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Beckett e o Advento

| 18/12/2019

Beckett e o Advento

by | 18 Dez 19 | Entre Margens, Últimas

O que é que o dramaturgo Samuel Beckett tem que ver com o Advento? Talvez nada. Ou talvez tudo. Depende de quem ou do que estamos à espera.

Na sua famosa peça de teatro À Espera de Godot, escrita no pós-guerra, o irlandês Samuel Beckett (1906-1989), que integrava a corrente conhecida como “teatro do absurdo”, apresenta uma humanidade sem rumo e sem condições para compreender a sua própria existência, despojada de um sentido. O dramaturgo, de família burguesa e protestante, revisita a condição humana numa perspectiva filosófica e num ambiente onde o tempo não se faz presente face à decrepitude física dos corpos e à degeneração físico-fisiológica. Ninguém como ele caracterizou a desilusão e o fracasso da humanidade naqueles dias de uma Europa completamente destruída.

Lembrei-me desta peça a propósito do Advento. Estranho? Não, porque Advento significa vinda ou chegada. O termo é latino (adventum) e também pode significar fundação ou criação de alguma coisa. Na fé cristã aplica-se às quatro semanas que antecedem o Natal, um período litúrgico evocativo da vinda de Jesus Cristo ao mundo há dois mil anos, em Belém da Judeia. É, portanto, um tempo de alegria para os cristãos, caracterizado pela preparação para as comemorações do nascimento de Cristo.

O evangelho de Lucas relata que um anjo apareceu a Maria numa visão, anunciando-lhe que em breve daria à luz um menino, o filho de Deus, que traria uma mensagem ao mundo e que seria a luz dos homens: “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (João 1:4) e luz para as nações: “Luz para iluminar as nações” (Lucas 2:32), na linha do profeta Isaías: “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” (Isaías 9:2). Esse tempo de espera é caracterizado hoje como Advento.

Nunca se chega a saber quem é o tal Godot de Beckett, nem sequer se existe, pois nunca chega; o que leva as duas personagens que supostamente o aguardam, os velhos vagabundos Vladimir e Estragon, a compensar a sua expectativa através de conversa vazia e sem sentido, discussões intermináveis e perguntas recorrentes que resultam em frustração crescente, por não permitirem respostas objectivas, de modo a tentar combater o tédio e preencher o vazio da existência, em dias sempre vazios e iguais. O autor faz-nos entender que esta liturgia dos dois que esperam até à exaustão e que os faz preencher o tempo é, afinal, o único sentido das suas vidas.

Ao contrário do que é habitual em teatro, À Espera de Godot não conta uma estória, não tem enredo, limitando-se apenas a focar uma situação estática num lugar desértico, desprovido de cor, onde apenas subsiste uma árvore e tendo como pano de fundo a luz que antecede o crepúsculo. Toda a atmosfera é de vacuidade e monotonia. Segundo alguma crítica, a intenção do dramaturgo não será mostrar o absurdo da existência do ponto de vista da interacção social, mas mais concretamente a perplexidade do encontro do ser humano consigo mesmo.

É aqui que o contraste é mais flagrante. O Advento representa o encontro do Homem com Deus através de Jesus Cristo: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1 Timóteo 2:5). É a partir desse encontro que o ser humano descobre um sentido existencial e se encontra consigo mesmo e com os outros.

A alegria desse encontro contrasta com a atmosfera de frustração da dupla dos “esperadores” patéticos de Beckett, que não sabem quem esperam, nem se o esperado Godot sempre chega ou não. Por isso o ambiente dos homens e mulheres de fé que celebram o Advento é tão contrastante com o das personagens desta peça.

Como escreveu J.T.Parreira: “A ausência de Godot, bem como numerosos outros aspectos da peça, deram origem a várias interpretações desde o dia da estreia teatral, ocorrida em Paris, em 1953.” Daí que, interrogado sobre o significado da peça, Beckett tenha afirmado: “Não posso explicar as minhas obras. Cada um deve averiguar por si próprio o que entende nelas.”

Alguns deduziram que Godot simbolizaria um Deus ausente em tempo de devastação e desesperança, mas, como diz Parreira: “Não temos forçosamente que ler Godot como sendo Deus, mas que esta peça não é ateísta, não é. Até porque um dia Beckett, entrevistado, disse, cito de cor: ‘Se quisesse falar de Deus na peça, ter-lhe-ia chamado “Waiting for God” ou “En attendant God”.

Diz o ditado que quem espera desespera. Mas quem espera em fé nunca desespera. E aproveita esse tempo para preparar a alma a fim de receber Aquele que está para vir. Por isso o tempo litúrgico do Advento é tempo de purificação e não de resmungar.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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