Abusos na Igreja Católica

Bento XVI: “Profunda vergonha, grande dor e sincero pedido de perdão”

| 8 Fev 2022

Já papa emérito, Bento XVI fotografado no jardim do Vaticano © Fondazione Vaticana Joseph Ratzinger-Benedetto XVI

 

O Papa emérito Bento XVI divulgou esta terça-feira, 8, através da Sala de Imprensa do Vaticano, uma carta em que apresenta um “sincero pedido de perdão” a “todas as vítimas de abusos sexuais”.

A carta, traduzida em oito línguas, foi lida em alemão pelo seu secretário, o arcebispo Georg Ganswein, e surge em resposta ao relatório sobre abusos na Arquidiocese de Munique e Freising, na qual o então cardeal Ratzinger foi arcebispo entre 1977 e 1982. Nesse estudo, realizado por uma firma de advogados por encomenda da Igreja, Ratzinger surge envolvido em quatro casos.

O documento, divulgado em 20 de janeiro último, desencadeou viva polémica, especialmente na Alemanha, tendo-se destacado a exigência do presidente da Conferência Episcopal dirigida ao Papa emérito para que assumisse responsabilidades e pedisse desculpa. 

Também o padre jesuíta alemão Hans Zollner, que desempenha funções no Vaticano no domínio da prevenção dos abusos, considerou ser de esperar que, depois de uma resposta de registo jurídico, o anterior Papa tivesse uma intervenção mais pastoral e preocupada com as vítimas dos abusos.

Bento XVI começou por valorizar apenas um dos casos apontados pelo estudo, negando, num primeiro momento, quanto a esse caso, que tivesse estado na reunião em que um padre pedófilo oriundo de outra diocese, foi aceite e incorporado no clero de Munique, sabendo-se que tinha sido abusador. Posteriormente reconheceu que se enganou, dizendo que não o fez intencionalmente.

Na carta agora divulgada, Bento XVI, que está prestes a completar 95 anos, começa por agradecer aos colaboradores mais próximos e a muitos amigos que o ajudaram a preparar as respostas que deu aos advogados que fizeram o estudo. Agradece também a proximidade e apoio que o Papa Francisco lhe “expressou pessoalmente”.

Refere ter feito um profundo exame de consciência nas últimas semanas e recorre, depois, ao ato de confissão, que é feito no início de cada missa, em que se confessa a culpa, “a tão grande culpa” de cada um, para observar: “Por maior que possa ser hoje a minha culpa, o Senhor perdoa-me, se me deixo sinceramente perscrutar por Ele e estou realmente disposto à mudança de mim mesmo”.

A parte da missiva em que formaliza o pedido de perdão ocorre não no contexto do que se passou quando era arcebispo de Munique, mas no quadro mais amplo das funções que foi exercendo na Igreja, em Munique e em Roma, incluindo os cerca de oito anos de Papa. 

“Em todos os meus encontros – sobretudo durante as numerosas viagens apostólicas – com as vítimas de abusos sexuais por parte de sacerdotes, observei nos olhos as consequências de uma tão grande culpa e aprendi a compreender que nós mesmos somos arrastados por esta tão grande culpa quando a negligenciamos ou não a enfrentamos com a necessária decisão e responsabilidade, como aconteceu e acontece com muita frequência”, sublinha Ratzinger.

Recordando esses encontros, acrescenta, “mais uma vez posso apenas expressar a todas as vítimas de abusos sexuais a minha profunda vergonha, a minha grande dor e o meu sincero pedido de perdão”. 

“Tive grandes responsabilidades na Igreja Católica. Tanto maior é a minha dor pelos abusos e os erros que se verificaram durante o tempo do meu mandato nos respetivos lugares. Cada caso de abuso sexual é terrível e irreparável. Para as vítimas de abusos sexuais, vai a minha profunda compaixão e lamento cada um dos casos”, refere a carta, na parte final.

A tomada de posição de Bento XVI refere que haveria um anexo com mais pormenores sobre a matéria em apreço. O portal do Vaticano não o disponibilizou, mas ele existe, foi enviado a alguns jornalistas e o Il Sismografo publicou-o. É constituído por um documento de três páginas em pdf, embargado até às 13h desta terça-feira e nele constam os argumentos de quatro peritos, três dos quais de direito canónico, em que são rebatidas as acusações de encobrimento ou de mau comportamento de Ratzinger, quando arcebispo de Munique. 

“A investigação não contém nenhuma prova que corrobore a acusação de comportamento errado ou cumplicidade na cobertura. Como arcebispo, o cardeal Ratzinger não esteve envolvido em nenhuma cobertura de atos de abuso”, conclui o parecer dos quatro juristas.

Começaram, entretanto, a surgir comentários à carta do ex-Papa Bento XVI. O padre Federico Lombardi, que foi seu porta-voz, destacou a “sinceridade” e o “desejo de verdade” que sempre norteou Ratzinger e partilhou com este “a dor” pelas acusações que lhe foram feitas de ter sido encobridor e mentiroso. “Nunca tentou esconder o mal na Igreja. É uma característica da sua personalidade”, acrescentou.

Por sua vez, Andrea Tornielli, diretor editorial do Dicastério do Vaticano para a Comunicação, entende, por sua vez, que Ratzinger “falou como cristão”. Um cristão de quase 95 anos, que, “mais uma vez se viu no centro de acusações e controvérsias” e que “que pede perdão com sinceridade, sem fugir à concretude dos problemas”, convidando, ao mesmo tempo, toda a Igreja “a sentir como sua a ferida sangrenta do abuso”.

 

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