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Bem-viver e bem-morrer

| 02/03/2020

Bem-viver e bem-morrer

by | 2 Mar 20

Ouvi há dias, na Antena 1, os meus amigos e afilhados de casamento, o Rogério e a Ana, sobre a doença com que ele se debate, a ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica). Além de meu camarada de armas – estivemos os dois em Angola, na guerra –, o Rogério Santos, escritor e professor universitário da Católica, é um investigador inveterado da rádio, continuando a produzir livros e a manter brilhantemente no Facebook uma aturada história da rádio em Portugal, apesar da ELA.

Não hesitou, mesmo, a escrever o prefácio de um livro meu, muito lúcido e carregado da profundidade que dá a vida. Ambos conhecemos na guerra o que é estar perto da morte e nunca deixámos de lutar pela vida, mesmo em condições extraordinariamente difíceis – e nunca matámos ninguém, diga-se. Apesar da doença, o seu contributo para a investigação da rádio em Portugal, tem sido invulgar. Na Ana, a companheira de mais de 40 anos, tem tido toda a dedicação, ficando impressionado por não ter descoberto há mais tempo características que só agora são mais visíveis. E também na Patrícia, sua filha e minha afilhada.

Bem-viver a nossa vida supõe uma ética de suficiência para a comunidade onde cada pessoa se insere e não apenas para o indivíduo. É uma visão holística e integradora do ser humano inserido na comunidade cósmica, em comunhão profunda com a Terra e as energias do universo e de Deus, segundo Leonardo Boff. O Bem-morrer deve ser a sequência do Bem-viver, porque tantas vezes temos um “mau morrer”, ou melhor, um morrer lentamente ao longo da vida, pela intervenção de terceiros, sem que para isso lhes tenha sido pedido nada. Um bom fim de vida é uma morte natural de quem tenha tido um bom-viver.

Discutimos a eutanásia, neste momento, em Portugal. Tenho falado com muitas pessoas e ninguém tem certezas. Dizem: “É complicado.” Quem poderá legislar sobre a eutanásia, querendo obrigar uma outra pessoa, neste caso um profissional de saúde, a contribuir para a morte de outro?

Não coloco o foco na Igreja (embora esta tenha toda a liberdade de se pronunciar, e deva fazê-lo, para não pecar por omissão, como o tem feito tantas vezes, nomeadamente no deixar “morrer devagarinho” tantos seres humanos), mas na moral da sociedade. Nem me coloco ao lado de políticos que promovem manifestações para elevar o seu peso eleitoral, tão baixo ele é. Não posso, porém, ser favorável à eutanásia, o que não é contra ninguém, a quem reconheço boa-fé e até argumentos de peso. Mas é a minha opinião sobre a Vida.

Bem-viver e Bem-morrer, o meu contributo de reflexão.

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental

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