
Ilda Canuma Martins, mulher macua: representação de uma preparação de alimentos. Foto: Direitos reservados.
Faz algum tempo que não mantenho a regularidade de enviar a minha crónica mensal para este jornal. São várias as actividades que me têm consumido, e esse é o termo – consumir; a ponto de eu não ter a delicadeza de “cuidar de mim”, naquilo de que mais gosto: escrever.
Hoje, não me contive, inspirada pela música intitulada Axinene arivava, expressão makhuwa, que em português significa “sou deste lugar” ou “o dono está aqui”. É cantada pela Banda Kakana . O seu conteúdo é um autêntico convite à temática que mais tenho abordado, nesta coluna: as culturas moçambicanas. A música, no caso, é uma exaltação à auto-estima da beleza da mulher makhuwa, da gastronomia da Ilha de Moçambique, assim como das suas culturas.
Faz jus ao que se tem dito sobre as mulheres daquele lugar e arredores, a parte costeira da província de Nampula. São consideradas as mais bonitas de Moçambique, descritas através da sua forma especial de amarrar lenços na cabeça ou o modo através do qual amarram as suas capulanas bastante garridas. São consideradas sedutoras e que prezam a sua beleza corporal, sobretudo facial, cuidada com o mussiro (extracto de uma planta designadas n’siro), que tem um poder hidratante, sem igual. A par dessa arte de amarrar lenços e capulanas adornam-se de anéis, colares e brincos. Fruto do contacto com povos árabes, é comum, para além desses adereços, vê-las com mais do que um colar ao pescoço e vários anéis nos dedos das mãos. Pura beleza!
A música interpelou-me, numa semana na qual recebi vários vídeos nos quais se encontram grupos de mulheres com perucas e extensões capilares, fazendo o ritual de desapego a essa instalada tradição de usar “próteses”, sem ser por doença ou caracterização do personagem. Nesse ritual, elas juntavam-se e, ao mesmo tempo, retiravam tais “próteses” e extensões, exaltando a sua beleza natural. Relacionada a este facto, a música acabada de referir é um ensinamento contra o consumismo e apelo ao desligamento da necessidade de seguir a “moda dos cabelos artificiais”, que se considera ser a que coloca qualquer um nos píncaros da proximidade com as pessoas de pele branca ou os que são a referência do mundo.

Ilda Canuma Martins, mulher macua:adornada. Foto: Direitos reservados.
Em Moçambique, há mesmo quem não tenha o que comer, onde dormir ou dinheiro para necessidades básicas, mas sente-se poderosa, basta que tenha uma peruca ou extensões capilares. Há ainda quem exija reverência, no seu bairro ou local de trabalho, porque é quem tem as perucas mais caras “da zona”. Mais do que o valor que custam, exibem-se os imensos exemplares, cores e tamanhos que cada uma tem.
Nesta mesma semana, fui impelida a pedir a uma aluna que parasse de bater na cabeça, porque a sua peruca lhe fazia comichão ao couro cabeludo. Não conseguia, se quer prestar atenção a aula. Dias depois, apareceu a agradeceu-me pela chamada de atenção, por se sentir mais feliz e com o couro cabeludo são e fresco. E tem mais, são imensas as vezes que não reconheço as alunas, por aparecerem sempre com uma caracterização diferente.
O Brasil tem estado a superar essa carência. Mulheres e homens têm estado a assumir e a fazer campanhas de valorização da carapinha. Os vídeos que recebi e a que acima me referi, são uma acérrima campanha e convite para que, as mulheres africanas aprendam a identificar-se como tal, a aceitarem-se e a terem poder nisso. Claramente que volvidos séculos de negação das próprias culturas, seja necessário um trabalho de contra-ideologia da branquitude. E ao afirmar “natural não teme”, a música da “Banda Kakana”, convida-nos a não nos afligirmos em sermos nós próprios. Diz, grosso, modo: […] “solta tua carapinha menina, na minha terra, natural não teme, tem capulana, tem mussiro, tem mikoba, para exaltar sua beleza menina. Solta sua ginga, no salto à corda, no som do tufo. Axinene arivava” […] Muthyana orera (mulher bonita). Fica o convite. Há um poder por trás da carapinha. Os grifos são meus.
Escutar aquela música, recordou-me o “Mito de Criação da identidade makhuwa e lomwe”, o mito dos “montes Namuli” (província da Zambézia, na serra Gurrùe). Do ponto de vista de expansão geográfica, essa identidade perpassa as províncias do Niassa, Cabo Delgado, Nampula e Zambézia. Entretanto, para além deste lugar circunscrito, pelo facto de o povo makhuwa ser o mais numeroso em Moçambique, tem-se utilizado esse mito, por extrapolação, designando-o como o de origem de todos dos moçambicanos, embora este país seja caracterizado por mais etnias culturais. E diz assim:
O homem [sic] recém-criado, contemplava diariamente a extensa planície verde, onde crescia toda a espécie de árvore e planta. Num certo momento, buscando satisfazer sua curiosidade, decidiu descer para conhecer melhor o excelente panorama. Durante a perigosa descida, tropeçou numa pedra, caiu ferido por terra e desmaiou. Passou muito tempo, quando despertou e abriu os olhos, deu-se conta de que seu sangue se misturava com a água de um riacho que por ali passava; seguiu o curso da água e observou, na cavidade de uma rocha, que estava se formando lentamente uma figura semelhante ao seu corpo: era a primeira mulher.
Formava-se, desse modo, o primeiro casal: um homem (Mulupwana) e uma mulher (muthyana). O casal continuou a viagem até a planície, descendo por diversos caminhos que iam abrindo pela primeira vez. À medida que eles foram-se multiplicando [Sic], iam-se separando, dando origem aos diferentes grupos que hoje compõem esse povo, diferentes em algumas expressões linguísticas e culturais, mas sobretudo, unidos entre si. A expressão Miyo kokhuma o Namuli (venho de Namuli) sintetiza a fé do povo makhuwa na criação e contém todo o significado da sua identidade. Lerma, Francisco. In. Religiões Africanas Hoje: Introdução ao estudo das Religiões Tradicionais em Moçambique. Maputo: Paulinas. 2009:176-177. O negrito é responsabilidade minha.
Os moçambicanos têm a sua identidade assente na aceitação da diferença e na união em função da sua origem comum. A sua lenda já espelha esse facto. É verdade que, em contexto real, existem desavenças, mas esses mitos são para nos recordar que somos a mesma Humanidade e que devemos ter amor próprio e amor entre nós. E isto volta a levar-nos à música axinene arivava, que nos recorda para que activemos a nossa própria ginga, aceitemos a nossa carapinha, porque “natural não teme”. Tem a sua própria identidade.
Abri o texto com a alegria de uma música que me estimulou a escrevê-lo e fecho-o na esperança de poder contribuir para a nova era a que somos chamados a abraçar. Por que razão havemos nós de nos querer vangloriar com recurso à identidade de outrem? Somos donos daqui, somos deste lugar. Somos daqui!!!!
Sara Laisse integra o Graal (Movimento internacional de mulheres cristãs) em Maputo. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br










