Era a última sexta-feira de abril, dia 25, feriado também em Itália, e véspera das cerimónias fúnebres de despedida do Papa Francisco. Nesse dia, o teólogo Andrea Grillo e o especialista em direito e religiões Luigi Mariano Guzzo conceberam um projeto e deram-se um desafio: reunir em 24 horas autores credenciados para, nos escassos dias que os separavam do conclave, escrever um balanço e perspetivas do pontificado do Papa agora defunto e publicar um livro com os resultados.
Para tal reuniram cerca de duas dezenas e meia de docentes e investigadores de vários horizontes disciplinares de Itália, sobretudo da teologia, história eclesiástica, ética, filosofia e direito e, em quatro dias, cada um escreveu sobre um tema. Entretanto, a editora Quiriniana disponibilizou-se para dar ao conjunto uma forma de livro e disponibilizá-lo. Em 3 de maio, já ele se encontrava disponível –e em acesso gratuito – na internet. Título: Intra Omnes – Del populo di Dio al conclave (Todos dentro – do povo de Deus ao conclave).
Os coordenadores desta “obra a muitas mãos” chamaram-lhe “uma carta coletiva em forma de glossário” e também “um glossário de desafios e esperanças para a Igreja vindoura” e, ainda, “uma carta coletiva do povo de Deus aos cardeais”, tendo em vista o conclave.
Através de 26 entradas, o livro oferece uma síntese do “estado da arte” dos processos de reforma iniciados pelo Papa Francisco, destaca “as questões em aberto e os nós a desatar e identifica possíveis trajetórias futuras, (…) refletindo a riqueza e a complexidade da vida eclesial.
Os coordenadores, embora tenham decidido apresentar por ordem alfabética os temas tratados (com uma média de cinco a seis páginas cada um), alinhados num índice final, sugerem também itinerários de leitura, através da reunião dos temas em três grandes áreas, a saber:
- Autoridade Partilhada: Rumo à Governação Sinodal (verbetes: Autoridade; Direito; Tradição; Poder; Povo; Bispo; Papa);
- Anúncio e pastoral: renovar a linguagem da fé (verbetes: Anúncio; Liturgia; Cultura; Jovens; Mulheres; Moral; Sexualidade; Vocação)
- Igreja no mundo: justiça, ecologia e diálogo (verbetes: Criação; Pobres; Paz; Abusos; Fraternidade; Ecumenismo; Inculturação; Profecia; Política; Tempo).
Andrea Grillo e Luigi Guzzo tornam claro que não pretenderam, com a iniciativa desta publicação acelerada, funcionar como “grupo de pressão” do conclave, a que os cardeais devem estar imunes. Fazem notar na introdução: “Respeitamos o Extra omnes, o Todos fora, com o qual o conclave começa, mas não podemos deixar de notar como a história dos últimos dois séculos – e talvez em particular a dos últimos doze anos – tornou o colégio cardinalício cada vez mais inclusivo: ele não exclui, mas inclui toda a Igreja. Intra omnes, todos dentro”.
Contudo, não deixam de profeticamente admitir que “num futuro próximo, provavelmente, surgirão as condições para repensar de modo verdadeiramente ‘sinodal’ e inclusivo as formas e os modos de eleger o Romano Pontífice”. Recordando o princípio segundo o qual “o que diz respeito a todos deve ser tratado e aprovado por todos” (Quod omnes tangit, ab omnibus tractari et adprobari debet), reafirmado também no último sínodo dos bispos, eles observam que o princípio “não pode deixar de dizer respeito também à provisão do ofício do Romano Pontífice”. “Por enquanto, pelo menos nos dias imediatamente anteriores ao conclave, não achamos que seja exagero dizer: Intra omnes, Todos dentro”, concluem.
Nota: O livro está acessível aqui.










