Banco de Tempo, solidariedade e o legado da minha mãe

| 26 Jan 21

“(…) agiu sempre da mesma maneira: tem e tinha colo para toda a gente.” Foto: Direitos reservados

 

Estou em Almada e tenho feito a travessia Cacilhas-Lisboa, com alguma frequência, na medida do recomendado pelo Estado de Emergência. Deve ter sido por isso que me recordei de parte das histórias que seguem neste texto. Além de que foi nessa travessia que surgiram algumas conversas sobre os subtemas abordados.

A primeira vez que ouvi falar no Banco do Tempo foi na Golegã, em Portugal, num encontro internacional do Movimento Graal, no início dos anos 2000. Estavam lá pessoas de diferentes países e foi reservado um momento para se apresentar o projecto. Durante a sessão, eu estava a sorrir e a professora Teresa Vasconcelos, também colaboradora do 7 MARGENS e membro do Graal, surpreendeu-me nessa demanda. Percebeu e perguntou-me se eu julgava aquele assunto um absurdo, ao que respondi que sim.

É que cresci num tempo e num lugar do mundo no qual a solidariedade ou dar apoio a alguém era um acto que quase não se discutia, nem se resolvia ou se consentia ou se abdicava. Explico-me.

Durante a minha infância, não eram poucas as pessoas que frequentavam a minha casa e ficavam lá de manhã até à noite, ou vários dias. A minha mãe era doméstica, mas muitos dos pais, nossos vizinhos, trabalhavam fora de casa; por causa disso, as suas crianças ficavam horas a fio na nossa casa. Almoçavam connosco, tomavam banho na nossa casa, faziam os trabalhos de casa e a minha mãe até fazia tranças a algumas das meninas que lá fossem parar. Não eram tempos de tranças em rapazes, senão ela também as faria.

Não raras vezes, estavam também algumas senhoras que viviam na Catembe, uma região da província de Maputo separada da cidade pelo mar, mas que fica muito perto – uma travessia de cerca de oito minutos de barco, entre a Baixa da cidade de Maputo e o Bairro Guachene, algo similar a Cacilhas-Cais do Sodré, em Portugal (o tal percurso que desencadeou este texto).

Em tempos de guerra civil, quando na cidade de Maputo havia muitos cortes de energia eléctrica, vi a minha mãe acolher outras senhoras desconhecidas que, idas da Catembe à cidade de Maputo, onde vivíamos, iam vender carvão. Como a escassez de transportes era algo regular, vi as carvoeiras a pernoitarem na nossa casa, inúmeras vezes. E era uma casa na qual viviam os meus pais, eu e os meus irmãos, algumas pessoas da família, que a minha mãe ajudava a criar, e ainda algumas das mencionadas crianças vizinhas.

A nossa casa era bastante frequentada. E era um centro de acolhimento de muita gente. E tudo isso era feito de coração. Não éramos ricos, diga-se. Vinha há dias escrevendo este texto e retomo-o depois de ler uma crónica de António Lobo Antunes, intitulada “O meu velho”, publicada na revista Visão, na qual o autor refere que, ainda que pobre, o pai não era apegado ao dinheiro e que levava alguns dos seus doentes para casa e jantava com eles, na companhia da sua família. Foi para mim uma coincidência muito feliz, encontrar esta crónica.

Tanto eu, quanto outras pessoas da minha geração cresceram em ambientes desses, nos quais os pais, para além dos seus filhos, ajudavam os seus familiares a cuidarem de seus filhos, por diversas razões e sem nunca questionar. Essa prática era realizada instintivamente e em diversas ocasiões. Ou porque quando uma moça se casava, a sua família decidia que ela iria para o seu novo lar com uma irmã ou com uma prima, que a pudesse ajudar nas lides de casa, ou porque se houvesse alguém na família que tivesse muitos filhos, mandavam alguns deles para serem criados pelos familiares ou ainda como casas nas quais, para além dos filhos de uma das esposas, um homem albergava os filhos da esposa actual na mesma casa (muitíssimas raras vezes as mulheres levavam para o novo lar os filhos de suas anteriores relações, mas criavam os das relações anteriores dos seus maridos). Portanto, ver meios-irmãos, primos, vizinhos ou enteados crescerem juntos, sob o mesmo tecto, nunca constitui estranheza para mim. Aliás, do que vi na minha infância e na minha adolescência, vizinho é família e a ideia de filhos legítimos e não legítimos não existia.

De igual modo, nunca foi estranho ter de ir apoiar um tio, uma tia, uma avó ou alguém (um desconhecido) que fosse da mesma idade que esses entes queridos, e em suas casas; ou, se se tratasse de estar na rua e visse passar alguém mais velho, automaticamente eu ou outra criança da minha idade ia apoiar. Era algo comum e corriqueiro.

Foi por isso que ouvir sobre a criação de um Banco de Tempo causou-me estranheza, porque julgava que não era necessário institucionalizar esses eventos. Eu estava ainda numa sociedade idílica, diga-se. Não se vivia a tirania da falta de tempo, da pouca solidariedade e da pouca natalidade. Havia sempre alguém disponível a ajudar e a troco de nada. “Dávamos de graça, o que recebemos de graça.”

Hoje compreendo a razão da criação do Banco de Tempo. Há cada vez mais pessoas indisponíveis e consumidas pelo seu trabalho; de tal modo que, se não houver um Banco de Tempo que as estimule, andam sempre com muito que fazer, além de que nunca se recordarão que é preciso darem de si aos outros. Que sejam humanos, de verdade.

Agora, há muito que se lhe diga quanto ao acolhimento em nossas casas. Estamos virados para o nosso individualismo. Aprendemos uma palavra que antes não “existia” – pelo menos, no tempo no qual a minha mãe e o “velho” do António Lobo Antunes recebiam desconhecidos em suas casas.

A palavra é “privacidade”, que julgo, muitas vezes roça o egoísmo. E falo em egoísmo, lembrando a ideia solta que acima deixei, a de que mais mulheres acolhem enteados em casa, do que o fazem os homens. Muitas vezes ouvimos expressões como “não posso cuidar dos filhos de outros homens”. Já ouvi isso tanto em Moçambique, com moçambicanos, como em Portugal, com portugueses e a tónica é igual. É uma das “marcas do tempo em que vivemos”; nos quais o “dar de graça” já não é comum.

Entretanto, devo dizer que a guarda das crianças não é algo fixo, em nenhum destes dois países. Muita das vezes, as circunstâncias é que ditam quem é que fica com as crianças. O que é importante é que elas não sofram onde estiverem ou com quem viverem. Muitas vezes me questiono como é que isso tem sido feito.

Pergunto-me ainda porque vivi quatro anos em Lisboa e não conheci um vizinho meu. Vivia num prédio com elevador, diga-se. Cruzava-me com pessoas nesse lugar, mas nunca nos falávamos, um bom dia que fosse… nunca ouvi, e nunca o disse… nunca quebrei o gelo. Tive de o quebrar, agora, dez anos depois, num prédio diferente, quando precisei que um residente em Portugal assinasse uma declaração atestando que um parente meu era seu vizinho. Para se obter um Atestado de Residência, em Portugal, é imperioso que um vizinho o ateste, antes da Junta da Freguesia.

Foi nesse contexto que tive de bater à porta da loja do Sr. Zé e da casa da Dona Antónia, que me ajudaram no que desejava. Foram amáveis. Mas destaco a Dona Antónia que, ao que consta, é de uma generosidade sem fim, porque se importa com a existência dos seus vizinhos, cumprimenta-os sempre. E assim educou os seus filhos, que são tão solidários quanto ela.

Esta Dona Antónia lembra-me a minha mãe, que tem o mesmo nome e que age e agiu sempre da mesma maneira: tem e tinha colo para toda a gente. São ambas pessoas de outros tempos, os mesmo que os do “velho” de António Lobo Antunes. Não precisaram de Bancos de Tempo. Existem(iam) apenas, são Humanos: dão, dão-se. Amam. E foi este amor, legado da minha mãe, que me ensinou a ser solidária. Para além dos meus dois filhos biológicos, há 19 anos acolhi mais dois de criação, que por desejo próprio escolheram chamar-me mãe, porque assim o sentem.

 

Sara Laisse integra o Graal-Moçambique e é docente de Cultura Moçambicana, na Universidade Politécnica (Maputo Moçambique); Contacto: saralaisse@yahoo.com.br

 

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