Banco da solidariedade, experiência única

| 2 Mar 21

Sobre uma oportunidade de resistência coletiva

 

telefone, escuta, jesuítas

“Seremos mais felizes se relativizarmos os desânimos do dia-a-dia; se mobilizarmos recursos, que podem ser apenas tempo e atenção.” Foto Quino Al/Unsplash

 

Muito se tem escrito e tenho escrito sobre a falta de saúde mental a que, provavelmente, estamos e estaremos sujeitos durante e após esta pandemia. Os números crescem, traduzidos por sofrimentos enquadráveis em diagnósticos definidos, mas únicos, pois onde verdadeiramente doem é no coração de cada um. Ninguém escolheu passar por isto; ninguém foi avisado com antecedência para poder fugir, até porque o que lhe restaria seria um labirinto no qual se perderia e acabaria por sucumbir; ninguém vislumbrou a hipótese de ver o mundo parar ou de vaguear, sentado diante de ecrãs, por um planeta realmente desanimado e estático.

A verdade é que foi assim que tudo aconteceu – num tempo em que o homem quer ser Deus, eterno e omnipotente, transumano e, portanto, pós-humano, tudo acabou por lhe sair do controlo. Às vezes penso se não será um quase discreto aviso.

E, agora? Ainda estamos, com muita probabilidade, a meio do caminho. De um caminho de incerteza e de dúvida, de contenção e de isolamento, de imprevisibilidade, de insegurança e de medo. O futuro, mais ou menos próximo e mais ou menos distante, é, para muitos ou quase todos, em boa verdade, um inquestionável ponto de interrogação.

Estamos a experimentar sentimentos novos por vivências antigas. Ou seja: antes, sabíamos que podíamos combinar o que quiséssemos, quando quiséssemos, com quem quiséssemos. Hoje imaginamos que esses, os outros, estão nos seus sítios a ouvir o silêncio e a entreter-se para que o tempo passe o mais depressa que for possível; antes, decidíamos ir onde gostávamos, fazer o que os nossos desejos motivassem. Hoje fazemos o que podemos e, mesmo assim, frequentemente, quando não falta mais nada, falta a vontade da iniciativa que deve ser tomada, mas não há porquê.

Esta pandemia, que ninguém escolheu, tanto quanto podemos saber, tem-nos transformado. Hoje vemos os outros e somos vistos de um modo diferente. Cada beijo e cada abraço ameaçam potencialmente a nossa vida e desconhecemos totalmente quando e se isto vai voltar a ser como era dantes. As regras sociais da saudação estão transformadas, completamente transformadas num não sei quê que nos faz sentir repulsa pelo outro e resignação pelo seu afastamento.

Conhecemos a força do abraço genuíno e do beijo sincero, mas não os podemos dar e também isto tem de servir de lição.

Precisamos de não perder a consciência de que somos transitórios. Só essa nos desafiará e incentivará a fazer o melhor uso possível das nossas vidas, seja em que circunstância for. Temos de continuar em busca de um sentido, que, apesar de tudo, nos tempos atuais, não é apenas a sobrevivência. Há quem precise de nós, dos nossos telefonemas, dos nossos textos, dos agasalhos que nos sobram, das comidas que fizemos a mais. E isto, só se alcançará se nos tornarmos sócios fundadores de um banco novo – o banco da Solidariedade.[1]

Seremos mais felizes se relativizarmos os desânimos do dia-a-dia; se mobilizarmos recursos, que podem ser apenas tempo e atenção; se arrumarmos as nossas casas e delas partilharmos, pelo menos, aquilo que não temos utilizado tanto; se deixarmos de viver a mostrar as nossas obras e passarmos à discrição que, no quase silêncio, se faz ouvir mais do que qualquer outra melodia – chegar lá, onde for, com a nossa presença ou com o suave deixar sentir que lá estamos.

Afinal, temos imenso que fazer e apenas precisamos de começar – cada um, no que de si depende, pode abrir a sucursal do seu banco. Quem sabe, um dia, várias sucursais se unam e venham edificar uma força maior que fique para além de qualquer pandemia. O primeiro depósito será num bem, antes escasso e, agora, para alguns, excessivo – Tempo.

Muitos, mesmo muitos estão preocupados com a sua sobrevivência, mas até esses têm algo para dar e vão viver melhor se o fizerem. Não sucumbiremos. Lutemos pela causa de nos tornarmos mais capazes e entusiasmados com os para quês do nosso existir.

Não escolhemos nada disto, mas que este período da nossa vida se transforme numa oportunidade única para que todos consigamos sair dele, mais sábios, mais resilientes, mais solidários. Parece altruísmo, mas é também uma forma de proteger a nossa saúde mental – com Vitor Frankl: somos seres em busca de um sentido e, por isso, sobreviveremos.

 

[1] Apesar de este texto ser literário, tenho ideias concretas e objetivas sobre este projeto. Estou disponível para quem queira conversar sobre isto e lançar o projeto de forma concreta.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

 

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