fazer militância, a ação apostólica, se quisermos dizer assim, naquele mundo do trabalho que era a emigração.

Estive em Inglaterra, também com os emigrantes portugueses […] Estive em Lisboa, onde fui assistente nacional durante quatro anos, três lá em Lisboa e um a fazer o serviço aqui. O bispo: “Padre Avelino, tenha santa paciência, mas tu mais de três anos não estás lá, fazes aqui falta”. Bom, estive aí também e depois estive no Canadá a fazer serviço para ajudar um colega que lá está, que era meu conhecido, passei lá três mezinhos muito bem passadinhos. […] Foi em 1976, mais coisa menos coisa. Bom, e depois fui ao Brasil umas quatro vezes trabalhar um bocadinho na Amazónia, mas isso foi uma espécie de um extra, foi muito bom, muito bom, muito bom.

 

Encontro com Cardijn: “Gostei muito”
Josef-Léon Cardijn, Juventude Operária Católica, AScção Católica, Acção Católica

Josef-Léon Cardijn, o fundador da JOC. Foto © Associação Internacional de Cardijn.

 

Traduzi um livro da JOC, de francês para português em 1982, quando fez 100 anos do nascimento do fundador da JOC, o [cardeal Josef-Léon] Cardijn, que era belga. Falei com ele em Lourdes em 1966. Eu estava em França, fui na peregrinação a Lourdes… De maneira que estava lá o Cardijn e, foi no ano seguinte, em 1967. E depois fomos celebrar missa na capela, na capela subterrânea de Lourdes, uma igreja grande, dava para três mil pessoas, e eu vi-o lá na sacristia, o Cardijn lá, o fundador da JOC, e pedi-lhe um autógrafo… então ele deu-me um autógrafo escrito a letra vermelha, é verdade. E ele escreveu-me aquilo com muita simplicidade. Mas gostei de estar com o Cardijn, muito, muito, muito, muito.

A minha família era toda operária, e em casa ouvia falar de duas coisas, dos teares, aqui na zona têxtil… Ou se falava do trabalho ou da Ação Católica. Éramos cinco irmãos, fiquei eu agora, sou o último, já foram, já partiram todos, de maneira que só se ouvia falar de duas coisas, repito, de trabalho e da Ação Católica. A minha escolinha começou em casa.

 

Maio de 68: “Tenha cuidado, nós somos padres estrangeiros”
Maio 68, Estudantes, Paris

3 de Maio de 1968, em Paris: estudantes enfrentam elementos da polícia de choque francesa. Foto: Direitos reservados.

 

Quando foi aquele célebre acontecimento de maio de 68, era uma coisa muito complicada. Estive três anos e meio em Paris. […] Aquilo foi um vendaval. Foi em maio e junho de 1968. Lembro-me perfeitissimamente que estava lá com um padre da Madeira que ia para lá muitas vezes trabalhar na Ação Católica internacional, o Padre Gonçalves. Estava lá na minha casa.

Estávamos assim a ver na rua a polícia de um lado, carros virados do avesso e não sei que mais a fazer uma barreira, e os estudantes a aperrear – aperrear é uma palavra que o povo diz – a aperrear os polícias. E eu estava com mais o outro padre meu colega no fim do passeio. Estávamos a ver aquilo – dois estrangeiros –, até que, às tantas, a polícia recebeu uma ordem dos superiores para limpar aquilo tudo e começou a dar com o pinguelim, com o bastão em quem estivesse perto deles, de maneira que os estudantes fugiram por um lado e eu, que lá estava, quando vi a coisa malparada, fugi com o outro colega que estava comigo.

Fugi, fugi, fugi, a correr por ali abaixo, e, às tantas, na primeira porta que vi, quer dizer, que vimos aberta, de uma casa qualquer, entrámos e fomos pelas escadas acima. Mas notámos que alguém vinha atrás de nós. Era um polícia de bastão na mão. Fiquei assim um bocado assustado. Olhei para ele e parece que foi o Senhor que me deu esta inspiração de dizer uma palavra: “Faites attention, nous sommes prêtres étrangers”, “Tenha cuidado, nós somos padres estrangeiros”. Ele fugiu por lá fora e safei-me e safei o colega.

 

Aulas de Moral: “Trapalhadas, trapalhadas, trapalhadas”

“Ó Avelino, que é que se passa lá, que o diretor da escola não está assim muito contente contigo?”. Foto: Direitos reservados.

 

Antes do 25 de abril, era um caso sério, seríssimo, e eu que o diga. Fui posto fora da escola. Dei lá aulas de moral três anos, de 1970 a 1973, mas depois quando foi para continuar o bispo chamou-me e disse-me assim: “Ó Avelino, que é que se passa lá, que o diretor da escola não está assim muito contente contigo”. E eu: “Olhe, eu penso que sei porquê”. “Diz que as suas aulas não são iguais às dos outros”. Havia lá mais padres. “Não são iguais às dos outros”, eu dava aulas de manhã e de tarde para os alunos normais e à noite para os trabalhadores, era uma escola industrial.

[…] Eu gostava muito daquelas aulas da noite e eram as aulas da noite que não agradavam ao diretor da escola porque eu fazia revisão de vida com eles. […] A meio das férias o arcipreste de Guimarães, monsenhor Araújo Costa, telefonou-me: “Anda cá que o senhor D. Francisco [Maria da Silva, arcebispo de Braga] quer estar contigo”. Foi quando ele me chamou lá por causa dessa história e eu disse: “Ó D. Francisco, se acha que eu não devo continuar lá a dar aulas, acabou”. “Não, tu vais para lá que eu arranjo-te lá lugar, tu vais para lá. Agora vai para férias que estavas em férias.”

Depois, ao chegar o fim de setembro (as aulas começavam em outubro naquela altura, agora é em setembro, 15, 16, por aí, mas dantes era em outubro), três ou quatro dias antes de acabar setembro fui chamado outra vez ao arcebispo. “Que é que se passa?”, “É o diretor que diz que não precisa de três ou quatro padres para dar aulas, para moral, de maneira que, que…”. “Pronto já sei, quem ele não quer sou eu. Pronto, acabou-se” e deixei a escola, estão a ver como era isto antes do 25 de abril, trapalhadas, trapalhadas, trapalhadas… e é assim a vida.

 

A Ação Católica: “Um céu para lá daqui”

Padres Avelino Cardoso e Manuel Carlos. Foto: Direitos reservados.

 

Mas dantes havia mais gente porque, nos primeiros tempos enfim, a dimensão apostólica dos movimentos, seja a Ação Católica, seja a JOC, seja a LOC, não estava assim, como é que eu hei-de dizer, claramente assumida como sendo um movimento de fronteira, cai mesmo bem, de fronteira, não de igreja, igreja no sentido material, é de Igreja universal, temos os Papas, temos os bispos, mas não de igreja material em que tudo, toda a religião se via dentro da igreja, não, isso, ainda hoje muita gente faz isso, mas, foi o concilio de 1962 a 65… S. João XXIII, de 62, três anos de preparação até 62, depois de 62 até 65, que foi a realização do concílio, e então foi aí nessa altura que o papel dos leigos, eu tenho ali um livrinho que tem uma frase só que parece ser útil, uma frase só.

Ora cá está, este é um dos documentos do concílio, foi aqui numa – onde é que está? – “os leigos entendem-se aqui todos os cristãos que não são membros da sagrada ordem ou do estado religioso”, quer dizer que não são padres, nem freiras nem nada, são as outras pessoas, não é “fiéis incorporados pelo batismo e que participam nas cerimónias sacerdotais”, ora, a frase é esta, vamos ler isto primeiro que é muito importante, foi definido pelo Concílio do Vaticano II, cá está, “por vocação própria, compete aos leigos”, portanto, aqueles que não são padres nem religiosas, “procurar o reino de Deus, tratando das brevidades temporais”.

Um exemplo pequenino, imagine por exemplo, nós aqui o Lausperene, o Lausperene. Sabe o que é não sabe? No fim na procissão, estavam ali seis ou sete pessoas para levar o pálio, até gostam, lá foram na procissão a cantar, lá está, não estão aqui incluídos, não estão não, “procurar o reino de Deus, tratando das brevidades temporais”, que é o trabalho, sei lá… as leis do trabalho, sei lá… como é que hei de dizer, os sindicatos, as associações, sei lá… por exemplo os responsáveis pela associação de pais numa escola. Prioridades temporais do mundo de hoje, mas dentro da Igreja, e ordenando-as, que isso corra bem… no estudo, numa escola, que seja um sindicato de trabalho a sério, que não seja só para juntar dinheiro ou para fazer greves, sim também, também, também fala aqui de greves, mas é noutro, é naquele pequenino azul, no azul, mas está a ver?

Esta pequenina frase foi fundamental para a mudança de mentalidades dos responsáveis, dos militantes da Ação Católica, para saberem que o seu papel principal é no mundo. Deixa ver este livrinho, o pequenino. Está na página 70, com Paulo VI. É assim: “Leigos são quem a sua vocação especifica coloca no meio do mundo e à frente tarefas das mais variadas da ordem temporal”, “a sua primeira tarefa não é o desenvolvimento da atividade eclesial”, isto é, da paróquia, das confrarias, das águas bentas, da catequese, essa não é a primeira missão deles.

“A sua primeira tarefa não é o desenvolvimento da atividade eclesial”, da Igreja, o padre e tal, batismos, casamentos. “Esse é o papel específico dos pastores”, dos padres, “mas sim pôr em prática todas as possibilidades cristãs, evangélicas, escondidas nas presentes operantes das coisas do mundo” e agora aqui uma palavrinha bonita “o campo próprio da sua atividade evangélica, evangelizadora é o mesmo mundo”.

É do mundo que eles vivem e é do mundo que eles têm que testemunhar, porque têm fé, acreditam, enfim, que há um céu para lá daqui, e há uma ressurreição, quer dizer, muita gente diz que não há, e depois diz “o campo próprio da sua atividade, uma longa e vasta completa politica”, não fala aqui de procissões, “realidade social, incluía cultura, ciências, artes, vida internacional”, etc., por aí fora, por aí fora, portanto o apostolado dos sindicatos, da Ação Católica é para ser essencialmente fora da igreja, fora da igreja templo, não é fora da Igreja.

 

“Estar no mundo e transformá-lo”

Padre Avelino Cardoso: “Fermento é aquilo que se põe na massa que não se vê, mas está lá, e são aquelas pessoas qua atuam como fermento.” Foto: Direitos reservados.

 

De maneira que, está a ver, foi talvez nessa altura, como antes, com o Salazar, nessa altura não deixavam ter sindicatos livres, não havia sindicatos livres, não sei se sabia disso, livres não havia, e pronto. Greves? Só faltava mais essa. Iam presos. Quem fosse apanhado em greve ia preso. O 25 de abril contou muito para mudar a mentalidade, veio a liberdade, vieram os sindicatos livres, aquela coisa toda, portanto, aqueles grupos enormes que você dizia há bocadinho, que havia aqui, da JOC e da LOC, começaram a ficar.

Quando aqui se diz que os leigos deviam estar mais no mundo, ir à igreja, sim; ir à missa, sim; confessar-se, sim; ir à comunhão, sim; fazer procissões, sim; mas o papel principal é estar no mundo e transformá-lo. Há uma palavra muito bonita que é esta, como fermento era e é uma palavra muito bonita, fermento é aquilo que se põe na massa que não se vê, mas está lá, e são aquelas pessoas qua atuam como fermento. Isto é, um bocado sem se dar muito por ela.

Que é que a Ação Católica faz? Fazem na fábrica, fazem na oficina, fazem na escola, e acabou-se, fazem onde vivem, fazem no meio, fazem na família também, e tudo mais. Portanto, é o mundo o principal campo de ação dos membros da Ação Católica. Quando muitas pessoas se davam muito à religião ouviam dizer que o papel principal devia ser realizado fora da igreja, edifício, mas no mundo, começavam a ter medo de se meterem nesses barulhos todos.

É por isso que a Ação Católica trabalha mesmo no limite, no limite, e daí às vezes não ser muito fácil descobrir bem aquilo que se deve fazer, porque enfim, é o mundo. E o mundo é muito, muito imprevisível também, os acontecimentos são imprevisíveis, e a Ação Católica é chamada a atuar aí.

De vez em quando, repito, não digo que organize greves, não organiza greves, mas os seus agregados podem e devem estar nas greves justas, podem e devem estar, não é a mesma coisa organizá-las. Não, não compete à Ação Católica fazer greves, mas são capazes, sei lá, de, numa greve qualquer, vir uma nota, sei lá, se aqueles que fazem greve têm consciência que é justa, os cristãos da Ação Católica devem estar nessas greves também, tudo o que é justo, tudo o que é sério, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é correto, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo isso tem lugar na Ação Católica.

De maneira que então aí saiu muita gente da Ação Católica, nessa altura, porque para levar pessoas à comunhão, à confissão ou a casar na igreja, isso, ou até à catequese ou para as associações, para as confrarias, não falta gente, até para ajudar à missa, para fazer as leituras da missa. Para tudo isso não falta gente. Mas quando é para sair para o mundo é muito mais complicado.

Quando foi por causa da questão das 40 horas de trabalho, aquela luta que houve aqui há alguns anos para que se conseguisse as 40 horas semanais, eu lembro-me que fui mais, mais o marido da Quina, o Américo e mais outra pessoa, fomos a Lisboa. A Lisboa, não me esquece, fomos quatro pessoas falar com o Ministério do Trabalho por causa da questão das 40 horas. Fomos lá para o décimo primeiro andar ou coisa parecida e lá veio um secretario qualquer perguntar por que estávamos ali e eu julguei-me na obrigação de lhe explicar porque é que eu lá estava, eu, padre. Poderiam achar que eu estaria a mais, e eu disse: “Olhe, desculpe lá, se calhar não contava que estivesse aqui um padre no meio de jovens leigos trabalhadores, mas eu penso que a Igreja quando se trata de coisas justas tem de estar presente […]”.

Naquela altura havia 44 [horas de trabalho]. O Cavaco [Silva, primeiro-ministro] tinha dito que, de ano a ano, ia tirando uma [hora] para passar para as 40, mas nunca passou, espertalhão ou enganador. Bom, adiante “de maneira que estou aqui porque conscientemente penso que é justo – e mais do que justo – os trabalhadores também terem direito aquilo que outras classes do país já têm”.

[…] Naquela altura [antes do 25 de Abril], o movimento começou a descer em termos de número, não temos assim demasiadas pessoas no país. Se fosse para levar as pessoas à igreja não custava nada, mas, enfim, para fazer guerra e estar na luta com cartazes e não sei que mais, há pessoas que têm medo.

 

As qualidades dos cristãos

Postal alusivo ao 25 de Abril

25 de Abril. Ilustração de Daniela Gonçalves, aluna do Colégio Luso-Internacional de Braga, distribuído a beneficiários de apoio de refeições que um grupo de voluntários organizou em 2020.

 

O 25 de abril também contou muito, o Concílio deu as linhas certas, deixa ver esse livro [sobre os 100 anos da encíclica Rerum Novarum, acerca da questão operária].

[…] Olha que coisa linda: “faz parte da missão da Igreja contribuir para que a sociedade se organize e viva segundo o evangelho”. Não fala aqui de missas, nem de comunhões, a sociedade.

“Cinco qualidades que os cristãos de hoje devem ter”, cinco “precisamos”. Isto são os bispos que escrevem: “precisamos de católicos de fé esclarecida”.

Primeira coisa: fé. Segunda: “bons conhecedores das realidades portuguesas no contexto da atualidade internacional”, portanto conhecedores da vida. Há pessoas que dizem: “Ah, eu já não vejo televisão, não me apetece ver televisão”. Mas é obrigada a ver. Os cristãos têm de saber o que se passa para rogar a Deus pelo bem, para pedir a Deus, se calhar, desculpa e a conversão dos que fazem mal, eu sei lá… […]

Mas cá está, primeiro, fé, segundo, conhecedores da vida, “conhecedores das realidades portuguesas no contexto da atualidade internacional”. Não é só o nosso canto, não é só a nossa paróquia, sou eu, é a nossa casa, é a nossa freguesia, é o nosso concelho, é a nossa diocese, é o nosso distrito, é o nosso país, é o nosso mundo todo.

Terceira qualidade: “Que sejam profetas”, que são aqueles que falam em nome de Deus. Profeta é aquele que fala em nome de Deus. É o “das denúncias”, denunciar é dizer o que está mal. Denúncia, terceira coisa. Os bispos vêm dizer que os cristãos têm de denunciar aquilo que está mal. […] Os profetas do Antigo Testamento apanharam porrada que se fartou. E os apóstolos não eram todos mártires? Os apóstolos morreram todos mártires. Porquê? Porque lutaram. E ainda hoje no Brasil (eu estive lá quatro vezes, no Brasil, nas minhas férias grandes e soube disso), há muitíssima gente, muitíssimos militantes cristãos que são mortos por defenderem os direitos dos trabalhadores. Quem é que às vezes os matava? Às vezes, eram os grandes ricos que davam dinheiro para os matarem. Mas os bispos do Brasil também defendem muito essa gente, defendem muito esses católicos.

Portanto, denunciar é a quarta coisa. Fé, conhecimento das realidades, denúncia dos males. As pessoas numa fábrica, por exemplo, com os salários em atraso, e o patrão tem uma casa onde gastou, sei lá, um milhão de contos [cinco milhões de euros], de onde é que veio o dinheiro?

E agora a quinta coisa: “Que saiam do seu comodismo”. Isto é, que não vivam só na sua capelinha, nem só na igrejinha de mãos postas. Estou a falar a sério. […] Agir no meio não é só dizer o que está mal ou o que está bem, denunciar o mal e depois anunciar o que está bem, mas fazendo coisas, tendo iniciativas de intervenção ou de ação social da Igreja, “iniciativas ou ação individuais ou em grupo”

[…] Vês as condições: fé, conhecimento das realidades, denunciar o mal, anunciar o bem, tomar iniciativas, agir. E depois são de particular importância as associações profissionais católicas e os movimentos de Ação Católica, cuja promoção os bispos vivamente recomendam.

(O 7MARGENS agradece a Fátima Almeida e José Maria Costa a cedência das fotos.)

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