Bem viver para bem conviver – a espiritualidade indígena da Amazónia e a missão da Igreja

| 18 Out 19

Joaquín Humberto Pinzón, vigário apostólico de Puerto Leguízamo Solano (Colômbia) é um dos participantes do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia. Nascido em Julho de 1969, ordenado padre em 1999, como membro do Instituto Missionário da Consolata, Joaquín Pinzón é bispo desde Abril de 2013. A sua vigararia apostólica (Puerto Leguízamo Solano não é ainda uma diocese) situa-se na região amazónica colombiana. O bispo Joaquín Pinzón integrou a comissão preparatória do sínodo e foi um dos redactores do Documento de Trabalho (Instrumentum Laboris), o texto orientador principal dos deabtes destas três semanas em Roma. Este é um texto exclusivo para o 7MARGENS, acerca da espiritualidade indígena do bem viver e da missão da Igreja Católica naquela região. 

Rio Amazonas. Foto © Firmino Cachada

 

O bem viver, terra sem males, modo de vida presente na espiritualidade dos povos originários da Amazónia, referido nos números 12, 13, 24 e 121 do Instrumentum laboris (texto básico do sínodo), sintoniza muito bem com a proposta do Reino que Jesus nos faz no Evangelho. Fraternidade universal, ecologia integral, são estilos de vida que devemos recuperar e propor para fazer uma proposta evangelizadora eficaz que responda aos desafios do momento que estamos vivendo.

O momento de graça que estamos vivendo é premente. Carregado de fecundidade e novidade, como no início da missão do Mestre da Galileia, “o tempo cumpriu-se, o Reino de Deus está próximo: convertei-vos e acreditai na Boa Nova” (Mc 1,15). Também para nós, no hoje da nossa história, para a Igreja na Amazónia, o ponto de partida deve ser a conversão, uma conversão ecológica e pastoral, como nos convida a encíclica Laudato si’. Uma conversão que nos permita vislumbrar e acompanhar a irrupção do Reino neste contexto de vida, reflectido na espiritualidade e nas práticas do “bem viver” que permanecem válidas.

Caminhar com os povos nessa tarefa é a nossa missão. Caminhar com eles na recuperação de sua identidade e, sobretudo, com as jovens gerações, para que, a partir dos seus usos e costumes, amando a sua cultura, dialoguem de igual para igual com o mundo ocidental que propõe cada vez mais modelos de vida permeados por sistemas perversos de corrupção e abuso de poder, que minam o valor do colectivo e destroem as suas próprias formas de governação.

Precisamos de uma acção pastoral que fortaleça a racionalidade transcendente dos povos originários, que se vá convertendo em bem fazer, traduzida em fraternidade com os outros povos (camponeses, afrodescendentes, urbanos) que hoje fazem parte da riqueza da face amazónica. Todos juntos na dinâmica de El ‘Ñue ité (para os Murui) Sumak Kausana (para os Kichwas), um “bem viver” construindo vida em abundância para todos, cuidando e fazendo uso responsável de todos os bens da criação como uma alternativa às propostas egoístas de busca do próprio bem.

Uma família-comunidade que toma consciência da riqueza e, ao mesmo tempo, da vulnerabilidade do seu território, exige aos governos o respeito e o cuidado pelos mesmos. A missão da Igreja neste contexto de vida deve ser traduzida na proposta do Reino, o Pai que nos chama à Fraternidade universal, onde haja vida abundante para todos. Uma proposta que transcende os limites do contexto amazónico e se torna uma boa notícia para toda a humanidade.

Roma, 17 de Outubro de 2019

Joaquín Humberto Pinzon, IMC, vigário apostólico de Puerto Leguízamo Solano

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