Bênçãos para casais irregulares?

| 4 Jan 2024

“Estamos longe de proceder a uma revisão clara e profunda da moral sexual, tornando-a ao mesmo tempo consentânea com o Evangelho e com a época em que vivemos.” Foto © Robert V. Ruggiero / Unsplash

 

Em 2021, a então Congregação para a Doutrina da Fé publicou um documento cujo objetivo era clarificar a possibilidade de abençoar casais do mesmo sexo. Numa linguagem seca, rígida, legalista e moralizante, típica da teologia romana, o documento conclui sobre a impossibilidade de a Igreja abençoar as uniões entre pessoas do mesmo sexo, uma vez que só no contexto do casamento heterossexual as relações sexuais encontram o seu “sentido natural, adequado e plenamente humano”.

Tem sido prática corrente da teologia oficial condenar tudo o que são inovações no plano dos costumes, sobretudo no que ao sexo diz respeito: condenaram-se (e tal condenação mantém-se em vigor) os métodos anticoncecionais artificiais, condenaram-se os vários métodos de conceção medicamente assistida, bem como tudo quanto à reprodução e ao sexo diz respeito quando não enquadrado na forma clássica do casamento monogâmico, estável, indissolúvel e heterossexual. Tais tomadas de posição têm provocado o constante afastamento de muitos crentes em relação à Igreja e, o que é mais grave, em relação à fé e à vida espiritual fundada na confiança num Deus de amor e misericórdia tal como o Evangelho proclama. É praticamente inevitável olhar para a Igreja como uma instituição rigidamente moralista onde o Deus de Jesus só com muito esforço interpretativo se pode encontrar.

O Papa Francisco, ciente de que a Igreja ou muda ou perece, tem vindo a introduzir modificações a este estado de coisas. Propondo formas mais consentâneas com a imagem de Deus que Jesus anunciou, tem criticado o legalismo rígido das conceções dominantes. No entanto, o governo central da Igreja (sobretudo a Congregação para a Doutrina da Fé) tem mantido, em boa medida, as mesmas perspetivas. A sensação com que ficamos é que o magistério de Francisco é sistematicamente ignorado, como se não existisse ou fosse dotado de pouca ou nenhuma relevância. É nesta resistência mais ou menos feroz ao magistério do papa que se pode ler o documento de 2021, um autêntico balde de água fria sobre todos os que alimentavam expectativas a respeito de alterações neste domínio.

Foi preciso, portanto, esperar pela substituição do prefeito e pela concretização da reforma do Vaticano para que algo acontecesse nos gélidos corredores do antigo Santo Ofício. Saiu finalmente uma declaração sobre bênçãos a casais em “situações irregulares” que serve, de facto, de contraponto ao anterior documento. E apesar de manter a mesma posição oficial quanto à doutrina e à prática dos rituais litúrgicos, abre a possibilidade de se abençoarem pessoas que vivem em situação irregular quando informalmente o solicitam.

É verdade que os cuidados que o documento estabelece são tantos que quase desqualificam a bênção que pretende consentir. É também verdade que estamos longe de proceder a uma revisão clara e profunda da moral sexual, tornando-a ao mesmo tempo consentânea com o Evangelho e com a época em que vivemos. No entanto, abre-se aqui uma fresta no sentido de humanizar o rosto da Igreja, de a tornar mais conforme com a perspetiva de um Deus de misericórdia e de amor que não abandona o ser humano à sua sorte, por mais infiel que tenha sido.

As reações a este documento não se fizeram esperar. De um lado, os que a consideram uma traição à verdade (decerto, à verdade deles!). Do outro, os que a consideram um tímido passo quase destituído de sentido, quando seria desejável uma abertura mais cabal e corajosa. No que me diz respeito, estou convencido de que este é apenas o início de um caminho. As coisas vão ter de mudar. Talvez não ao nosso ritmo. Infelizmente, na Igreja, a mudança só se torna imperiosa quando é já impossível manter as velhas e desgastadas posições. Apesar disso, louvo o documento. É o ponto de partida a partir do qual novos passos serão dados. Por isso, alegro-me com o facto de ver aqui um sinal de esperança. Ainda ténue, ainda incipiente, mas sem dúvida um sinal de que o caminho está a ser percorrido. Entendo que o papa não queira ver esgarçado o tecido da Igreja. Uma rutura seria muito pouco desejável nos tempos que correm, onde tantas tensões se fazem sentir. Vamos, por isso, passo a passo até onde é inevitável ir, apesar da teimosia dos homens e das instituições, sobretudo quando impõem aos outros fardos incomportáveis, sem que para tal haja justificação suficiente.

Torna-se urgente que a Igreja reflita sobre os supostos fundamentos da antropologia oficial (na verdade, a antropologia romana imposta a toda a Igreja). O conceito de natureza está longe de constituir um conceito operativo do ponto de vista moral. O que é realmente natural? Por que razão é a relação entre pessoas do mesmo sexo uma realidade antinatural? Os testemunhos das relações homoafetivas asseguram-nos, pelo contrário, que tais relações são tão universalmente difundidas pelos grupos humanos como as relações entre pessoas do mesmo sexo. São, por isso, igualmente naturais. A conceção moral tradicional e a punição que lhe estava associada tiveram como efeito calar ao longo de séculos tais testemunhos, classificados como aberrantes, doentios e pervertidos.

Há que refletir também acerca do sentido da rigidez legal no que se refere às situações “irregulares” de casais heterossexuais recasados. Que há de afrontoso para a moral humana e cristã no casamento entre pessoas divorciadas? Há hoje bastante consenso entre os exegetas a respeito de os textos do Novo Testamento não serem fundamento suficiente para a proibição absoluta do divórcio e do posterior casamento. O ser humano não é perfeito. As relações humanas fracassam. Mas nenhum fracasso pode ser motivo para a condenação à solidão e ao sofrimento de tantas pessoas para quem a relação afetiva íntima é importante. Encarar as coisas nesta perspetiva é recusar encaixar a totalidade da vida no espartilho da lei, como se os seres humanos fossem meros autómatos. Que Deus seria esse se condenasse os que o amam a uma vida triste e infeliz? Nenhum ser humano acharia razoável impor às pessoas que ama fardos de tal maneira pesados que tornariam a vida um “vale de lágrimas”, insípido e infernal. E se nós, que nada temos de perfeito, damos àqueles que amamos, na medida das nossas possibilidades, todas as condições para serem felizes, como não há de fazê-lo Deus, no seu amor infinito?

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

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