Espiritanos na América Latina

Aventuras missionárias no Paraguai e na Bolívia

| 8 Mai 2022

Os Missionários Espiritanos chegaram ao Paraguai há 50 anos. Instalaram-se na Diocese de S. Pedro, a mais de 200 quilómetros da capital, lá onde quase só se fala guarani e o povo é pobre. Chegaria à Bolívia, outro país sem mar, 30 anos depois. Instalaram-se numa paróquia da periferia de Santa Cruz de la Sierra. Anos mais tarde, foram nascendo outras frentes missionárias, quer no Paraguai, quer na Bolívia. Visitei estes dois países por ocasião da Páscoa, acompanhando os missionários nas suas visitas às comunidades e participando nas assembleias dos dois grupos.

 

Buena Vista: um mural evocativo das populações indígenas. Foto © Tony Neves

San Juan Bautista, Bolívia

As comunidades estão em áreas habitadas onde não há asfalto nem saneamento básico. A maioria do povo vive do trabalho precário do campo e cerca de 50% são indígenas. As gerações mais velhas são, regra geral, analfabetas.

Os rendimentos das famílias, muito numerosas, provêm quase todos das vendas nos mercados efetuadas pelas mulheres que saem cedo para o trabalho e deixam as crianças mais pequenas confiadas aos irmãos mais velhos. Os jovens têm pouco acesso à escola e ao mercado de trabalho. Esta é uma área marcada por muita violência e álcool, abrindo as portas a toda a espécie de abusos.

Dentro da área da paróquia está a maior prisão da Bolívia, uma autêntica cidade, a lançar enormes desafios pastorais no âmbito da pastoral carcerária.

 

Buena Vista, antiga “Redução” Jesuíta

Em 2014, a Arquidiocese lançou um novo desafio aos Espiritanos: Buenavista, uma antiga missão dos jesuítas, situada a 126 quilómetros de Santa Cruz. O padre Márcio Asseiro é o pároco, acumulando hoje com a missão de superior do grupo espiritano da Bolívia. A sua origem é antiga, vindo do tempo das “Reduções” jesuítas da América do Sul, retratadas pelo filme A Missão.

Eram enormes espaços que os povos indígenas sabiam ser seus e que, além da Igreja, tinha escolas, oficinas de artes e ofícios vários, centros de saúde e, claro, campos agrícolas. Ali se formavam cristãos numa educação humana integral, ajudando a libertar os povos indígenas das cadeias coloniais que os oprimiam.

Os jesuítas deixaram Buenavista há muito tempo. Com o andar dos anos, pouco sobrou deste esforço de evangelização integral. A Igreja é grande e está em bom estado de conservação, mas os Espiritanos já tiveram de recuperar a residência que estava em ruínas e estão em curso obras para espaços que permitam actividades pastorais e culturais diversificadas.

 

Páscoa boliviana

 

Grupo de adolescentes em Huaytu: celebrações de Páscoa muito participadas. Foto © Tony Neves

Grupo de adolescentes em Huaytu: celebrações de Páscoa muito participadas. Foto © Tony Neves

 

Viajei de Santa Cruz para Buenavista em Quarta-Feira Santa, acompanhado por chuvas torrenciais e trovoadas fortes. Esta Missão jesuítica tem uma longa história que começou em 1694, ano da fundação, sendo uma das mais antigas. Foi mudando de estruturas e lugares e fixou-se definitivamente neste local em 1723. A Missão tem cerca de 30 comunidades, estando a mais distante situada a 47 quilómetros. Só lá se pode ir fora da estação das chuvas, pois é preciso atravessar o rio de carro…

A Quinta-Feira Santa começou com a deslocação à comunidade de San Lorenzo de las Flores para a missa. À tarde, percorremos 13 quilómetros de terra batida e esburacada pelas chuvas para mais uma Missa da Ceia do Senhor. Fomos até Huaytu, à comunidade de Santo Isidro, onde houve lava-pés e bênção do pão. Na Igreja da Missão, houve a celebração da Ceia do Senhor, com o lava-pés.

A Sexta-Feira Santa tem, nas antigas Missões dos Jesuítas, ritos muito tradicionais. À noite, na Via-Sacra, o povo percorreu as ruas, com a Cruz à frente e as autoridades a levarem uma enorme bandeira da cidade que foi posta a ondular no fim de cada estação, após meditação e cânticos tradicionais. Atrás do numeroso povo, segue um pesado sarcófago com o corpo do Cristo morto, carregado por uma dúzia de homens fortes.

Na tarde de Sábado Santo, partimos para a comunidade de Huaytu, onde vivi a primeira das duas vigílias pascais num contexto rural e pobre, mas muito animado. No Domingo de Páscoa, a Igreja, apesar da Vigília ter tido casa cheia, também rebentou pelas costuras para uma Missa muito animada, bem ao ritmo pascal.

Páscoa é Páscoa e, por isso, o almoço e a tarde foram passados com diversas famílias em confraternização, onde não faltaram as tradicionais empanadas, o cunhapé (pão de queijo), o chipilo (banana frita), a yuca frita (mandioca) e o pan de arroz.

 

De Santa Cruz a Assunção

 

Padre José Costa no mercado de San Lorenzo: há muita pobreza escondida na periferia da capital paraguaia. Foto © Tony Neves.

Padre José Costa no mercado de San Lorenzo: há muita pobreza escondida na periferia da capital paraguaia. Foto © Tony Neves.

 

Cheguei a Asunción e fui acolhido na Casa do Noviciado de toda a América Latina, no periférico Bairro Reducto, em San Lorenzo. O país é pobre, mas muito orgulhoso da sua cultura guarani, cuja língua é oficial e falada por toda a população do país.

Tive a oportunidade de acompanhar o padre José Costa, português de Lordelo (Paredes), pároco de Virgen del Rosario, a algumas das comunidades que compõem a sua vasta e exigente paróquia de periferia. Visitei o Centro Pastoral, um projecto da organização não-governamental portuguesa Sol Sem Fronteiras (ligada aos Espiritanos), onde estava a decorrer um encontro de famílias.

Também ali aconteceu algo de original: alguns cabeleireiros da região aceitaram oferecer uma tarde de voluntariado, cortando o cabelo a algumas dezenas de crianças de famílias pobres. Há cursos de costura e consultas médicas. Assisti ao lançamento de um grupo de Alcoólicos Anónimos, que visa combater uma das maiores pragas do país, o consumo exagerado de álcool.

Pude, igualmente, acompanhar o padre José Costa na visita a uma família para acertar a ida de um jovem dependente de droga para um centro de recuperação criado e liderado pelos franciscanos. Deu para entender que fora do asfalto há muita pobreza escondida debaixo das árvores que tomam conta da paisagem desta periferia da capital.

 

Tradições paraguaias

 

Casamentos coletivos na catedral de Assunção, do Paraguai: a missão espiritana vive “um tempo entusiasmante”. Foto © Tony Neves.

Casamentos coletivos na catedral de Assunção, do Paraguai: a missão espiritana vive “um tempo entusiasmante”. Foto © Tony Neves.

 

As visitas às famílias e às comunidades mostram um rosto muito querido deste povo que fala guarani: faz parte do bom acolhimento a oferta de comida e bebidas tradicionais. Se, em família, é comum beber de manhã o mate (chá quente, feito com ervas aromáticas) e o téréré à tarde (chá gelado), há muitas outras comidas e bebidas típicas que se oferecem a quem visita ou se reúne.

Mas há que dar atenção aos nomes: o cozido é uma bebida doce; a tchipa é uma espécie de pão de queijo; a sopa paraguaia também é uma comida sólida; as empanadas são uma espécie de croquetes que podem ter carne, peixe, queijo… Como é um povo que gosta de se reunir e festejar, são típicos os churrascos e as comilonas, ou seja, a organização de refeições para congregar as pessoas ou para vender a comida para levar.

 

Compromissos Espiritanos

Momento forte foi a assembleia anual do Grupo Espiritano, em Assunção. Foram três dias intensos de formação, partilha e confraternização. São 12, originários do Paraguai, Portugal, Nigéria, Serra Leoa, Cabo Verde, Angola, México e República Democrática do Congo. O mais antigo ali é o padre Victor Oliveira, de Ribeira de Pena, chegado ao mundo guarani há mais de 40 anos.

Estão em cinco comunidades, seja nas periferias da capital, seja no interior do país, lá onde a pobreza é mais dura e onde trabalhar pela defesa dos direitos humanos é exigência quotidiana.

O bispo de S. Pedro, dom Pedro Jubinville, espiritano canadiano, numa intervenção na assembleia, disse que os missionários no Paraguai vivem num tempo entusiasmante se se deixarem provocar, mobilizar e comprometer.

 

Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como assistente geral dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), de cuja congregação é membro.

 

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