Pré-publicação

Bento Domingues: uma escrita teológica na pele da História

, e | 19 Mai 2024

Fora do Diálogo não há Salvação é o título de uma nova antologia de textos de frei Bento Domingues, que será apresentada na próxima quinta-feira, dia 23, na Livraria da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa (piso 0 do edifício da Biblioteca João Paulo II). A sessão, que se inicia às 18h30, conta com a intervenção de Alfredo Teixeira, um dos organizadores da obra, José Leitão, ex-presidente do Centro de Reflexão Cristã (CRC), a teóloga Maria Carlos Ramos e a editora Guilhermina Gomes, da Temas e Debates, que publica o livro. O próprio Bento Domingues estará também presente. 

Neste volume, coligem-se textos publicados nas diferentes revistas do CRC ao longo das últimas cinco décadas. Teologia, política, questões sociais, ministérios na Igreja, missionação, são alguns dos temas abordados. O volume inclui ainda uma entrevista inédita de frei Bento Domingues, dada a Inês Espada Vieira, actual responsável do CRC, e Alex Villas Boas, da Universidade Católica, realizada no âmbito da unidade curricular “Hermenêuticas de Textos Religiosos”, do Mestrado em Ciências Religiosas, a propósito do aniversário da fundação do CRC, que completará 50 anos no final de 2025.

O 7MARGENS apresenta a seguir excertos da apresentação, assinada pelos três coordenadores da obra: Alfredo Teixeira, Helena Topa Valentim e João Miguel Almeida. 

Capa do livro "Fora do diálogo não há salvação".

Os estudos sobre a Antiguidade Tardia e da Idade Média deram-nos a conhecer uma cerimónia, sob a designação de adventus. A visita que um imperador, ou um seu representante, fazia a uma comunidade – ou o acolhimento de relíquias veneráveis – dava lugar a um protocolo complexo. Nesse cerimonial tomavam parte os panegiristas, encarregados de desvelar o sentido do acontecimento e de, a partir dos seus instrumentos retóricos, fazer a multidão comungar do entusiasmo necessário. Não é nesse registo que inscrevemos esta visita ao arquivo vivo que Frei Bento Domingues construiu no Centro de Reflexão Cristã. Elogiamos, sim. Mas não esse elogio de pedra venerável, o cerimonial do escrúpulo. Antes o elogio da carne, ou seja, da pessoa inserida de forma responsável na trama dos acontecimentos. Por isso, nos textos que aqui se coligem, encontramos a intriga que tece as relações entre a biografia de um homem e os clamores do seu tempo (de forma pertinente, Lídia Jorge intitulou desta forma um texto dedicado ao dominicano: «Frei Bento Domingues, nosso contemporâneo»1).

A intervenção de Frei Bento Domingues na cena pública está particularmente associada à longevidade da sua crónica dominical no jornal Público. Quando se cumpriam 10 anos de vida das crónicas do Frei Bento, organizou-se na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias uma homenagem, acompanhando o lançamento do volume As Religiões e a Cultura da Paz (2002). Precisamente, nessa homenagem, Lídia Jorge perguntava-se pelo segredo da sua eficácia junto de um público tão heterogéneo? Trata-se de alguém que «coloca o espaço da leitura e da erudição ao serviço da formulação dum raciocínio sempre novo e sempre aberto, perante a transformação imparável do Mundo, sismógrafo sensível dos terramotos sociais por que passam os nossos tempos, como um discorrer radicado na sensibilidade à mudança». Por isso mesmo, a parte destas crónicas que é doutrina assume um princípio ativo, mas impregna-se-lhe numa totalidade vivencial, como se existisse para iluminar os passos dos Homens e nunca separar-se deles». A leitura de Lídia Jorge aproxima Frei Bento Domingues do registo de uma escrita profética ou de uma teologia sensível «à grandeza do cosmos, à magnânima fragilidade do humano, ao rosto irrepetível das multidões, à pele da História, inocente e deslumbrado como se fosse um poeta, que só o não é formalmente, porque o poeta faz experiência do escuro e exibe a escuridão como medida, e Frei Bento é um poeta que escolheu à partida a luz do princípio iluminado, e fez dele o seu método de clareza»2. A coletânea As Religiões e a Cultura da Paz incluiu um prefácio de Jorge Sampaio, na altura Presidente da República. Nele, Jorge Sampaio referia-se a Frei Bento Domingues como «homem de coragem, quando ter coragem significava correr pesados riscos, homem de diálogo quando dialogar equivalia a ficar sob suspeita, homem de convicções mesmo ou sobretudo quando elas não eram dominantes »3.

Frei Bento Domingues

Frei Bento Domingues, em 2018. “A paixão pela renovação de um discurso teológico público é anterior às suas crónicas dominicais.” Foto © Francisco Marujo

O seu trabalho intelectual com maior impacto talvez se possa centrar nesse contributo para a invenção do discurso teológico como crónica. Mas, quando se contacta com o arquivo dos seus escritos no Centro de Reflexão Cristã (CRC), percebemos que a paixão pela renovação de um discurso teológico público é anterior às suas crónicas dominicais. É uma vocação tatuada em tantos momentos da sua trajetória. Depois do seu papel principal no desenvolvimento do Instituto Superior de Teologia, o CRC tornou-se um dos lugares privilegiados para esse labor teológico. Nessa deambulação, praticou uma teologia desprovida de seguranças e de vigilâncias institucionais, desenvolvendo uma qualidade a que a comunidade dos seus leitores é particularmente sensível: a sua palavra livre.

Frei Bento Domingues concebe o seu discurso teológico como participação na vida coletiva. Na geografia do Atlântico Norte em que vivemos, o discurso teológico conheceu particulares dificuldades. Em grande medida, as modalidades mais frequentes de construção intelectual da realidade cercaram o discurso teológico dentro dos muros do privado, empurraram-no para a banda estreita dos discursos especializados, ou abandonaram-no no terreno do marketing religioso. De facto, para muitos, a condição plural das identidades religiosas nas sociedades modernas tornava necessária a privatização da religião, arrastando o discurso teológico para o limbo da impertinência social. E as formas condescendentes de valorização do pluralismo religioso parecem não ultrapassar aquela cenografia em que os protagonistas se juntam à mesma mesa, mas como estratégia de desanuviamento – para reduzir o potencial de conflito, mas sem a abertura que permitiria descobrir nessas sabedorias religiosas uma inspiração para a construção de uma cidadania partilhada.

A teologia enunciada por Frei Bento Domingues faz a passagem da gramática do Deus que se impõe como uma necessidade, para as linguagens do Deus que se comunica como desejável. Nesse sentido, o discurso do Frei Bento permanece estruturalmente teológico. A escrita de Frei Bento não entrou no amplíssimo mercado contemporâneo das espiritualidades, precisamente porque não renuncia (teimosamente) à demanda de uma inteligibilidade do crer, nem se oferece para múltiplas traduções do discurso crente em ideologias do bem-estar interior. Permaneceu nessa inquietude do intellectus fidei, que é a genética da teologia cristã. Estas ideias podem documentar-se neste fragmento da sua escrita:

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São Tomás de Aquino. Foto © Direitos Reservados [/speaker-mute]

«Ao falar de registo teológico é para dizer que não tenho a fé de um ateu, nem a resignação de um agnóstico, atitudes altamente respeitáveis. Sei que a palavra Deus precisa de ser continuamente lavada e resgatada dos seus repetidos usos ridículos e criminosos, tanto no passado como no presente, mas não renuncio a ela. Na nossa cultura, o melhor e o pior é sugerido por essa palavra e por nenhuma outra com a mesma eficácia. […] Tenho amigos que lamentam a minha teimosia em me manter fiel ao registo teológico, mesmo depois de já ter feito repetidas apologias da chamada teologia negativa que só consente afirmações acompanhadas de negações radicais, assim como da ideia de Tomás de Aquino: Deus só é “conhecido como desconhecido”. Eu deveria escolher o registo da espiritualidade e da mística, menos contaminado pelas juras de ortodoxia à doutrina católica oficial e aos seus dogmas. Não vou por aí. É verdade que nunca aceitei situar a minha modesta prática teológica sob o manto da teologia dogmática ou sistemática. Nunca me esqueci da confissão de Tomás de Aquino – místico, poeta, biblista, filósofo e teólogo –, no fim da sua vida breve e extraordinariamente fecunda: “parece-me palha tudo que escrevi”». 4

Na entrevista concedida a Inês Espada Vieira e Alex Villas Boas, Frei Bento Domingues diz uma frase que resume um percurso feito de encontros e razões partilhadas, ou confrontadas, para ter fé e esperança: «fora do diálogo não há salvação». Esta ideia, que podia ser cunhada em mote, ou remate em verso de um poema autobiográfico, antes de formulada, foi uma prática de muitos anos, com muitos interlocutores.

O CRC foi uma etapa da prática de um diálogo, com crentes e não crentes, tendo em vista uma salvação que se tece com os outros, com uma dimensão interpessoal e uma dimensão relativa à «coisa pública», ao exercício de uma cidadania entendida como espaço de discussão e intervenção na sociedade para transformá-la, ou não estivesse inscrito nos estatutos do próprio CRC que pretendia agregar cristãos identificados com a «libertação do povo português». Criado em 1975, o primeiro número do que viria a ser a sua revista, ainda modestamente intitulado «boletim», dirigido por Fernando Gomes da Silva, foi publicado em abril/maio de 1976, ou seja, no mês das primeiras eleições legislativas em Portugal.

Nas origens imediatas da etapa do CRC, esteve o Instituto Superior de Estudos Teológicos (ISET), onde Frei Bento Domingues foi professor e fechado no contexto de reorganização do ensino e investigação teológica em Portugal que levou à criação da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. A colaboração de Frei Bento Domingues com o jornal Público coexistiu e, em certa medida, complementou a sua intervenção no CRC numa fase de maturidade desta associação. Por vezes, Frei Bento escrevia no Público a sua reflexão de conversas que tinham começado improvisadamente no CRC. Outras vezes, era a revista do CRC, a Reflexão Cristã, a acolher uma crónica do Público, dando-lhe a oportunidade de uma segunda vida e, talvez, de uma segunda leitura, ou de uma leitura mais demorada.

Como o próprio Frei Bento declarou na entrevista já citada, o CRC de certo modo inverteu a relação entre sacerdotes e leigos que vinha do ISET. No ISET, leigos, como Manuela Silva ou José Mattoso, eram chamados a colaborar num projeto teológico associado às congregações religiosas. No CRC, eram os sacerdotes a colaborar numa organização de leigos.

José Mattoso, ao centro, com frei Bento Domingues (e a editora Guilhermina Gomes, da Temas e Debates/Círculo de Leitores). Foto: Direitos reservados.

O lugar e o estatuto do CRC na Igreja Católica, nos seus primeiros anos, foram temas discutidos e negociados. Desde o início havia quem quisesse um lugar de um diálogo teológico e cívico livre de constrangimentos eclesiásticos. Outros consideravam importante o «selo» católico proveniente de autoridade eclesiástica. Consultado, o próprio cardeal António Ribeiro foi da opinião de que o CRC não devia estar subordinado à hierarquia católica. Seria uma associação cívica, constituída por cristãos, a maior parte deles com um sentimento de pertença e vínculos à Igreja Católica, que dispensava mais uma formalização associada a condicionalismos no modo de agir e debater.

O CRC foi, portanto, para Frei Bento Domingues, um espaço de diálogo, onde nem se fechava a porta a ninguém nem se pedia licença a ninguém exterior à associação para falar de qualquer tema. Diálogo, em primeiro lugar com leigos. É redutor, mas inevitável citar alguns dos nomes mais conhecidos para compreender com quem Frei Bento Domingues foi refletindo, quer sobre questões especificamente teológicas, quer das ligações da teologia a outras áreas do saber, pois para Frei Bento falar do Filho de Deus foi sempre falar do filho do Homem. A reflexão teológica do CRC deveu muito ao diálogo de Frei Bento Domingues com outros dominicanos: Luís de França, Mateus Peres, José Nunes, Augusto Mourão; com um padre de formação científica, professor do Instituto Superior Técnico, João Resina; os padres Peter Stilwell e José Manuel Pereira de Almeida; o pastor presbiteriano Dimas de Almeida; o teólogo Anselmo Borges; o padre José Luzia, no que respeita à experiência missionária em Moçambique. Este espaço de reflexão teológica tinha interseções com outros, por vezes com os mesmos elementos. Por exemplo, Frei Bento manteve uma «tertúlia teológica» em casa de José de Sousa Brito, jurista leigo e erudito em teologia, e o franciscano Joaquim Carreira das Neves. Ambos interlocutores, participaram nas atividades do CRC.

Esta reflexão teológica enriqueceu-se com a reflexão historiográfica de José Mattoso e de José Luís de Matos, assim como alguns trabalhos iniciais de Manuel Clemente, António Matos Ferreira e Paulo Fontes; os estudos de economia incidindo sobre questões de pobreza e desigualdades de Manuela Silva e Alfredo Bruto da Costa; a experiência cívica de política de José Leitão, Guilherme d’Oliveira Martins, José Manuel Pureza; a reflexão filosófica de Manuel Carmo Ferreira e as ciências sociais de Luís Salgado de Matos; a experiência pedagógica de Alfreda Ferreira da Fonseca e Luís Wemans; uma série de profissionais do jornalismo e da comunicação social: Jorge Wemans, José Pedro Castanheira, Francisco Sarsfield Cabral, Manuel Villas Boas, António Marujo.

Pelo CRC passaram não só pessoas com um sentido político diverso, algumas sem qualquer filiação partidária, mas também muitas outras que procuraram, numa consciência dialogante, encontrar conexões entre a fé e a intervenção no espaço público nas escolas, nas universidades, no sistema de justiça, nos meios de comunicação social.

Além de a participação de diversos profissionais e intelectuais permitir o diálogo a partir de perspetivas teóricas, saberes diferentes, a presença de mulheres cristãs desde o início, como a irmã Julieta Mendes Dias, Manuela Silva, Isabel Allegro de Magalhães, Teresa Santa Clara Gomes, Alfreda Ferreira da Fonseca, Lúcia Leitão, Cristina Clímaco, Luiza Sarsfield Cabral, não só se traduziu numa reflexão sobre o lugar das mulheres na Igreja Católica, como também contribuiu para uma coexistência de diferentes olhares e práticas na associação.

Frei Bento Domingues discursa na cerimónia de homenagem aos 30 anos de crónicas no jornal Público. Foto © Agência Ecclesia/HM

Frei Bento Domingues a intervir na cerimónia de homenagem aos 30 anos de crónicas no jornal Público. Foto © Agência Ecclesia/HM

A par destes nomes que, em determinados períodos, deram uma colaboração mais regular ao CRC e estão associados a uma obra ou um percurso profissional conhecidos, muitos outros foram contribuindo para a vida do CRC com as suas interrogações ou com um labor por vezes discreto, mas indispensável, como o de Germano Cleto, durante anos o «pilar» da revista Reflexão Cristã. O CRC foi também um porto se não de abrigo pelo menos de regresso temporário de alguns que se tinham afastado de uma militância católica, mantendo-se fiéis a uma memória e porventura partilhando alguma esperança, ou que nunca viram razões para quebrar os laços com o catolicismo: Nuno Bragança, João Bénard da Costa, Nuno Teotónio Pereira, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista.

Ao longo de mais de quase cinco décadas de existência, o CRC constituiu um espaço de diálogo, testemunho e liberdade crítica, não só entre aqueles que se reviam na identidade católica, cristã ou de outras confissões, como o judaísmo e o islamismo, mas também com ateus como Fernando Rosas e José Saramago ou o agnóstico José Pacheco Pereira.

Mesmo que não tenha estado presente com a mesma intensidade em todas as fases da vida do CRC, Frei Bento Domingues foi uma referência na constituição deste grupo que foi crescendo, envelhecendo e renovando-se ao longo dos anos, afinando aí a sua palavra, com a prática da escuta e do diálogo com múltiplos interlocutores.

Os vinte e cinco textos reunidos neste volume constituem testemunhos de uma presença atuante de Frei Bento Domingues no tecer da vida do CRC, ao longo dos quarenta e nove anos desta associação, desde 1975, portanto. O projeto de fixação desta coletânea reuniu, num projeto colaborativo, o CRC e o Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião da Universidade Católica Portuguesa (UCP-CITER). […]

A entrevista com que este volume finaliza é o texto (no caso, oral) mais recente de que o CRC dispõe de Frei Bento Domingues. Daí se entendeu extrair a formulação que dá título ao conjunto de textos reunidos, nomeadamente «Fora do diálogo não há salvação». Trata-se de uma proposição que atesta uma incontornável intertextualidade com a formulação amplamente discutida, «Fora da Igreja não há salvação», de São Cipriano de Cartago († 258). Da centralidade concedida ao diálogo na revisitação proposta por Frei Bento Domingues resulta um entendimento particular da vocação cristã, distanciado de um qualquer pretenso reconhecimento identitário e excludente. Tal entendimento informa, de modo consistente, as múltiplas reflexões aqui reunidas. Constitui um fio condutor, sem margem de dúvida, esclarecedor do modo de Frei Bento Domingues praticar e instigar o questionamento como método, seja no diálogo horizontal, com o Mundo, seja no diálogo vertical, em Deus, traduzindo-se por conseguinte numa dinâmica dialogal que salva.

Notas

  1. Lídia Jorge, «Frei Bento Domingues, nosso contemporâneo», Revista Lusófona de Ciência das Religiões 1, n.º 2 (2002): 125–27, https://doi.org/10.60543/RLCR. V0I2.4663.
  2. Lídia Jorge, op. cit., 126.
  3. Jorge Sampaio, «Prefácio», em As Religiões e a Cultura da Paz, por Frei Bento Domingues (Porto, Mário Figueirinhas, 2002), p. 5.
  4. Frei Bento Domingues, «O desterro da Teologia», Público, 14 de setembro de 2014.

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