Aventuras do padre-druida na aldeia de Astérix na Madeira

| 29 Nov 19

Estamos no ano de 1977 depois de Cristo. Toda a Madeira parece uma ilha monocolor. Toda? Não. Uma paróquia na ponta leste, povoada por um padre e uma população irredutíveis, resiste ainda e sempre ao monolitismo. O pequeno enclave insiste em fazer a vida melhor para o seu próprio povo, liderado por um padre que se colocou ao lado das pessoas. E fortalecendo o povo, que se coloca ao lado do padre.

 

Padre Martins Júnior com a população da Ribeira Seca, em Fevereiro de 1985 (Machico, Madeira). Foto de arquivo; (capa: Foto © Isabel Duarte)

 

Aquele padre era o druida da poção mágica na aldeia do Astérix, diz Benvinda Ladeira Franco, professora em Machico, para onde veio há 27 anos. Natural do Funchal, Benvinda recorda como, na adolescência, ouviu falar de Martins Júnior: na Ribeira Seca, o pároco tinha sido suspenso pelo bispo, mas continuava a resistir na paróquia, apoiado numa população que não o deixava sair.

“Eu era adolescente, tinha 14 anos quando se deu a Revolução [de 25 de Abril de 1974] e lembro-me de ouvir falar da Ribeira Seca como um lugar estranho, mítico quase, tal como mítico era o padre Martins” conta ao 7MARGENS. “E isso surgiu paralelamente com as leituras do Astérix, que eu depois transportava para aqui: o padre Martins Júnior era o druida que tinha dado às pessoas uma poção mágica; e elas faziam disto um lugar muito diferente nesta ilha toda laranja, este era um lugar incrível…”

Assim era, mesmo para quem estaria mais longe: noites eleitorais acompanhadas pela televisão significavam, quando aparecia a Madeira, uma ilha pintada da mesma cor; dentro dela, uma outra ilha de resistência ao unanimismo. Aparecia um padre ligado inicialmente a um partido de extrema-esquerda, barba comprida a confirmar o estereótipo. Tinha sido suspenso pelo bispo e depois candidato a presidente da Câmara, vencendo nas duas vezes em que se candidatou (1989 e 1993, além de ter sido eleito à Assembleia Regional por sete vezes, entre 1976 e 2008). Na Ribeira Seca, recebia artistas e pessoas da esquerda idos do continente e continuava a celebrar a missa para o povo e a casar, baptizar ou fazer funerais.

O padre Martins com Sérgio Godinho na Ribeira Seca, em 1978. Foto de arquivo

 

Tudo, à primeira, parecia estranho. Mas a aparência não dizia tudo. Naquela ilha resistente não podia ser tudo comunista. Olhando mais de perto, aprofundando o que se passava, começava a entender-se: o que ali acontecia era diferente. Sublinhava-se o sentido de comunidade e do Evangelho, o cuidado com os outros (sobretudo os que menos posses tinham), a misericórdia e transformação…

Quando chegou a Machico para dar aulas, há 27 anos, Benvinda tinha já uma “vontade enorme” de se aproximar do padre Martins Júnior. “O meu irmão tinha estado na guerra colonial e conhecia o padre Martins. Mostrou-me a pagela do dia da ordenação, que tinha uma cruz virada ao contrário; e isso era especial…”, recorda.

 

O camponês que pagava para trabalhar

Foi o regresso de Moçambique e a situação que encontrou na Ribeira Seca, para onde foi nomeado pároco em 1969, que esteve na origem remota da futura suspensão a divinis de José Martins Júnior: “Vim para uma segunda África”, diz o padre Martins ao 7MARGENS. Encontrou na paróquia, ainda antes da democracia, uma situação de “carência total do que era essencial: assistência médica, água, estradas…”

Pôs-se ao lado das pessoas, incluindo na contestação ao regime de colonia, um contrato de servidão em que “quase se pode dizer que o camponês pagava para trabalhar: o terreno era de um senhorio de classe média ou alta, que vivia em Machico, no Funchal ou Lisboa. O camponês tinha de lavrar a terra, fazer muros, pagar a água, pagar adubos e dividir metade do produto com o senhorio”, recorda.

“Se não fosse o 25 de Abril, o regime de colonia não acabaria”, diz agora. “As pessoas nem sequer podiam acrescentar um quartinho para acomodar os filhos. Pai, mãe, filhos, batatas, estava tudo no mesmo sítio. Lembro-me que fui várias vezes falar com um senhor da Confraria do Santíssimo Sacramento, para ele deixar um casal aumentar a sua casota, ao menos com um quartinho para separar os filhos. Nunca deixou, nunca…”

Ana Paula Franco, natural de Machico, lecciona Português na Escola Secundária da cidade e também confessa que teve sempre “grande admiração” pelo padre Martins. “Como professora, a Ribeira Seca foi sempre um exemplo. Faço várias referências aos meus alunos quando falo do padre António Vieira e apelo a esse conhecimento quase real que eles têm no dia-a-dia deles, de uma pessoa que lutou para que os alunos pudessem estudar e dar as suas opiniões.”

Painel na parede do adro da igreja paroquial da Ribeira Seca (Machico, Madeira). Foto © António Marujo

 

“Vieram uns rapazes da UDP…”

Entre outras, essas situações acabariam por influenciar a sua entrada na política. “Vieram uns rapazes da UDP [União Democrática Popular] dar apoio a esta causa [de contestação à colonia], à causa das bordadeiras, aos produtores da cana de açúcar que a entregavam por tuta e meia, e aos pescadores. Eles davam-nos apoio, mais ninguém vinha ajudar-nos.” E a dado momento perguntaram-lhe: “Porque é que não vem para deputado?” Martins Júnior começou “a pensar naquilo” e decidiu: “Era a única forma de não me cortarem a voz. Tinha uma tribuna na Assembleia Regional e fora dela sem ninguém me impedir…”

Foi isto em 1976. Mas o bispo de então, Francisco Santana, já lhe dissera , ainda em 1974, que o queria fora da paróquia, acusando-o de ser membro do Partido Comunista. “Pediu-me as chaves da igreja e eu disse-lhe que ela estava sempre aberta dia e noite e que quem tinha as chaves era a comissão.” O padre perguntou ao bispo a razão da decisão: “Porque estás inscrito no PCP”, foi a resposta.

A estupefacção do momento mantém-se ainda hoje: “Nunca estive inscrito em nenhum partido e disse-lhe que estava equivocado; respondeu que até sabia o meu número e eu disse que ele sabia mais que o Álvaro Cunhal…”

“Nós, padres, fomos educados estupidamente sobre política”, diz agora. E recorda a ironia: “No seminário onde fui prefeito e professor publicou-se um jornal policopiado com o título Avante, com a primeira e última páginas impressas em tipografia e letras a vermelho. Quem deu a ideia do Avante foi o próprio reitor do seminário, que já morreu; levei-lhe uma série de nomes e ele disse: ‘Martins, gosto muito desse nome, Avante’.” E nele colaboraram futuros bispos, como Teodoro de Faria e David de Sousa.

O conflito agrava-se com outros episódios que acabam com a suspensão, em 27 de Julho de 1977, teoricamente interditando que o padre Martins celebrasse a eucaristia e administrasse os sacramentos. Duraria 42 anos, até Junho deste ano, quando o bispo Nuno Brás lhe pôs fim, assinando um documento de reconciliação conjunto com o padre Martins.

Em Maio e Junho, nas conversas que teve, o pároco suspenso da Ribeira Seca “disse ao bispo que preferia ser julgado”: vários especialistas em Direito Canónico disseram-lhe que a suspensão não era formalmente válida. “Não houve processo, não fui chamado a depor nem coisa nenhuma. Nem nada teve a ver com a política, mas foi veiculada essa ideia.”

Por isso, o fim da suspensão “significou muito pouco”, começa por avaliar. Mas admite: “Significou a pacificação da sociedade, a verdade formal. Um homem condenou-me sem processo nenhum. Outro homem ‘salvou-me’; qual é a verdade que existe em tudo isto? O que significa? Só Deus e a nossa consciência é que nos salvam, mais ninguém. E quanto mais longe desta hierarquia, mais perto de Jesus eu me sentia.”

Depois dos testemunhos, a consagração eucarística, a oração do Pai-Nosso e a comunhão, na festa dos 81 anos do padre Martins, no dia 16 de Novembro. Foto © Elmino Mendonça

 
“Ninguém apagará a sua memória”

A 16 de Novembro, a pretexto dos 81 anos do padre Martins, a paróquia da Ribeira Seca organizou uma festa. Centenas de pessoas a cantar e conviver no adro da igreja, iluminado como num Natal já antecipado. Num palco montado no adro, actuaram vários grupos locais e do resto da Madeira. Uma das bandas dedicou a Martins Júnior uma canção: “Não há machado que corte a raiz ao pensamento…”

O pároco, agora em plenitude de funções, admite que havia ausentes: “Há pessoas que não concordaram com esta decisão, ficaram revoltadas comigo. Acham que eu não devia ter ‘traído o povo’ e ter-me entregue a esta Igreja, mas eu não tinha outro caminho.” E compara: “Por uma família ter quatro irmãos, se três são ruins, um só me fez bem e eu vou brigar com ele?” Não se pode “estar em guerra toda a vida, a vida não é só guerra”, acrescenta o padre Martins.

Retirando a “moral desta história toda”, confessa: “O que interessa é redescobrir o evangelho. Estou nisto só para tentar clarificar o evangelho e dar uma nova configuração essencial, autêntica, ao cristianismo, à adesão ao Cristo. Se fosse só por formalismos, não valeria a pena. Enquanto me restar um sopro de vida, quero transmitir às pessoas o que me parece que está identificado com o evangelho e a verdade do ser humano.”

A festa dos 81 anos foi, essencialmente, uma “homenagem a todos os que nunca voltaram as costas à Ribeira Seca”, justificava Martins Júnior. Lá estavam vários padres do continente: Jardim Moreira, da Rede Europeia Anti-Pobreza, Anselmo Borges, professor de Filosofia, Manuel Armando Marques, de Aveiro; e também a historiadora Raquel Varela e várias pessoas de Machico e da Madeira, incluindo também os padres José Luís Rodrigues e Mário Tavares, que chegou a ser deputado à Assembleia Regional, pela CDU/Partido Comunista.

Depois de uma série de testemunhos dos convidados, o padre Martins Júnior passou à consagração do pão e do vinho, para dar o toque eucarístico ao momento. No momento da comunhão, foi para o órgão tocar o cântico em conjunto com os jovens músicos – muitos dos quais ensinados por ele. Nas paredes, lia-se num dos vários cartazes: “A Igreja é do Povo/ O Povo é de Deus/ Queremos a Igreja/ Sempre ao nosso lado/ Como Deus viveu/ Com o povo explorado.”

O advogado de várias causas, João Loff Barreto, esteve também presente e contou um dos episódios que viveu em tribunal: o padre Martins escrevia intensamente e o advogado pensava que ele tomava notas de tudo o que se passava; mas de vez em quando saía um gesto de mão no ar e Loff Barreto achava estranho. No final, percebeu: enquanto decorriam alegações, Martins Júnior estava completamente absorto a compor um dos muitos cantos para ser cantado na missa. Aliás, vários dos seus poemas aparecem, a par de reflexões sobre o quotidiano ou sobre a Igreja, sobre questões culturais ou sociais, no blogue Senso e Consenso.

Benvinda Ladeira diz que ainda há pouco tempo perguntou ao pároco o que o manteve sempre na Ribeira Seca, sem nunca desistir, apesar de “ostracizado e maltratado”. Ele respondeu: “Tantas vezes me apeteceu ir embora, mas eu tinha um compromisso com este povo…” E Benvinda acrescenta: “Por mais que a Madeira o queira apagar, há-de haver sempre alguém que lembre este homem.”

Festa dos 81 anos de José Martins Júnior. na Ribeira Seca, dia 16 de Novembro: um bolo, os parabéns a você e uma canção dedicada ao padre Martins: “Não há machado que corte…” Foto © Elmino Mendonça

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