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Atagoyama in Spring (1930s), pormenor, de Kawase Hasui

Bastará a gentileza contra a barbarização do pensamento?

| 07/09/2024

 

Há tempos, ao visitar a excelente exposição permanente da Fundação Cupertino de Miranda, intitulada «Torre Literária: Louvor e Simplificação da literatura portuguesa», com a curadoria competentíssima de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen, saltou-me à vista um breve trecho desse grande cronista e poeta do tempo que é Alexandre Herculano, que dizia o seguinte:

É contra a índole destruidora dos homens de hoje que a razão e a consciência nos forçam a erguer a voz e a chamar, como o antigo eremita, todos os ânimos capazes de nobre esforço para nova cruzada. Ergueremos um brado a favor dos monumentos da história, da arte, da glória nacional, que todos os dias vemos desdobrar em ruínas. Esses que julgam progresso apagar ou transfigurar os vestígios venerandos da antiguidade que sorriam das nossas crenças supersticiosas; nós sorriremos também, mas de lástima, e as gerações mais ilustradas que hão de vir decidirão qual destes sorrisos significava ignorância e a barbaridade, e se não existe uma superstição do presente como há a superstição do passado.1

A consciência literária de uma crise agudizada da nossa civilização, de um mal-estar indesmentível, cujas causas são múltiplas e os sintomas já quase irremediáveis, evidencia a existência de uma barbarização do pensamento, de um estado generalizado de crise espiritual. Dizemos aqui espiritual no sentido amplo do termo, de uma certa falência do entendimento e da compreensão racional das questões e dos problemas humanos. É diante de uma crescente barbárie do nosso próprio modo de ser humanamente, uma espécie de regressão sofisticada, que o novo livro do físico e cosmologista Carlo Rovelli se ergue como um grito pungente da «razão e da consciência» contra todo o tipo de exclusivismos assentes nessa famigerada e trágica posição generalizada que afirma «só eu é que sei». Este cientista-humanista, leitor atento de poesia e de filosofia, espécie rara hoje, mas que remonta à mais alta tradição do pensamento secular, continua «a acreditar que este mundo cada vez mais assolado pela guerra, violência, desigualdades sociais, extremas, intolerância, grupos nacionalistas, raciais e locais que se fecham na sua própria identidade uns contra os outros, não é o único mundo possível. E talvez não esteja sozinho».2

 

Atagoyama in Spring (1930s), de Kawase Hasui

Na verdade, o que poderá estar a motivar esta onda de «mesmidade» ou de narcisismos raciais hiperindividualistas que parece varrer hoje a humanidade, de sobremaneira as ditas sociedades avançadas, sem espaço para permeabilidade, para o traduzível, para o intercâmbio, para aprender e construir algo a partir da diferença, de misturar em vez de separar? Qual a origem de toda esta decadência moral que invés de procurar dialogar e de encontrar a estreita brecha da intersubjectividade humana procura a morte do próximo? A par das múltiplas explicações plausíveis e críveis, desde a sociologia à tecnologia passando pela psicologia, há uma evidência inegável que é o fundamento de todo este derrame, que é a perda do absoluto, essa profecia nietzschiana cujos efeitos se fariam sentir por duzentos anos, que é declaração teórica e prática da «morte de Deus». Talvez um dos grandes pensadores que mais evidenciou as trágicas consequências dessa perda ou ausência foi o ilustre agnóstico George Steiner, em particular no mundo da literatura e das artes pós-modernas.

Contra toda a esperança, os príncipes iluminados julgavam que matando Deus facilmente se encontraria um substituto à altura, neste caso o capitalismo tecnológico ou velho comunismo materialista. Pensava-se também que a evolução da humanidade para um estágio superior de racionalidade com a morte das antigas mitologias traria uma consciência moral aguda e quase perfeita, radicada num naturalismo ou imanentismo extremo sem qualquer Absoluto. É esta fábula iluminista que ridicularizou todas as mitologias antigas que falhou por completo, e hoje, após a morte da divindade religiosa, ficamos sem Deus e sem a razão. A frase dostoievskiana – se Deus está morto, tudo é permitido – ou a expressão nietzschiana – não há factos, apenas interpretações – são precisamente a expressão da atmosfera espiritual e de práticas generalizadas que vivemos hoje, mesmo se em contramão à literalidade do sentido dessas expressões. Diante da proliferação da mentira e da manipulação digital em larga escala, e de proliferação veloz desses actos, teremos de dizer que há factos e há interpretações, mas sobretudo que há um caminho ou um método para lá chegar. Se há factos ou acontecimentos (contra o hipersubjectivismo), também há evidentemente interpretações possíveis e plausíveis (contra o positivismo).

Imagem: Evening Cherry Blossoms at Mt. Goten [1830-183], de Utagawa Hiroshige.

Evening Cherry Blossoms at Mt. Goten [1830-183], de Utagawa Hiroshige.

Certamente que as mentes mais brilhantes, os génios da ciência, os homens e mulheres cultivados poderão prescindir da hipótese de Deus e de todo o imaginário que o conceito ou a experiência vivida da transcendência sacra implica. A questão que se coloca consiste em saber se humanidade na sua totalidade pode prescindir da ideia de Deus ou da sua experiência religiosa concreta, se o enfraquecimento desta instituição humana não está precisamente na origem da ausência de articulação e de coesão da sociedade como um todo, independentemente das convicções e formas de pensar próprias de cada vida singular. Nesse sentido, poderá a ciência, o desporto, a arte ou a política substituir-se simplesmente à religião enquanto experiência espiritual, moral e religiosa de Deus? Não, não podem, porque a experiência religiosa, seja ela qual, é intrínseca ao ser humano, à arte, à política, à ciência, à moral e, portanto, erradicável, sob pena de se exacerbar a desumanização do humano, como facilmente se verifica em regimes que procuram essa morte ideológica da expressão religiosa dos seres humanos.

Uma das fontes de erro do entendimento hodierno está claramente na ostracização de tudo o que respira a intelectual, de tal forma que o intelectual se retirou para o seu ermitério, sem espaço nem pertinência pública no tempo presente. O intelectual, não no sentido snob ou aburguesado do termo, mas o intelectual-profeta, o humano culto e sapiencial que não despreza nem as coisas de ciências nem as coisas de poesia, nem os factos nem a imaginação, nem o belo nem a procura da verdade do ser. O espírito bárbaro pode, de facto, acometer a todos, do menos ilustre ao mais letrado: «Ouvir uma pessoa culta dos nossos dias fazer piadas, quase com arrogância, a respeito da sua ignorância científica é tão triste quanto ouvir um cientista que se vangloria de nunca ter lido poesia. A poesia e a ciência são criações do espírito que possibilitam novas maneiras de pensar o mundo para o compreendermos melhor.»3

A Ilha do Anjo [Moledo, 2021], de Pedro Figueiredo

A Ilha do Anjo [Moledo, 2021], de Pedro Figueiredo

Uma vez mais, o que teremos de combater, hic et nunc, mesmo no conhecimento e nos diversos âmbitos do saber, é o exclusivismo e dogmatismo puritanos, como se houvesse uma ciência que reduzisse tudo o resto a si mesma, como acontecia outrora com a metafísica. Só na comunicação da diferença poderemos alcançar algo de novo, que seja humanamente plausível e capaz de fustigar as pseudoverdades e as posições fake dos Górgias do nosso tempo. É nesse encontro da diversidade e da sua habitação podemos aproximarmo-nos um pouco mais do ponto de luz da complexidade e do mistério do mundo e assim afastarmos as superstições do passado e do presente que impede uma autêntica compreensão da realidade. 

E para isso, sim, a gentileza é o ponto inicial, a condição necessária, mas não a condição suficiente, dado que há uma perda dessa mesma consciência gentil, pois só escavando a fundo a natureza deste mal-estar civilizacional, outrora atribuída à ilusão religiosa ou ao conceito judeo-cristão de Deus, mas hoje sem Deus e sem religião, persistindo e até agravado esse mal-estar nunca suplantado, como nunca se suplanta uma morte de alguém amado e desejado, a quem atribuir essa decadência do mundo ou barbarização do humano? Talvez a sua resistência espectral, presença-ausência, seja o ponto zénite a partir do qual algo novo poderá recomeçar ou vir, pois, como dizia ainda Nietzsche, em Humano, demasiado humano, «tal como se abandonou a religião, mas não as elevações e exaltações do espírito através dela».4 Transmutado ou não, imaginário ou real, esse espectro do Absoluto é o que nos restará como réstia permanente de um porvir?

Notas:
1 — Alexandre Herculano, «Monumentos Pátrios», in Alexandre Herculano, Opúsculos, Tomo II, Bertrand, Lisboa, 1873, p. 6.
2 — Carlo Rovelli, Há lugares no mundo onde a gentileza é mais importante do que as regras. E outras ideias sobre física, filosofia e o mundo, Objectiva, Lisboa, 2024, p. 46.
3 — Carlo Rovelli, Há lugares no mundo onde a gentileza é mais importante do que as regras, p. 57.
4 — Friedrich Nietzsche, Humano, demasiado humano, Relógio d’Água, Lisboa, 1997, § 222, p. 204.

João Paulo Costa é presbítero católico e investigador em filosofia no CECH da Universidade de Coimbra. Autor de Indícios – à escuta dos traços de Deus (UCP editora, 2016) e de À Sombra do Invisível – fragmentos de um crer sapiencial (Documenta/Sistema Solar, 2020).

 

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