Beleza e ecumenismo

| 19 Jan 20

A junção de beleza e ecumenismo evoca a luxuriante diversidade num jardim. A beleza tem afinidades com a surpresa: é a vitória sobre o banal, o monótono.

Acontece que uma espécie de medo ou acanhamento nos chega a impedir de sair de casa, de ver coisas diferentes do nosso pequeno mundo… até porque nos podemos perder, nos vários sentidos da palavra.

A relação com os outros é natural que gere alguma inquietação. Duvidamos, um bocadinho que seja, da qualidade das flores novas. Sabemos (sem saber dizê-lo) que a própria vida sexual é um estranho jardim… E até muitas vezes temos medo de Deus – porque nada pode ser mais estranho.

Como é que Jesus nos conseguiu sentar à mesa com Deus? Foi simplesmente ao encontro dos outros. Sem se pôr acima de ninguém – nem abaixo de ninguém. Como um singelo jardineiro.

Durante a sua vida (Mt.10,5-16; Lc.10,1-12), fez um teste aos discípulos: enviou-os como se se tratasse de um projecto de “jardinagem”. Não podiam perder tempo pelo caminho e muito menos durante o trabalho (o que é bom é para ser bem feito!). E se não fossem bem recebidos, até deviam sacudir o pó ou a lama que se agarrasse aos sapatos. Como quem diz: é perigoso deixar que os ideais sejam corrompidos por coisas aparentemente pequenas a que podemos ficar agarrados. Por outro lado, ele sabia bem o que é transparência a sério… Quem não gosta de melhorar os canteiros, não merece que lhe tratem do jardim. Pelo contrário, se gostam de multiplicar a beleza, todo o trabalho terá um ambiente de alegria e paz.

E deu exemplo do que disse: se a semente não cai na terra e não morre, não pode dar flores e frutos. Os discípulos, aprendizes desorientados, só passadas muitas semanas após a morte de Jesus, é que se deram conta do trabalho a fazer. Precisavam de relembrar os ensinamentos do Mestre e de vencer o medo de se expor.

Assim fizeram, durante sete x sete semanas – número “perfeito”, símbolo do tempo necessário para poderem, por sua vez, dar flor e fruto.

Portanto, foi no dia seguinte a estas semanas simbólicas – o dia de Pentecostes ou quinquagésimo – que apareceram na praça pública, com um ar tão confiante e transbordante de alegre energia, que toda a gente os queria como “jardineiros”. Não precisavam de lhes perceber as palavras: ficaram encantados e convencidos pela arte do trabalho deles. Sabiam juntar humildade e autoridade. Só faziam aquilo de que estavam convencidos ser o melhor.

Nascera o movimento ecuménico: uma nova era de jardins e de boas sementes, formando uma casa comum com a beleza irradiante de alternados canteiros simples ou exóticos.

A ciência e especialização crescente dos “jardineiros” deu ao ecumenismo novos sentidos, mais especializados e menos globais: organização institucional, convergência doutrinal, espiritualidade superior às barreiras burocráticas… Felizmente, é cada vez mais reconhecido que o essencial do ecumenismo é a união da humanidade e não especificamente das igrejas. Só vai ao encontro dos outros quem não fica sentado a classificar os canteiros. É preciso aventurar-se pelos jardins vivos, e crescer com eles espalhando optimismo, alegria a sério, o prazer de convívio…

É pelo diálogo que descobrimos as qualidades da boa terra local. Eliminando a cizânia da superioridade, fonte de discórdia, humilhações e ódios. Conscientes de que ninguém pode exprimir correctamente a verdade, e muito menos pretender possuí-la inteiramente. Todos os seres humanos têm esta limitação, mesmo se impelidos a falar pelo Espírito de Deus.

Para terminar em beleza: comecemos por conhecer a beleza do nosso jardim. Quanto mais aprofundarmos o cristianismo, mais alta será a prancha de lançamento ao encontro de todos os que procuram o mesmo Deus. É um exercício a ser feito no seio de qualquer outro sistema religioso. Então, o encontro entre religiões será transparente e só por si um acto profundamente religioso.

O Concílio Vaticano II deixou de usar o termo missão (por se ter desvirtuado) e prefere evangelização: deixando claro que a boa nova para um ser humano é a realização do bem-estar físico e espiritual, da união (trabalhosa!) entre liberdade e justiça.

 

Manuel Alte da Veiga é professor universitário aposentado

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