Cirilo omite guerra na mensagem pascal

Bartolomeu: cristãos não podem calar-se sobre a Ucrânia

| 23 Abr 2022

O Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I. Foto © Nir Hason

O Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu, recorda o que viu na Polónia, para falar da Ucrânia. Foto © Nir Hason

 

“‘O anúncio radiante da ressurreição’ e o ‘Cristo ressuscitou’ ecoam hoje [misturados] com o estrondo das armas, com o grito de angústia das vítimas inocentes da violência da guerra e dos refugiados, entre os quais um grande número de crianças inocentes” – afirma o Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, na sua mensagem para a festa da Páscoa que, de acordo com o calendário juliano, se celebra este domingo no universo das igrejas ortodoxas.

A mensagem, prevista para ser lida na liturgia das igrejas que dependem do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla recorda que “a Ressurreição [de Jesus] é o núcleo da fé, piedade, cultura e esperança dos ortodoxos”.

Sublinha, por outro lado, que a festa da Páscoa não é, para os ortodoxos, “uma fuga temporária da realidade terrena e suas contradições”, mas é (…) a certeza vivida de que Cristo é a liberdade que liberta, o fundamento, a espinha dorsal e o horizonte” da vida. Existe, assim, “a garantia de que diante de obstáculos intransponíveis e becos sem saída, onde não se vislumbra uma solução para o homem, há esperança e perspetiva” e que “o mal, em todos os seus aspetos, não tem a última palavra no caminho da humanidade”, salienta Bartolomeu.

E é neste contexto que o líder espiritual da Igreja Ortodoxa coloca a tragédia que se desenrola desde final de fevereiro na Ucrânia.

No texto, o Patriarca começa por recordar o que viu com os seus próprios olhos, durante a sua recente visita à Polónia, onde o maior número de refugiados da Ucrânia foram acolhidos.

“Compartilhamos a dor com o fiel e valoroso povo ucraniano, que carrega uma pesada cruz, rezamos e lutamos pela paz e pela justiça e por aqueles que não as têm”, afirma o Patriarca, para deixar este grito: “É inconcebível, para nós cristãos, ficarmos calados diante da degradação da dignidade humana.”

Nesta linha, lamenta que a humanidade, na sua longa história, não tenha “sido ainda capaz de abolir a guerra, porquanto, “com as vítimas dos confrontos armados, o ‘grande perdedor’ das guerras é a própria humanidade”.

“A guerra não só não resolve problemas, como cria novos e mais complexos. Semeia divisão e ódio, aumenta o fosso entre os povos”, defende o Patriarca de Constantinopla. É seu entendimento que, perante a guerra, “a Igreja de Cristo, por sua própria natureza, atua como pacificadora”.

 

Cirilo alerta para “inimigos da unidade”
patriarca cirilo igreja ortodoxa russa. Foto_ Oleg Varov_Igreja Ortodoxa Russa

O Patriarca Cirilo diz que o amor cura as feridas causadas pelo mal, mas nunca se refere à invasão da Ucrânia. Foto © Oleg Varov/Igreja Ortodoxa Russa

 

De comum com a mensagem pascal de Bartolomeu, a mensagem difundida este sábado, 23, pelo Patriarca Cirilo, de Moscovo “e de todas as Rússias”, tem apenas os princípios doutrinais.

Apesar de ter sido a Rússia, apoiada na Bielorrússia, a invadir um país soberano e de ter vindo a criar, nos dois últimos meses, uma tragédia humanitária e um rasto de crimes de guerra, o assunto não mereceu qualquer referência ao líder da Igreja Ortodoxa Russa. O texto foca-se pelas generalidades: “À luz da Páscoa, tudo se transforma: o medo desaparece, junto com o sentimento de impasse causado pelo luto, pela tristeza e pelos caprichos da vida.” E acrescenta: “Mesmo as circunstâncias difíceis de nossos tempos conturbados parecem perder sua gravidade diante da perspetiva da eternidade diante de nós.”

O que se poderia aproximar do martírio que vive o povo ucraniano, foi colocado na mensagem patriarcal como um tema genérico e sem contexto: “Hoje, quando o mundo está dilacerado por conflitos e confrontos, quando o ódio, o medo e a hostilidade atormentam muitos corações, não esqueçamos a nossa vocação cristã, demos testemunho aos nossos entes queridos de que só o amor cura as feridas causadas pelo mal e injustiça.”

O texto termina no mesmo tom, a centrar as atenções num inimigo externo que ameaçaria a Igreja a que ele preside: “Não sucumbamos à tentação diante do inimigo da humanidade, que procura destruir a unidade entre os cristãos ortodoxos. Oro fervorosamente ao Senhor Jesus, conquistador da morte, e convido a elevar também a Ele orações fervorosas, para que os muros sejam derrubados, que uma paz sólida possa triunfar e que as feridas das divisões sejam curadas pela graça divina.”

Cirilo tinha recebido vários apelos no sentido de aproveitar a mensagem pascal para apelar a um cessar-fogo. Tanto o Papa Francisco, como o Patriarca Bartolomeu, como o secretário-geral da ONU, António Guterres, apelaram a que, a pretexto da Páscoa, fosse acordado um cessar-fogo na Ucrânia. Apenas o governo de Kiev se manifestou aberto a essa possibilidade.

 

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