Dificuldades logísticas e pandemia

Banco Alimentar de Braga nunca entrou em confinamento

| 22 Mar 2022

Os tempos têm sido particularmente exigentes para o Banco Alimentar Contra a Fome (BACF) de Braga desde o início da crise sanitária, em 2020. Perante as dificuldades o projeto nunca parou e continuou a alimentar milhares de famílias da região do Minho.

 

Mais de 7400 pessoas do distrito de Braga beneficiam, mensalmente, desta ajuda. Todos os bens essenciais que compõem os cabazes foram doados por empresas e particulares. Foto © Isabel Moura.

Mais de 7400 pessoas do distrito de Braga beneficiam, mensalmente, desta ajuda. Todos os bens essenciais que compõem os cabazes foram doados por empresas e particulares. Foto © Isabel Moura.

 

O armazém do BACF de Braga, na freguesia de Semelhe, está relativamente tranquilo, mas as boxes, essas, já estão repletas, devidamente identificadas e alinhadas no átrio de entrada. Estão prontas para seguir viagem para as cerca de 80 instituições beneficiárias da ajuda do BACF de Braga. 

Mais de 7400 pessoas do distrito de Braga beneficiam, mensalmente, desta ajuda. Todos os bens essenciais que compõem os cabazes foram doados por empresas e particulares, conhecidos ou anónimos. Como tudo o que existe neste armazém. É com base nas doações que funciona o Banco Alimentar – quer de bens, quer de serviços, quer de tempo. 

As tarefas parecem estar oleadas. A distribuição, maioritariamente realizada por voluntários, é sempre feita via instituições de proximidade. Há um espírito de solidariedade que não desmorona. Bem pelo contrário. Na adversidade, é possível perceber o dinamismo de solidariedade e entreajuda. 

Os ganhos de uma ação concertada

A guerra na Ucrânia é mais uma prova disso. Face às inúmeras iniciativas civis que nasceram para recolha de bens essenciais, Pilar Barbosa, voluntária e porta-voz do BACF de Braga, admite que o Banco tem uma atitude “contra a corrente”. Em vez de criar “mais uma” campanha de recolha de bens, optou por uma ação concertada.  

“O BACF de Braga está a articular diretamente com a Federação dos 21 bancos alimentares portugueses, a qual está, por sua vez, em estreita articulação com a Federação europeia. Havendo um banco alimentar na Polónia, tudo aquilo de que venha a precisar vai para lá”, refere Pilar Barbosa ao 7MARGENS. 

“Ao mesmo tempo, acrescenta a porta-voz, a Entrajuda, um dos parceiros do BACF, que promove o apoio a instituições de solidariedade social, está muito envolvida na criação da plataforma WehelpUkraine  para (mais uma vez) se agir de forma concertada.” 

A plataforma WehelpUkraine pretende ajudar os refugiados ucranianos a encontrar apoio a nível mundial. “Somos muito a favor dos apoios concertados no sentido de agregar boas vontades”, afirma Pilar Barbosa. “Está visto que as boas vontades avulsas não perdem intenção – bem pelo contrário – mas geram desperdício.” Para ela, “a ideia é agregar as boas vontades e canalizá-las”. 

O BACF de Braga demonstra, porém, total disposição para “apoiar as instituições que vão recolher refugiados ucranianos e que tenham necessidade de alimentos”, garante.

BA de Braga demonstra total disposição para “apoiar as instituições que vão recolher refugiados ucranianos". Foto © Isabel Moura.

BACF de Braga demonstra total disposição para “apoiar as instituições que vão recolher refugiados ucranianos”. Foto © Isabel Moura.


Projeto mobiliza 300 voluntários

Pilar Barbosa, que dedica todo o seu tempo ao BACF desde a sua criação, destaca o papel fundamental dos voluntários para que o projeto possa existir. “São cerca de 300 os voluntários que passam pelo armazém”, menciona a coordenadora. Três vezes por semana, 15 a 17 voluntários cruzam-se no armazém, para assegurar a missão do projeto nascido em 2008, por influência do padre jesuíta Gonçalo Machado. 

Apesar da pandemia e dos sucessivos confinamentos, o BACF de Braga não suspendeu a atividade. Conseguiu, em 2021, mesmo assim, distribuir 3.206 toneladas de alimentos a diversas instituições dos 14 concelhos do distrito de Braga. 

Só em janeiro de 2022, este Banco Alimentar entregou 255,5 toneladas de alimentos, sendo 77,9 toneladas na qualidade de entidade coordenadora de cinco territórios do Programa Operacional de Apoio a Pessoas Mais Carenciadas, cujo objetivo é o “combate à pobreza e à exclusão social em Portugal”, cofinanciado pela União Europeia. 

Em 19 de março de 2020, data em que se iniciaram as restrições ligadas à pandemia, o país viu-se confrontado com situações de carência abrupta. Para amenizar as consequências “foi criada a plataforma Rede de Emergência Alimentar (REA) que congregou toda a gente e todas as instituições que estavam no terreno”, diz Barbosa. A REA “surgiu de uma junção de boas vontades que tem permitido sobreviver e não parar”, acrescenta. A plataforma permitiu cruzar recursos e necessidades e dar respostas sociais mesmo em período de confinamento. “Pessoas ficaram desprevenidas”, adianta a voluntária. “Algumas juntas de freguesia fizeram mesmo kit’s de emergência”, refere.

O BACF de Braga manteve-se operacional, no terreno, “apoiando todos aqueles que já ajudava e articulando com outras instituições os apoios de emergência, fruto das doações provenientes da REA, uma vez que foram canceladas as campanhas de recolha, no cumprimento das recomendações da DGS”, recorda Pilar Barbosa. 

Para a voluntária, esta rede de emergência foi fundamental pela rapidez com que conseguiu atuar, em oposição às respostas protocolares. Até porque, para além da alimentação, o BA faz um trabalho mais abrangente, “atuando em várias áreas de necessidade de cada família”. Existe uma evidente rede de cooperação à qual novos movimentos civis aderiram, quer durante a pandemia, quer mais recentemente, no acolhimento de refugiados ucranianos.

“Problema grave” tem travado ação do Banco Alimentar
Uma das paredes do armazém colapsou devido ao desmoronamento de um muro de suporte de terras do loteamento contíguo. Foto © Pilar Barbosa.

Uma das paredes do armazém colapsou devido ao desmoronamento de um muro de suporte de terras do loteamento contíguo. Foto © Pilar Barbosa.

Como se os efeitos da pandemia e da guerra não bastassem, Pilar Barbosa refere que, atualmente, “o BACF de Braga está com um problema grave”, desde que, em novembro de 2020, uma das paredes do armazém colapsou devido ao desmoronamento de um muro de suporte de terras do loteamento contíguo.

O acidente provocou não só danos materiais na estrutura do armazém, como ocasionou transtornos no próprio funcionamento da instituição, tendo ficado interdita, por razões de segurança, parte daquele espaço. 

Apesar de ter sido reposto um muro, são ainda visíveis os danos existentes, nomeadamente “uma larga fissura na parede que não oferece segurança segundo os peritos da Câmara”, revela Pilar Barbosa. Lamenta o que considera um “acidente”, mas pensa que “há responsáveis”. A zona mantém-se interdita, impedindo não só o armazenamento de bens como também a circulação de pessoas. 

Com um armazém reduzido, foi impossível a realização da campanha de recolha de alimentos 2020-2021, ou seja, à roda de 150 toneladas de bens ficaram por recolher, segundo cálculos da responsável. Para minimizar as perdas, o BACF de Braga apostou nas campanhas “Vale” e “Online”, ainda que sem o mesmo impacto. 

Com esta redução do espaço disponível, Pilar Barbosa lamenta, ainda, as “perdas não mensuráveis, mas de grande importância, tal como a falta de sensibilização e envolvimento da sociedade civil, a perda de voluntários e equipas coordenadoras que foram conquistando ao longo dos anos”. 

O facto de a situação ainda não se encontrar resolvida, apesar dos esforços encetados junto do proprietário do loteamento e da Câmara Municipal de Braga (CMB) leva a coordenadora a admitir que não se possa realizar a campanha de 2022, temendo que, por isso, os voluntários desmotivem e dispersem.

Neste momento, o BACF de Braga aguarda o relatório da vistoria realizada pelos técnicos da CMB em Dezembro de 2021 e o relatório da peritagem realizada, a título gracioso, pelo Gabinete de Engenharia Civil da Universidade do Minho.

O Banco Alimentar de Braga é arrendatário do local, mas para Pilar Barbosa, “o investimento feito no armazém com obras para armazenamento de frio (e outras) impede que possam simplesmente mudar de localização.”

 

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