
Frei Bento Domingues numa foto de arquivo: “O que nos falta é a esperança.” Foto © Francisco Marujo
“O que nos falta hoje é a esperança” e os problemas da guerra exigem “que se trabalhe pela paz”, diz frei Bento Domingues. Neste domingo, o teólogo da Ordem dos dominicanos publicará uma crónica a propósito do sínodo católico e do Natal, num regresso – para já, provisório – aos seus textos dominicais no Público.
“A esperança é essa”, diz frei Bento ao 7MARGENS, a propósito deste seu regresso, que terá uma segunda crónica no domingo, 29. Frei Bento, que está a recuperar de uma queda, quis, com a publicação das duas crónicas, assinalar o tempo do Natal.
Na segunda crónica, a propósito do tema da paz, o teólogo e cronista pretende também recordar um tempo em que, em Portugal, surgiram várias iniciativas de luta pela paz, na época da guerra colonial e da ditadura do Estado Novo: foi no final do ano que se realizaram as vigílias pela paz da Igreja de São Domingos (1968) e na Capela do Rato (1972) e foi também a 31 de Dezembro que, em 1969, foi fundada a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, da qual Bento Domingues foi um dos impulsionadores.
“A esperança tem de dar instrumentos” para a acção pela paz. Caso contrário, será algo sem sentido, diz Bento Domingues, 90 anos. “Hoje, vivemos a esperança dentro da escuridão do nosso tempo”, escreve o teólogo na crónica deste domingo. “Não é optimismo, mas a confiança de que tudo o que vivemos, toda a nossa confusão e dor, se descobrirá de alguma forma que tem sentido.”
Sínodo “responsabiliza todos”

Francisco no encerramento do Sínodo sobre a sinodalidade: “Não pode ficar tudo nas mãos do Papa.” Foto © Vatican Media.
As guerras não são algo que esteja “longe” e é “necessário encontrar também fórmulas novas de ser internacionalistas”, para acabar com as situações como as que vemos na televisão – por exemplo, como o “horror” que se vê na Faixa de Gaza. [ver 7MARGENS]
“Aquilo que Israel está a fazer – sem querer dizer que os outros [Hamas] são santinhos – é uma coisa absolutamente inominável, é inominável.” E a situação na Síria é também exemplo de que a esperança está nos movimentos que sejam capazes “não só de denunciar, mas de se tornarem activos em favor da paz”.
Referindo-se ao Sínodo sobre a sinodalidade, cuja segunda assembleia decorreu em Outubro, em Roma, frei Bento considera que o catolicismo está agora perante uma encruzilhada: ou ele tem continuidade e se torna um “grande acontecimento” ou passará com o tempo, não “abrindo ao futuro”.
O Sínodo e o seu documento final “agora responsabilizam” todos os católicos, acrescenta ainda frei Bento ao 7MARGENS. “Antigamente, do Vaticano, esperavam-se condenações. Agora, veio este Papa e transformou-se numa vanguarda.” Mas, avisa, não se pode colocar o poder de mudar “todo nas mãos do Papa”. O que se espera é que todos os católicos façam “a sua parte”. E também aqui, se não houver esperança, “não há nada”.
Na crónica deste domingo, frei Bento refere o Sínodo como um “grande Advento da esperança” que se prolongou por três anos e cujo objectivo não era “produzir documentos, mas abrir horizontes de esperança para o cumprimento da missão da Igreja”.
O que é importante, acrescenta Bento Domingues ao 7MARGENS, é conjugar agora o Ano Santo que a Igreja viverá em 2025, com os resultados do Sínodo e do II Concílio do Vaticano. Caso contrário, alerta, corre-se o risco de dar tiros em várias direcções, sem consequências.
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