Bartolomeu dos Mártires: um novo santo grande evangelizador, modelo de bispo e opositor da Inquisição

| 10 Nov 19 | Cristianismo - Homepage, Igreja Católica, Newsletter, Últimas

E se Bartolomeu dos Mártires vier a ser, depois de canonizado, um doutro da Igreja? Há quem pense que esse é o caminho natural para o “grande sábio” que neste domingo, em Braga, viu o seu nome formalmente inscrito no livro dos santos católicos. Um bispo modelo de “grande evangelizador e pastor”, disse o Papa Francisco, que se opôs à Inquisição e aos seus métodos infamantes.

A fachada da sé de Braga com o quadro de frei Bartolomeu dos Mártires. Foto cedida por © LFS/Agência Ecclesia

 

O Papa Francisco olha para o novo santo português, frei Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga no século XVI, como um “grande evangelizador e pastor”. Na sua alocução do Angelus, ao início da tarde deste domingo, 10 de Novembro, em Roma, o Papa afirmou, citado pela agência Ecclesia: “Hoje, em Braga, Portugal, celebra-se a missa de ação de graças pela canonização equipolente de São Bartolomeu Fernandes dos Mártires. O novo santo foi um grande evangelizador e pastor do seu povo.

“O Papa Francisco acabou por descobrir que Bartolomeu dos Mártires tinha vivido, na sua pessoa e na sua acção, o projecto da reforma da Cúria, do conjunto da Igreja e o tinha precedido no combate ao vírus do carreirismo eclesiástico. A sua vida foi um milagre. Não era preciso esperar outro para o canonizar”, comentou por seu turno frei Bento Domingues, dominicano como Bartolomeu dos Mártires, na sua coluna dominical no Público.

 

“Personagem de primeiro plano”

Também na edição deste sábado do L’Osservatore Romano, jornal do Vaticano, Gianni Festa, postulador geral da Ordem dos Pregadores (dominicanos) escreve que o agora novo santo português é “um personagem de primeiro plano da história da Igreja [Católica] da primeira Idade Moderna”, tendo encarnado “o modelo de novo bispo” que a Reforma católica tridentina propunha, no dizer do historiador Hubert Jedin.

O arcebispo de Braga foi um dos mais destacados participantes da última sessão do Concílio de Trento (1543-1563). Em 1845 foi declarado venerável pelo Papa Gregório XVI e a 4 de Novembro de 2001 João Paulo II beatificou-o. Em Julho, o Papa Francisco dispensou a necessidade de milagre e decidiu pela sua canonização, neste domingo formalizada em Braga.

“A expansão do seu culto para além dos confins da arquidiocese de Braga e a relevância eclesial da sua santidade e da incidência do seu ensinamento sobre a prática cristã e sobre a evangelização” levaram o Papa a incluir o nome do antigo arcebispo de Braga na lista dos santos, disse o cardeal Angelo Becciu, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, na homilia da missa em que foi lido o decreto de canonização.

 

Inquisição fora de Braga

Aspecto menos conhecido da acção de frei Bartolomeu dos Mártires foi a sua oposição mais ou menos declarada à Inquisição. Numa dissertação de mestrado apresentada em Agosto de 2015 na Universidade Católica Portuguesa, Francisco Carvalho Rosado socorre-se sobretudo de historiadores como José Pedro Paiva e Giuseppe Marcocci para sublinhar: “Enquanto D. Frei Bartolomeu foi Arcebispo de Braga (1559-1582), a Inquisição portuguesa actuou de forma extremamente limitada no território da Arquidiocese, sobretudo se compararmos com o que aconteceu noutras dioceses do Norte.”

Bartolomeu dos Mártires, ele próprio dominicano, como muitos dos inquisidores, “não lidava bem com o rigor e falta de caridade cristã que se praticava no tribunal da fé”, acrescenta o texto citado.

“Ele acreditava profundamente na natureza humana, e achava que todo o homem deveria ter sempre uma oportunidade de sair de um comportamento desviante, e essa responsabilidade deveria ser pastoral e não inquisitorial.”

Francisco Carvalho Rosado recorda que a chegada de Bartolomeu dos Mártires à diocese de Braga acontece num período de “dureza crescente” da Inquisição, em que o debate sobre a relação dos bispos com o tribunal do Santo Ofício também estava bem vivo. A Inquisição passara a perseguir as que ao tempo eram consideradas heresias religiosas – judaísmo, protestantismo, islão –, bem como supostas feitiçarias e bigamia, além do contrabando com muçulmanos e sodomia, como recordava José Pedro Paiva, num artigo da revista Lusitania Sacra (2003) citado na dissertação referida.

 

E agora, doutor?

“Para o Arcebispo era claro que a sua posição diferia do procedimento inquisitorial onde, normalmente, se aplicavam penas infamantes e muito duras”, acrescenta Francisco Rosado. “Na sua função episcopal, o dominicano defendia a utilização de métodos muito distintos dos aplicados pelo Santo Ofício. Apesar da inexistência de um conflito aberto, na postura adoptada pelo Arcebispo, confundiam-se um projecto de uniformização da fé baseado na pedagogia e na misericórdia e a defesa da autoridade episcopal frente aos inquisidores.”

Esta estratégia levou mesmo Giuseppe Marcocci a publicar, na Revista de História da Sociedade e da Cultura (2009) um texto sobre o “caso de inquisição pastoral” que Bartolomeu dos Mártires protagonizaria.

Resume a dissertação: “Nos anos do pontificado de D. Frei Bartolomeu, a Inquisição não conseguiu entrar na Arquidiocese de Braga, onde D. Frei Bartolomeu implementou as ideias reformadoras saídas de Trento. Os seus visitadores diocesanos eram instruídos, para encontrarem o justo equilíbrio entre os pecados de fé e as absolvições tal como Trento lhes facultara. Esta era a correcção fraterna desejada pelo Arcebispo, que considerava sempre a possibilidade de arrependimento do ser humano antes de envolver a Inquisição. O poder pastoral do arcebispo era visível no encontro de proximidade com cada fiel, procurando o sentido da salvação da sua alma.”

É este homem e bispo que, na opinião de alguns, pode bem chegar a ser proclamado “doutor da Igreja” Católica. Tendo escrito 30 obras (16 impressas e 14 manuscritas), Bartolomeu dos Mártires é um “grande sábio”, na opinião do padre José Paulo Abreu, cónego da sé de Braga. Os Escritos Teológicos ou o Comentário aos Salmos, por exemplo, são “obras de excelência”. Por isso, acrescenta o tambºem presidente do Instituto de História e Arte Cristã, não seria de admirar que depois da canonização se seguisse a proclamação de Bartolomeu dos Mártires como “doutor da Igreja”:

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

A mulher que pode ter autoridade sobre os bispos

Francesca di Giovanni, nomeada pelo Papa para o cargo de subsecretária da Secção para as Relações com os Estados, considerou a sua escolha como “uma decisão inovadora [que] representa um sinal de atenção para com as mulheres.

Papa considera “superado” episódio do livro sobre celibato

O Papa Francisco terá considerado ultrapassado o episódio do início desta semana, a propósito do livro sobre o celibato, escrito pelo cardeal Robert Sarah, da Guiné-Conacri, e o Papa emérito Bento XVI (ou que o cardeal escreveu sozinho, usando também um texto de Ratzinger).

Henrique Joaquim: “Assistencialismo não tira da rua as pessoas sem-abrigo”

“O assistencialismo não tira a pessoa da rua, não resolve o problema; ainda que naquela noite tenha matado a fome a uma pessoa, não a tira dessa condição”, diz o gestor da Estratégia Nacional de Integração dos Sem-abrigo, Henrique Joaquim, que esta quinta-feira, 2 de Janeiro, iniciou as suas funções.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

A viagem começou a 3 de Fevereiro, diante da Sé do Porto: “Quando estacionámos o jipe em frente à catedral do Porto, às 15h30, a aragem fria que fustigava o morro da Sé ameaçava o calor ténue do sol que desmaiava o seu brilho no Rio Douro.” Terminaria doze dias depois, em Bissau: “Esta África está a pedir, em silêncio e já há muito tempo, uma obra de aglutinação de esforços da comunidade internacional, Igreja incluída, para sair do marasmo e atonia de uma pobreza endémica que tem funestas consequências.”

É notícia

Entre margens

Beleza e ecumenismo

A junção de beleza e ecumenismo evoca a luxuriante diversidade num jardim. A beleza tem afinidades com a surpresa: é a vitória sobre o banal, o monótono.

Cultura: novas histórias e paradigmas…

“Torna-se necessária uma evangelização que ilumine os novos modos de se relacionar com Deus, com os outros e com o ambiente, e que suscite os valores fundamentais” – afirma a exortação pastoral Evangelii Gaudium. Na mesma linha em que o Papa João XXIII apelava ao reconhecimento da importância dos “sinais dos tempos”, o Papa Francisco afirmou que: “É necessário chegar aonde são concebidas as novas histórias e paradigmas, alcançar com a Palavra de Jesus os núcleos mais profundos da alma das cidades.

Cultura e artes

Cinema: À Porta da Eternidade novidade

O realizador Julian Schnabel alterou, com este filme, alguns mitos acerca de Vincent van Gogh, considerado um dos maiores pintores de todos os tempos. Os cenários, a fotografia e a iluminação do filme produzem uma aproximação visual às telas do pintor, no período em que van Gogh parte para Arles, no sul de França, em busca da luz, seguindo todo o seu percurso até à morte, aos 37 anos de idade.

Que faz um homem com a sua consciência?

Nem toda a gente gosta deste filme. Muitos críticos não viram nele mais do que uma obra demasiado longa, demasiado maçadora, redundante e cabotina. Como o realizador é Terrence Malick não se atreveram a excomungá-lo. Mas cortaram nas estrelas. E no entanto… é um filme de uma força absolutamente extraordinária. Absolutamente raro. Como o melhor de Mallick [A Árvore da Vida].

Sete Partidas

Guiné-Bissau: das “cicatrizes do tempo” ao renascer do povo

Este mês fui de visita à Guiné. Uma viagem de memória para quem, como eu, não tinha memórias da Guiné. Estive em Luanda ainda em criança, mas as memórias são as próprias da idade. Excepção à única em que o meu pai me bateu. Às cinco da tarde saí de casa e às dez da noite descobriram-me a assistir, divertida, ao baile no clube. Uma criança de cinco anos, branca e loura, desaparecida na Luanda dos anos 1960 não augurava coisa boa, o que gerou o pânico dos meus pais. Daí a tareia…

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Jan
21
Ter
Viagem pela Espiritualidade – Conversa com Luís Portela @ Fund. Engº António de Almeida
Jan 21@18:15_19:15

Conversa em torno do livro Da Ciência ao Amor – pelo esclarecimento espiritual, de Luís Portela, com apresentação de Guilherme d’Oliveira Martins e a participação de Isabel Ponce de Leão, Luís Carlos Amaral, Luís Miguel Bernardo, Luís Neiva Santos,
Manuel Novaes Cabral e Manuel Sobrinho Simões

Jan
23
Qui
Encontros de Santa Isabel – “Jesus, as periferias e nós” @ Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa
Jan 23@21:30_23:00

Conferência sobre “Periferias”, com Isabel Mota, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian

Jan
30
Qui
Encontros de Santa Isabel – “Jesus, as periferias e nós” @ Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa
Jan 30@21:30_23:00

Debate sobre “Aqui e agora”, com Luís Macieira Fragoso e Maria Cortez de Lobão, presidente e vice-presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco