“Avó, a rua do teu ateliê é bonita”

| 28 Jun 19

Trinta placas pintadas na Rua da Páscoa. Foto © Ana Cordovil

 

A rua é a Rua da Páscoa, na freguesia de Campo de Ourique, em Lisboa, onde “mora” há 25 anos o meu ateliê de Pintura de Azulejos e Artes Plásticas e que levou a este comentário da minha neta mais velha num dos passeios a caminho do ateliê.

Eu queria dinamizar parcerias de vizinhança na Rua da Páscoa e procurava uma ideia positiva para unir os moradores da rua, ajudando a criar laços de atenção e solidariedade.

O comentário inesperado da minha neta de quatro anos foi o mote!

A Rua da Páscoa é uma rua em Lisboa onde ainda se vive a proximidade da vida nas aldeias.

É natural darmos os “bons dias” a quem passa, mesmo sem sabermos os nomes das pessoas em causa. Talvez 30% dos moradores tenha mais de 65 anos e muitas memórias da vida no bairro. Quase todos têm poucos recursos económicos, mas não há pobreza clara. Nos últimos dez anos as casas têm sido melhoradas e vêm sendo ocupadas por gente mais nova ou destinadas a alugueres de curta duração. Agora tornou-se habitual cruzarmo-nos com estrangeiros que vêm morar por poucos dias na nossa rua. São bem o espelho de uma realidade em mudança acelerada na nossa cidade!

Muitos dos conflitos de vizinhança que se vivem são em tudo iguais aos que conhecemos noutros bairros da cidade e que se centram sobretudo na organização dos lixos e no estacionamento dos carros que tapam o acesso às portas. Na nossa rua não temos bares que façam barulho fora de horas. Temos um restaurante, lugar de encontro e acolhimento a quem precisa, uma loja de artigos de fotografia e uma escola particular, o Colégio Alegria, de ensino integrado, para crianças até ao 4º ano de escolaridade.

A rua tem 49 portas que dão acesso aos mais diversos tipos de habitações caraterísticas da Lisboa antiga. Portas que dão para pátios com diversas casas, portas com janelas que se abrem para a conversa e janelas junto à calçada que iluminam quem mora nas caves.

Foto © Ana Cordovil

 

Agarrar uma ideia positiva em diálogo com o Belo

Partir do Belo na rua e como…?

A partir das recordações do Belo na Rua da Páscoa que cada um guarda consigo e aproveitando o tema da intervenção artística do pintor Mike Biberstein no teto da Igreja de Santa Isabel – que fica a cinco minutos da Rua da Páscoa – entrevistei 31 vizinhos sobre as suas recordações do Belo nesta rua. Nas entrevistas, perguntava também se gostariam de participar numa exposição coletiva de todos os vizinhos. Cada um pintaria uma parcela de céu numa placa de madeira e depois esta seria colocada durante um mês junto ao número da sua porta.

Foram dez meses inesquecíveis de entrevistas que foram ganhando em mim uma carga de responsabilidade e de gratidão.

Havia que respeitar tempos de sedução e dúvidas, não esquecer os mais “sós”, as diferentes gerações e acolher as críticas como importantes sugestões.

Não foi fácil!

Também não foi fácil conseguir a autorização dos proprietários, obter no bairro os materiais (tinta e placas de madeira), acertar o envolvimento da Junta de Freguesia, mas tudo se conseguiu.

Este tipo de projetos questiona-nos sobretudo quando envolvemos outros e nos tornamos responsáveis por eles.

Mas conseguimos!

Parte da pintura das placas foi realizada por um grupo de alunos do Colégio Alegria, mas a maioria foi pintada numa sessão ao ar livre em que participou um grupo muito animado de moradores.

A exposição decorreu entre 8 de junho e 9 de julho de 2018. Um mês de exposição era o que tinha sido acordado com proprietários e Junta de Freguesia.

Estiveram expostas 37 placas, sendo que os alunos do Colégio Alegria pintaram 11. Estas foram colocadas nas portas de casas dos moradores que aderiram à exposição, mas que por algum motivo não as puderam pintar.

Foto © Ana Cordovil

 

A exposição foi uma grande alegria para os moradores que, apesar de não terem muito à vontade na sua apresentação e divulgação, ficaram muito orgulhosos com a inauguração e constantes visitas de olhares curiosos, mas amigos, que se prolongaram durante o mês em que as portas da rua estiveram assim enfeitadas.

Ao retiramos as placas pintadas – tinha sido essa a combinação feita com os proprietários –, a maior parte dos moradores ficou um bocado triste. Uma das senhoras que é moradora e dona de uma casa com duas portas decidiu deixar as duas placas que ladeiam os números 30 e 32.

O balanço real desta iniciativa respira-se no ar de maior cumplicidade amiga entre os vizinhos e alguns meses depois novo projeto se concretizou!

Mas esta crónica já vai longa e essa história fica para uma próxima.

 

Nota

Cheguei a dizer e a pensar que este era o maior projeto da minha vida fora todos os outros que realizei no foro familiar. E até hoje penso o mesmo.

Este projeto retoma e fundamenta o que dizia na primeira crónica que escrevi no 7MARGENS: “É nestas descobertas inesperadamente participadas e de prazer que encontro a transcendência. Dá-me ideia de que há um olhar, uma força que não sabíamos ter e que nos abriu o coração.”

Ana Cordovil, junho de 2019

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