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Bater o coração com novas músicas de Abril

| 22/11/2020

As canções de intervenção como Vejam bem ou a Canção de Embalar”, de Zeca Afonso, a Trova do Vento que Passa, na letra de Manuel Alegre e voz de Adriano Correia de Oliveira, Cálice ou Tanto Mar, de Chico Buarque, sempre mexeram comigo. Ouço-as e tenho um sentimento profundo que me emociona e me transporta para uma época e estado de circunstância que nunca vivi.

Sempre sonhei acordada: como seria se eu tivesse nascido e vivido antes do 25 de Abril? O que faria, que personagem era, quem seria eu dentro de um estado onde parte das minhas liberdades, direitos e garantias eram reduzidos ou inexistentes, se não tivesse a liberdade de conversar com quem eu queria, sobre o que queria? Ou ouvir qualquer tipo de música que me agrada e me faz pensar, ler os livros que bem entendo, dar a minha opinião acerca do que me rodeia?

Brinco muitas vezes com a minha mãe e digo, que se vivesse nesse tempo, ela já não teria esta sua filha. Esta seria a personagem que gosto de, na minha imaginação, talvez inocência, achar que eu teria sido, na época, algum dos heróis mártires escondidos de que tão pouco se fala como Ribeiro dos Santos, fazer parte dos “bons” e corajosos como nos desenhos animados – mas na vida real…

Mas que sei eu sobre o que é ser perseguido, ter medo, ser torturado, violado?

Que sei de sofrer alguma destas coisas (ou várias) e continuar a lutar pelos “direitos de ser” do meu povo?

Parece disparate, anti-natura até, visto que a nossa biologia tende a afastar-se de qualquer perigo que nos possa fazer sofrer principalmente a nível físico. Nunca saberei, poderia perfeitamente ter sido a pessoa que fingia não se aperceber de nada e simular uma felicidade ignorante ou emigrar como, humanamente, tantos o fizeram.

Mas será que as músicas de intervenção estão ligadas a uma época ou um tempo? As causas e os valores de fundo da intervenção desapareceram com a revolução? Podemos dizer que este é o Portugal que imaginamos, com 46 anos de democracia? O que podemos dizer da liberdade, da dignidade da pessoa humana, da igualdade?

Terão desaparecido as músicas de intervenção após a revolução?

Na crise económica de 2010-2014, altura em que a troika esteve em Portugal, apareceram novas músicas de intervenção: lembro Eu Esperei, de Tiago Bettencourt, ou Que Parva Que Eu Sou dos Deolinda:

Tenho notado na actualidade que elas são cada vez mais, multiplicam-se na música portuguesa, do fado à electrónica, e o meu coração aperta-se ou explode de força interventiva do mesmo modo como quando ouvia Zeca Afonso: Luísa Sobral, Como era habitual, Fado Bicha Lisboa Não Sejas Racista, Luta Livre (de Luís Varatojo) Ninguém Quer Saber ou O Problema é o Sistema”; e, agora em voga, Rua Poço dos Negros, do Valete.

Os temas são a sustentabilidade, a sociedade capitalista desumanizante da pessoa e a desigualdade racial, que surge em vários casos em Portugal, em paralelo com o resto do mundo.

Este novo despertar das músicas de intervenção deve-nos questionar: porquê agora?

Não vivemos o pós-revolução?

Enquanto há causas e artistas, há músicas de intervenção. Enquanto não vivermos plenamente os ideais presentes na Constituição há causas; diria até: enquanto não estivermos a viver plenamente o Reino dos Céus (o reino de paz, justiça, alegria e amor), haverá músicas.

Talvez as músicas de intervenção nunca tenham desaparecido verdadeiramente mas vêm aí tempo difíceis e de escolha, e elas aumentam.

A história é a única aliada que nos pode assegurar não cometer os mesmos erros passados, em que escolhemos o seguro, o igual a mim, o afastar do diferente, o colocar medo nas pessoas por uma ameaça externa (doença, raça, grupo) e, através desse medo, em nome da segurança, ceder as nossas liberdades e garantias até as perdermos totalmente para o Estado; foi assim que começaram muitas das ditaduras, foi assim que se desenvolveram e continuam.

Espero que este cenário não aconteça em Portugal, e que possamos ter um país com igualdade de oportunidades e possibilidades para todas as etnias, em que todos, neste país maioritariamente cristão, possam tratar com respeito e dignidade o seu irmão de outra raça, grupo étnico ou religioso diferente. Este é o Portugal de Abril, hospitaleiro, de boas gentes, costumes, livre e em que todos são iguais em dignidade e direitos.

Até lá vai batendo o meu coração com novas músicas de Abril. Que bom!

 

Catarina Sá Couto é missionária leiga da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, “jovem líder” da Carta da Terra e representante em Portugal dos Green Anglicans – Rede Lusófona

 

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