Batismo e outras aproximações à mensagem evangélica

| 20 Abr 19 | Entre Margens, Últimas

Saber que nasci num sábado e que, oito dias depois, a um domingo, fui baptizado, é lembrança que não é minha, mas que me diz respeito, guardada até hoje por ser acontecimento importante na minha vida.

Valorizo a vizinhança da igreja que fica a menos de cem metros da casa onde nasci eu e mais nove irmãos e irmãs.

Recordo o que aprendi na Bíblia, na catequese e em casa, primeira comunhão, festas religiosas e a espiritualidade luminosa da infância e adolescência. Destaco a comunhão solene, precedida de retiro. Continuo, aliás, a apreciar silêncio e recolhimento.

Valorizo a decorrente prática religiosa, toda a ambiência familiar e de aldeia, como referenciais.

Ser baptizado é dado inquestionado. Constituiu porta de entrada num universo onde tudo fazia sentido, meada do existir.

Ao longo de oito décadas, mesmo nas três ou quatro dezenas em que a prática religiosa esteve entre parêntesis ou suspensa, nunca esqueci a data do baptismo, embora isso não tenha dado lugar a acto celebrativo; para além do crisma, assumido como sua confirmação, quando adolescente. O dia que festejo, e não raro de forma frugal, é a do nascimento.

Quando há uma década retomei a prática religiosa, sem a rigidez de outros tempos, tudo pareceu óbvio pois o batismo continuava vivo e atuante.

Apesar da vivência cristã assentar na qualidade de baptizado, hoje quero acreditar que a salvação pode acontecer, independentemente da pessoa ter acesso ou não a uma dada prática religiosa ou confessional.

Acredito que a “salvação” se dirige e abarca todo o ser humano que aja em consciência e em honestidade perante Deus ou que o tente, segundo a cultura social e valores em que viveu ou vive.

A questão do baptismo das crianças não constitui, nem a favor ou contra, um problema a dirimir. Inclino-me para que o baptismo seja acto consciente e livre, o que teria de acontecer em idade adequada. Exigirá um processo de maturação para ser assumido e ganhar consistência.

A verdade é que não cuidámos de baptizar o filho, quando o distanciamento da Igreja formal estava fresco, apesar de, nessa década de 1970, ter vivido experiência marcante em comunidade de padres operários, em Paris, a que não faltava a amizade de homens e mulheres.

Não bastou para procedermos ao seu baptismo, ficando adiamento sem dia, nem estados de alma, embora a família mais próxima preferisse a tradição, e pressentíssemos insinuação discreta, como se fora um pesar.

Decisivo foi o não querer comprometê-lo, desde o nascimento, com a confissão de uma fé, mesmo que fosse a nossa e continuássemos a considerá-la a nossa.

Se perguntarem se gostaria de ver netos a beneficiarem duma educação cristã, livre, aberta, sem medo de infernos ou purgatórios, nem a invocação de qualquer pecado original, mas assente na prática efectiva do sermão das bem-aventuranças, da dádiva generosa do Samaritano e do melhor do Evangelho, com certeza que ficaria contente.

Porventura, veleidade de pessoa que tem a vida vivida. Certamente, convicção da mensagem evangélica continuar actual e vivificante, capaz de incarnar, em cada tempo e lugar, o melhor da humanidade.

Artigos relacionados

Breves

Encontro de artistas portugueses com músicas do grupo Gen Verde

Um encontro de artistas de várias áreas, que sejam sensíveis às dimensões do Sagrado, da Beleza e do Bem Comum, está convocado para a tarde deste sábado, 18 de Maio, entre as 16h30 e as 18h, no Auditório da Igreja São Tomás de Aquino (Laranjeiras), em Lisboa.

Bolsonaro contestado por cortes na Educação

As ruas de mais de duas centenas de municípios em 26 estados brasileiros foram tomadas esta quarta-feira, 15 de maio, por manifestações que registaram a participação de centenas de milhares de estudantes e professores.

Televisão: Fátima vence Cristina

As cerimónias da peregrinação de 13 de maio a Fátima, transmitidas pela RTP1, conquistaram 381 mil espectadores, deixando o programa Cristina, da SIC, a grande distância (317 mil).

Boas notícias

É notícia 

Entre margens

Vemos, ouvimos e lemos…

O centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen é especial, muito para além de mera comemoração. O exemplo de cidadania, de talento, de ligação natural entre a ética e estética é fundamental. De facto, estamos perante uma personalidade extraordinária que é lembrada como referência única, como um exemplo que fica, que persiste.

Europeias 2019: Não nos tires as tentações

Estamos em crise, sim. Que bom. Porque é tempo de escolher e definir caminhos. Ao que parece, a última braçada de bruços perdeu balanço e é a nossa vez de dar o próximo impulso. Com a liberdade de questionar o inquestionável, herdámos o peso da responsabilidade. Mas desde quando desligar o automático é mau?

Cultura e artes

Coro do Trinity College de Dublin em Lisboa para concerto e eucaristia

Neste sábado e domingo, 18 e 19 de Maio, Lisboa acolhe dois concertos do Coro da Capela do Trinity College de Dublin (Irlanda). Às 17 horas de sábado, o coro dará um concerto de música sacra na Sé de Lisboa; no domingo, participa na eucaristia dominical na Catedral Lusitana de S. Paulo em Lisboa (Comunhão Anglicana), com início às 11h00 (Rua das Janelas Verdes).

Teatro: À espera de um jogo de espelhos em Goga

Entra-se e estão as 23 personagens no palco. Em rigor, esse número inclui as personagens e os seus espelhos. Estão fixas, rígidas. São um quadro que se deve olhar, de modo a reparar em todos os pormenores. Porque está o corcunda Teobald de livro na mão? Porque há um homem e uma mulher com malas?

Sete Partidas

A Páscoa em Moçambique, um ano antes do ciclone – e como renasce a esperança

Um padre que passou de refugiado a conselheiro geral pode ser a imagem da paixão e morte que atravessou a Beira e que mostra caminhos de Páscoa a abrir-se. Na região de Moçambique destruída há um mês pelo ciclone Idai, a onda de solidariedade está a ultrapassar todas as expectativas e a esperança está a ganhar, outra vez, os corações das populações arrasadas por esta catástrofe.

Visto e Ouvido

Uma criação musical para Quinta-Feira santa: O Senhor mostrou o poder do seu amor, de Rui Miguel Fernandes, SJ

Agenda

Mai
20
Seg
Conferências de Maio – “Os jovens chamados a transformar” – III – A justiça e a equidade, e a solidariedade entre as gerações @ Centro Nacional de Cultura
Mai 20@18:30_20:00

Participam Alice Vieira, escritora e jornalista; Carla Ganito, docente em Ciências da Comunicação na Universidade Católica Portuguesa; e Ana Barata; jovem licenciada em serviço social.

Mai
27
Seg
Conferências de Maio – “Os jovens chamados a transformar” – IV – “Os jovens descobrem Deus” @ Centro Nacional de Cultura
Mai 27@18:30_20:00

Participam Alfredo Teixeira, antropólogo e compositor, autor de Religião na Sociedade Portuguesa, Américo Aguiar, bispo auxiliar de Lisboa, e João Valério, arquitecto e músico.

Ver todas as datas

Fale connosco