Inquérito 7M/Família Cristã

Bancos de roupa, apoio a estudantes e integração de refugiados, boas práticas motivadas pela Laudato Si’

e | 11 Jun 21

Lojas sociais para apoiar estudantes necessitados, famílias que apoiam famílias, aproveitamento de águas da chuva para rega ou bancos de fardas nos escuteiros são algumas das muitas ideias que as dioceses e organizações católicas colocam em prática. Ideias incluídas nas respostas ao inquérito promovido pelo 7MARGENS e Família Cristã sobre a aplicação da encíclica Laudato Si’ em Portugal e que podem servir de inspiração.

roupa

Vender roupa a custo simbólico pode ajudar a angariar dinheiro para apoiar estudantes necessitados. Foto © Unsplash

 

Uma loja social que vende roupa a preço simbólico, cujo dinheiro é depois utilizado para apoiar estudantes necessitados. Refugiados integrados com sucesso com o apoio de comunidades religiosas e empresas. Estudantes a apoiar a Refood…

Observe-se por exemplo o projecto “75 anos, 75 famílias”, promovido pela Opus Dei no âmbito das comemorações dos 75 anos da Obra em Portugal. “Cada paróquia selecciona 25 famílias carenciadas, a quem lhes será destinado mensalmente, ao longo de 12 meses, um cabaz com bens essenciais”, explica Benedita Santiago Neves, responsável pela iniciativa.

A ideia começou no núcleo de Lisboa, com 75 famílias em três paróquias, mas já se estendeu a Porto e Braga, pelo que serão 225 famílias a apoiar outras tantas famílias carenciadas. “Nos casos em que a paróquia considerar oportuno será também proposto um desafio com vista a melhorar o convívio familiar em tempo de pandemia e de confinamento”, acrescenta.

Estas são algumas das ideias partilhadas nas 55 respostas das 21 dioceses e 46 instituições (20 das quais são comunidades e obras da Companhia de Jesus) ao inquérito promovido pelo 7MARGENS e Família Cristã, e que contou com a colaboração inicial da rede Cuidar da Casa Comum, sobre a aplicação da encíclica Laudato Si’ na Igreja Católica em Portugal.

Uma iniciativa que um responsável do Vaticano considerou “pioneira” e que permitiu conhecer uma boa parte do que se faz em Portugal tendo como ponto de partida as sugestões da encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado da casa comum. Depois de um primeiro levantamento na área da formação e das metas ecológicas, traçamos agora um panorama de bons exemplos e práticas no âmbito da conversão ecológica pedida pelo Papa Francisco. Exemplos, como se lê na encíclica, de uma acção que pretende “colaborar na construção da nossa casa comum”.

Muitas são as instituições que fazem recolha de roupa, mobiliário, brinquedos e outros bens para doar a famílias carenciadas. Desde logo as Cáritas diocesanas, mas também os Focolares, várias instituições dos Jesuítas, a Universidade Católica Portuguesa (UCP) e as capelanias militares.

 

Roupa a custo simbólico para apoiar estudantes
“o crescimento nos últimos dois séculos não significou, em todos os seus aspectos, um verdadeiro progresso integral e uma melhoria da qualidade de vida. Alguns destes sinais são ao mesmo tempo sintomas duma verdadeira degradação social, duma silenciosa rutura dos vínculos de integração e comunhão social.” (LS, 46)
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“Pioneiros” do CNE em Monsanto, em Agosto 2017: fardas que já não servem aos mais velhos podem ser utilizadas pelos mais novos. Foto © Ricardo Perna/Flor de Lis.

 

Na área do apoio social, a Igreja em Portugal tem trabalho de décadas já desenvolvido, através das estruturas de apoio sócio-caritativo que as paróquias, dioceses, congregações e movimentos dinamizam. Mas isso não significa que não haja espaço para inovação.

Na Ericeira, por exemplo, as Servas de Nossa Senhora de Fátima abriram uma loja social que não doa roupa, mas a vende ao preço simbólico de um euro. Isso permite, diz a irmã Lourdes Lima, responsável da Fundação Maria do Carmo Fernandes, gerida pelas Servas, que as pessoas possam escolher o que desejam, e ao mesmo tempo mantenham a dignidade na capacidade de continuarem a comprar a sua roupa. Além disso, há uma outra loja com “quadros, potes, livros, coisas com algum valor, coisas antigas, de que as pessoas já não gostam”.

Com os fundos recolhidos, as irmãs continuam a ajudar – neste caso, estudantes da zona da Ericeira, a quem atribuem bolsas para ajudar a pagar os seus estudos. Em média, têm apoiado sete estudantes, no pagamento de propinas, alojamento ou alimentação. Sem distinção: já houve pessoas de etnia cigana a frequentar o curso de Direito.

No Porto, o Centro São Cirilo, dos Jesuítas, tem um banco de roupa doada que “pretende apoiar pessoas em situação de vulnerabilidade social, muitas delas em situação de sem-abrigo, que precisem de roupa”. O Centro apoio ainda os utentes do alojamento e de cabaz de alimento que, muitas vezes, estão “em situação de grande fragilidade e necessitam de roupa para si, para os filhos ou até roupa de casa (lençóis, toalhas, mantas)”.

Mas não é apenas a doação de roupa. “O Banco de Roupa responde a vários objetivos ecológicos, pois permite à população geral reciclar a sua roupa, doando-a nós; permite apoiar aqueles que mais precisam; e permite reciclar o que já não pode ser reutilizado, já que a roupa que não está em condições para ser doada é entregue à Sarah Trading, uma empresa que recicla a roupa e nos dá um benefício económico por kg de roupa cedida.”

Ainda na partilha de bens, o Corpo Nacional de Escutas promove, em muitos dos seus agrupamentos, bancos de fardas: as famílias podem depositar as peças do uniforme escutista que já não servem aos seus filhos, que depois são vendidas a preços mais acessíveis ou entregues gratuitamente a escuteiros provenientes de famílias carenciadas. Assim se promove a reutilização dos bens, neste caso, da roupa e calçado.

 

Apoio alimentar e de trabalho à Refood
Máscara, Pandemia, Voluntariado, Solidariedade, Braga, Catarina Soares Barbosa

Voluntários na associação cívica Virar a Página, de Braga: refeições para familias necessitadas são uma das iniciativas repetidas em várias instituições. Foto © Catarina Soares Barbosa.

 

Duas das instituições que responderam ao inquérito indicaram uma parceria com a Refood, procedendo à entrega dos alimentos que não foram vendidos nesse dia. No caso dos Maristas, Marisa Temporão, coordenadora da pastoral, afirma que entregam, em média, 50 refeições por dia à Refood da Estrela, em Lisboa.

O Colégio Santa Doroteia, também em Lisboa, colabora igualmente com a Refood, neste caso do bairro do Lumiar, não apenas na entrega de alimentos, mas colocando os estudantes a fazer voluntariado dois ou três dias por semana (em sistema rotativo) na instituição.

Com a pandemia e o encerramento dos restaurantes, a recolha passou a ser feita nas famílias dos alunos, envolvendo mais de 200 alunos, conta Ana Isabel Nunes, a professora responsável pelo projecto. Que conta que o facto de se fazerem compras online permite também o aparecimento de reflexões sobre o tipo de alimentos a adquirir. “Questiona-se se devemos comprar coisas como cremes de chocolate para barrar ou às vezes alguém sugere mais um euro cada pessoa; e se um aluno não concorda, há quem responda: ‘Já viste o que podemos comprar com mais 27 ou 30 euros?’”

 

Apoio aos refugiados é também ecologia integral
“As mudanças climáticas dão origem a migrações de animais e vegetais que nem sempre conseguem adaptar-se; e isto, por sua vez, afecta os recursos produtivos dos mais pobres, que são forçados também a emigrar com grande incerteza quanto ao futuro da sua vida e dos seus filhos. É trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental, que, não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa. Infelizmente, verifica-se uma indiferença geral perante estas tragédias, que estão acontecendo agora mesmo em diferentes partes do mundo. A falta de reacções diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil.» (LS, 25)
Consolata, Missionários, Refugiados, Cacém

Lava-pés pascal com refugiados na casa do Cacém dos Missionários da Consolata: a intregração tem sido um “sucesso”. Foto © Agência Ecclesia.

 

No nosso inquérito, 43% dos inquiridos têm estruturas habitacionais a acolher refugiados. É o caso dos Missionários da Consolata, que indicaram que acolhem mais de 20 refugiados. “Três estão no Cacém [Sintra], vivem e trabalham com a comunidade. Dois acabam de encontrar casa, vão mudar-se, o terceiro fará o mesmo em Julho”, refere o padre Ermanno Savarino, que adianta que há mais 22 no antigo seminário da congregação nas Águas Santas (Maia). A maior parte está na casa dos 20 anos, os restantes têm idades que vão até aos 40 e são provenientes de países asiáticos como o Afeganistão ou Paquistão, e africanos como Camarões, Gana, Gâmbia, Guiné-Bissau, Nigéria, Senegal, Sudão ou Togo.

A integração, diz o padre Ermanno, tem sido um sucesso. Através de parcerias com empresas, como é o caso das lojas IKEA, que ofereceram cursos de formação, os missionários procuram, no processo de acolhimento, ir “ao encontro da pessoa” concreta. “Na festa de Eid al’Fitr, no final do Ramadão, trouxemos coisas para partilhar com eles, e um deles deu 10 euros para dar a quem precisar”, conta Ermanno Savarino. Dissemos-lhe que ele é que precisa de ajuda. Mas ele justificou: “No fim do Ramadão, a minha mãe dava sempre dinheiro a alguém que precisasse; eu já sou adulto, vou ter trabalho, também posso ajudar.”

Apesar de não ter estruturas habitacionais para acolher refugiados, a UCP indica que acolhe alunos refugiados e tem bolsas sociais. “A UCP criou um fundo para apoiar estudantes refugiados – o Fundo Papa Francisco, que tem dado apoio a estudantes sírios – e acolhe estudantes refugiados e migrantes (com total isenção de propinas e com apoio adicional) em Medicina Dentária, Ciência Política e Enfermagem”, refere Rita Paiva e Pona, responsável do Gabinete de Responsabilidade Social da universidade.

 

Combate ao desperdício já acontece com frequência
“O ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida actual – por ser insustentável – só pode desembocar em catástrofes, como aliás já está a acontecer periodicamente em várias regiões. A atenuação dos efeitos do desequilíbrio atual depende do que fizermos agora, sobretudo se pensarmos na responsabilidade que nos atribuirão aqueles que deverão suportar as piores consequências.” (LS, 161)
Universidade Católica Portuguesa,

A Universidade Católica Portuguesa quer estudar os lençóis de água freáticos. Foto: Direitos reservados

 

Mudar pequenos comportamentos, especialmente quando falamos de grandes organizações, pode ter um grande impacto na atenuação dos efeitos das mudanças climáticas. Apesar de ainda haver coisas para fazer, mais de 90% dos inquiridos indicou que faz separação do lixo, 69% indicou medidas para evitar consumo de plásticos descartáveis, e 71% já colocou em prática medidas para evitar o desperdício de água potável.

Opus Dei, Focolares e Jesuítas não usam ou minimizaram a utilização de sacos de plásticos nas compras, enquanto as Servas fazem os seus próprios sacos em casa, aproveitando capulanas de Moçambique.

No que respeita às garrafas de água, Focolares, UCP, Maristas, CNE, Servas e várias instituições jesuítas indicaram que as aboliram nas suas instalações, recomendando aos funcionários que optem por ter garrafa própria reutilizável ou chávenas, para beberem a sua água. Além disso, o CNE “deixou de utilizar talheres e pratos descartáveis nos eventos”.

Enquanto que 53% dos inquiridos dizem que utilizam já papel reciclado nos seus serviços, o colégio jesuíta das Caldinhas, de Santo Tirso, e a Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais no polo de Braga da UCP, indicaram terem abolido de vez o papel e optado por comunicações sempre pela via digital para poupar papel.

No que diz respeito à água, há várias boas práticas, com a introdução de torneiras de redução do caudal, que permitem poupanças de cerca de 50% no consumo, uma decisão já praticada pela maioria dos inquiridos, mas também com o reaproveitamento de água das chuvas, como o que o CNE faz em alguns dos seus agrupamentos, ou as Servas de Nossa Senhora de Fátima, que guardam as águas de lavagem em reservatórios no jardim para a rega.

Projectos maiores são os do Santuário de Fátima e da UCP, que estão a elaborar estudos dos lençóis de água freáticos para aproveitamento das águas, ou os Focolares, que fizeram um furo para a rega.

A comunidade Pedro Arrupe, dos Jesuítas de Braga, começou a confeccionar os seus próprios detergentes caseiros, uma medida sustentável que permite poupanças enormes e muitos benefícios para o meio ambiente.

Para além disto, como já referido no texto sobre as principais conclusões do inquérito, são muitas as instituições inquiridas que indicam já possuir alguma espécie de utilização de energia renovável: quase 90% diz que tem algum tipo de painel solar ou mesmo moinho para aproveitamento da energia eólica.

Uma referência final ao projecto da horta Laudato Si’, promovida pelo bispo do Algarve, D. Manuel Quintas, na casa episcopal. Apesar de não ter sido referida nas respostas ao inquérito, ela pode ser conhecida através de uma reportagem da agência Ecclesia.

 

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