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Lugares revelados (4)

Bem-vindos a Tiruvannamalai: a cidade do fogo

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Não acredito em ateus. Também não acredito em unicórnios, nem acredito num planeta humano capaz de viver sem guerras.

São crenças e, portanto, estão desprovidas da necessidade de comprovação. Quem não as tem? Até a própria Ciência assenta numa crença muito fundamental sob a qual não sabe existir: toda a verdade (científica) é provisória até que se prove o seu contrário. E porquê? Por que é assim? Em que assenta esse cariz dogmático senão simplesmente numa suposição assumida, numa assunção, num princípio que adota como crença em si mesma? Por que não é a verdade permanente e eterna? O que é a verdade?

No passado 21 de julho foi noite de lua cheia. Para os seguidores de Xiva, um dos deuses da trindade hindu, frequentemente associado à destruição, à transformação, à substituição do antigo pelo novo, o calendário lunar assume particular importância.

Conta uma de tantas histórias que um dia os deuses – devas -, tendo perdido todas as suas forças e energias, tiveram que ir à procura do néctar da imortalidade para poder recuperar os seus poderes. Esse néctar – amrita – encontrava-se dentro de um oceano de leite que deveria ser agitado para libertar o elixir. Sozinhos, os deuses não seriam capazes de o fazer, e por isso decidiram colaborar com os demónios – asuras –, comprometendo-se a partilhar com estes o poder da imortalidade.

A missão de obter a amrita revelou-se extremamente árdua, e o apoio de Xiva foi, por fim, solicitado. O oceano acabou então por se agitar, e múltiplos tesouros começaram a emergir, entre os quais a própria Lua. Mas também surgiu um veneno, tão perigoso que ameaçava destruir o universo. Determinado a impedi-lo, Xiva decidiu bebê-lo antes que este se espalhasse irreversivelmente. De tal modo era nocivo que ao engolir o veneno a língua do Deus Destruidor tingiu-se de azul, e o seu efeito acabou sendo neutralizado. Em reconhecimento pelo sacrifício de Xiva, os devas ofereceram-lhe a Lua, colocando-a na sua cabeça.

“Tiruvannamalai é uma pequena cidade no Sudeste da Índia, no Estado de Tamil Nadu. Especialmente conhecida pela sacralidade do lugar, Tiruvannamalai tornou-se um centro de peregrinação para os xivaístas, em particular em dias de lua cheia.” Foto © Tomás Sopas Bandeira

 

Tiruvannamalai é uma pequena cidade no Sudeste da Índia, no Estado de Tamil Nadu. Especialmente conhecida pela sacralidade do lugar, Tiruvannamalai tornou-se um centro de peregrinação para os xivaístas, em particular em dias de lua cheia.

Ao sair de um daqueles autocarros pintados de todas as cores e que passa as viagens a cantar músicas indianas, a concentração de pessoas rapidamente se fez sentir. O caminho para o grande templo da cidade não deixava enganar, ladeado ao longo do trajeto por outros de tamanho mais pequeno.

Sobre a vasta planície do norte de Tamil Nadu, ergue-se aqui um enorme vulcão de mais de oitocentos metros de altura. O monte Arunachala, considerado por uns extinto, está para outros bem vivo pois é o local onde o Deus Destruidor surgiu sob a forma de uma coluna de luz. Bem-vindos a Tiruvannamalai: a cidade do fogo.

Centenas de milhares de pessoas, afluindo de todos os quadrantes, deslocavam-se em direção ao templo de Arunachaleswar, no centro da pequena povoação. Quase todos caminhavam já descalços, mesmo se estivéssemos ainda a dois ou três quilómetros do centro, acendendo lamparinas e entrando nos pequenos templos laterais que o percurso ia revelando. No chão, à entrada de cada um, deixavam-se oferendas. Cocos, folhas e flores especiais, velas acesas, sempre o Shi, o fogo, a chama, o calor. A purificação. Taças enormes ardendo labaredas vigorosas. Ainda que não fosse o destino final, a multidão detinha-se e agregava-se para poder entrar. Rezavam, braços no ar, mãos pesadas traçando sobre a testa cinzas brancas em linhas horizontais.

Eram oito e pouco da manhã. O sol ardia já no alto, e os fiéis continuavam a multiplicar-se à medida que nos aproximávamos. Mulheres, homens, velhos, uns andando, outros arrastando-se e coxeando como podiam. Crianças de todos os tamanhos. Uma só direção. Os saris vestiam-se sobre os corpos femininos em vermelhos, azuis e verdes, numa só cor, ou com todas elas misturadas. Padrões lineares, os demais curvilíneos. Os cabelos entrançados caíam sobre as costas como colunas vertebrais. Negros, robustos e lisos. Mas também havia quem fosse careca, de pele macia e imberbe ao corte. Não teriam deixado há muitos dias Tirupathur, um outro lugar sagrado, e aí oferecido os seus cabelos aos deuses em gesto de desapego.

“De repente, como pirâmides surgindo num deserto de gente, o primeiro gopuram apareceu com imponência.” Foto © Tomás Sopas Bandeira

 

De repente, como pirâmides surgindo num deserto de gente, o primeiro gopuram apareceu com imponência. Quem já esteve pelo sul da Índia certamente recordará essas inolvidáveis torres monumentais dravídicas, normalmente dispostas em cada ponto cardeal nos templos de maior dimensão, e que servem de acesso ao interior do complexo. Aqui, o templo era tão grande que no seu interior seria possível absorver catorze campos de futebol.

Já prontos para entrar, foi necessário antecipar o arrumar dos sapatos: colocar os pés no chão, adivinhar a terra sagrada, para então sim, poder alcançar o lugar do fogo.

A entrada principal, junto ao gopuram leste, estava fechada devido à enorme afluência de pessoas. Uma longa linha começou gentilmente a sobressair àquele olhar que se torna mais atento quando procura por soluções. Fininha, linear, comprida, imensa, tão longa era a fila de quem esperava o acesso ao templo que a sua extensão dobrava duas esquinas do complexo quadrangular. Ao redor das paredes externas do templo de Arunachaleswar, o espetáculo humano aproximava-se do seu auge.

No enfiamento do templo, logo por trás, o vulcão levantava-se calmo e majestoso. Aos pés terrestres, o alcatrão fervia no solo. E sobre ele, areias sujas e dispersas, terra seca, saquetas de plásticos e outros lixos modernos caídos de mãos indistinguíveis compunham o resto do pavimento. Um ruído humano constante libertava-se de um mar desumano. Metiam-se motas e buzinas cruzando a confusão. Atravessavam-se vacas, também elas no seu devido andar. Enquanto avançávamos como formigas na fila vagarosa, o olhar perdia-se num horizonte antropomórfico. Ao longo da rua, saltavam braços e palmas abertas, pedindo e implorando esmolas. Sadhus, ascetas e peregrinos espirituais, de tronco nu, com colares de mala caindo do pescoço, benziam tantos quanto os que podiam. As peles de bronze transpiravam, e os dedos, brancos, empapavam-se pelo pó de cinzas. Grupos de cegos cantavam e recolhiam piedades com um lenço estendido aos generosos. Outros aguardavam numa fila paralela por uma taça de arroz servida em caridade. E quase todos os outros, todos os que como nós vieram hoje para visitar o templo, alinhavam-se impacientes à espera de cruzar o gopuram.

“Foram mais de duas horas de espera no exterior, curtas e deslumbradas diante da dança humana que flamejava sem pudor.” Foto © Tomás Sopas Bandeira

 

Foram mais de duas horas de espera no exterior, curtas e deslumbradas diante da dança humana que flamejava sem pudor. E quando, finalmente, se atravessou a grande porta, uma nova serpente de gente surpreendeu, contornando e contorcendo-se como vísceras no terreiro interior. Terá sido mais uma hora e meia, calcando agora, em vez de asfalto, um chão granítico já polido pelo caminhar de milhões de pés diários e ininterruptos. O único refresco eram as gotas de suor escorrendo pela face e os fios de água de origem incógnita que alagavam o piso e roçavam as plantas descalças e cansadas.

O entusiasmo, à nossa volta, aumentava com naturalidade. A cada passo, a cada barreira ultrapassada, a tensão ia crescendo. O útero divino, o lugar mais sagrado, revelava-se mais e mais próximo. Primeiro o Deus Ganés, com tromba de elefante, desobstruindo os obstáculos do caminho, e depois o Deus Nandi, o touro guardião e fiel servo do Grande Xiva.

Houve tempo para atropelos e correrias, para ver pessoas ultrapassando e empurrar-se com rudeza. Estávamos já no espaço interior, a poucos metros do fogo de Xiva. Todo o tipo de expressão humana era agora justificada. A brisa deixara de correr. O ar abafava, os braços e os ombros uniam-se suados em encontrões. Quase, ali. Depois de tanto tempo, tantos quilómetros de viagem. Com tantas súplicas por fazer, promessas a cumprir, sofrimentos por apaziguar. Eram milhares de seres humanos, de seres sofridos, de seres vividos, mas ainda com tanta vontade de viver. “Xiva, o Destruidor, transforma o mal do meu passado, traz-me esperança, traz-me cura, traz-me vida!”

Foram cinco segundos em frente do lingam, a pedra simbólica da transcendência do grande Deus. Cinco segundos de fervor para lhe dirigir as palavras mais sagradas.

Em seguida, o percurso prosseguiria a pé em volta do vulcão, mas essa peregrinação deixei-a para os xivaístas. Quanto a mim, voltei para casa, refletindo em silêncio e pensando: não acredito em humanos que sejam ateus.

 

 Tomás Sopas Bandeira, médico

 

Este é um tempo propício a viagens e passeios, tenham eles como destino lugares novos e longínquos ou que fiquem à distância de uma prazerosa caminhada a pé, a partir de casa. Entre esses lugares, há paisagens, edifícios, trilhos, cidades ou aldeias que revigoram e nutrem a vida interior. Na rubrica “Lugares revelados”, o 7MARGENS dá a conhecer alguns desses locais. Os colaboradores e leitores que queiram partilhar um texto (e foto) sobre o seu “lugar revelado”, poderão enviar os materiais para setemargens@setemargens.com. 

 

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